Dengue no Rio diminui em relação a 2008, mas ainda preocupa cariocas

RIO DE JANEIRO ¿ Grande vilã do último verão carioca, a dengue já começa a mostrar as garras neste ano na cidade do Rio de Janeiro. De acordo com a secretaria municipal de Saúde, foram registrados 278 casos na capital fluminense no mês de janeiro e três mortes ocorridas em 2009 estão sob investigação. Para que o cenário do ano passado não se repita e não haja um novo surto da doença na cidade, as autoridades já vêm adotando algumas medidas. No entanto, a questão que precisa ser respondida é até que ponto essas ações são suficientes para que se evite uma nova epidemia de dengue no Rio.

Anderson Dezan, repórter do Último Segundo no Rio |

Em janeiro do ano passado, a secretaria municipal de Saúde contabilizou 11.895 casos da doença na cidade do Rio. A epidemia de dengue já era uma realidade e teve seu ápice no mês de março, com quase 48 mil ocorrências confirmadas. O surto da doença no município fechou o ano de 2008 com mais de 130 mil casos da doença e 159 mortos, sendo 60 por dengue hemorrágica.

Mesmo que o número de casos de dengue tenha diminuído consideravelmente na comparação entre os meses de janeiro de 2008 e 2009, a redução deve ser avaliada com critério. O último Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes Aegypti (LIRAa) divulgado pela secretaria municipal de Saúde mostrou que o índice de infestação no Rio pelo mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue, está acima da média nacional. Os dados revelam que na capital fluminense o índice de infestação é de 2,92%, enquanto em mais de 50% dos municípios do Brasil a média é de 1%.

Embora em janeiro do ano passado houvesse uma quantidade maior de casos, a explosão [da doença] foi tardia, o que não nos garante uma situação de tranquilidade [em 2009], disse o secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann.

De acordo com o LIRAa, o Complexo do Alemão, na zona norte da cidade, é o bairro que apresenta o maior índice de infestação do mosquito Aedes Aegypti, com 14,2%, seguido pela Pavuna, com 9,8%. Já o local com maior diminuição de índice foi a ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, caindo de 3,4% para 0,9%, abaixo do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera sinal de alerta.

Ações contra a dengue

Divulgação

Agentes encontram foco da dengue em residência

A ilha de Paquetá foi o local escolhido para receber a primeira ação coordenada da Prefeitura do Rio contra a dengue. No primeiro sábado do ano, cerca de 280 agentes sanitários e 200 bombeiros vistoriaram mais de 1.900 imóveis em busca de focos da dengue e esclarecendo moradores como manter as residências livres de criadouros do mosquito transmissor da doença. Segundo o governo, a escolha de Paquetá foi um símbolo de que a Prefeitura do Rio vai estar presente em todos os lugares da cidade, já que a ilha é o bairro de mais difícil acesso.

"As notícias, até agora, são positivas de que não haverá uma nova epidemia, mas vamos buscar respostas se a epidemia acontecer. Nós vamos focar no preventivo. Se houver uma epidemia, a gente não vai negar", disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, após a cerimônia de sua posse, em janeiro.

No mesmo dia em que foi empossado, Paes publicou no Diário Oficial do Município uma medida criando o gabinete de combate à dengue no organograma da Prefeitura do Rio. O plano de ação do órgão prevê o atendimento em centros de hidratação 24 horas em todas as regiões da cidade, inclusive nos finais de semana. O gabinete também fica responsável pelas ações sanitárias e de conscientização popular no combate à doença na capital fluminense, como a que aconteceu em Paquetá.

Dentro do pacote de ações contra a dengue, a secretaria municipal de Saúde disponibiliza para a população o Tele-Saúde (3523-4025), que funciona durante todos os dias, 24 horas. Através da central de atendimento, as pessoas podem solicitar a visita de um agente de saúde a sua residência e obter mais informações sobre o combate ao Aedes Aegypti. Segundo a secretaria, no ano passado foram contabilizadas mais de 3,5 milhões de visitas de inspeção.

A secretaria estadual de Saúde do Rio também possui um serviço semelhante, o Disque-Denúncia Dengue (0800-941-7700). De acordo com o órgão, 843 denúncias de possíveis focos do mosquito transmissor da doença já foram recebidas pela central de atendimento somente neste ano, sendo a maior parte vinda dos bairros da Tijuca, Centro e Campo Grande. Segundo a secretaria, o tempo médio de atendimento entre a ligação e a visita do agente à residência tem sido de 48 a 96 horas úteis na capital fluminense.

Sala de Situação

Ainda como medida para evitar uma nova epidemia, foi inaugurada em

AE

Técnico usa fumacê para matar o mosquito da dengue

janeiro a Sala de Situação da Dengue Verão 2009, na Praça da Bandeira, na zona norte do Rio. A unidade centraliza informações e números sobre a doença na cidade. No local, técnicos das secretarias de Saúde do Estado, do município e do Ministério da Saúde trabalham em conjunto emitindo boletins semanais para o monitoramento da dengue e o acompanhamento das variações no comportamento geográfico e epidemiológico da doença.

Antes, os boletins eram emitidos quinzenalmente e separadamente por cada órgão. Essa centralização vai organizar melhor as informações, principalmente para a imprensa. Nessa época do ano, há uma necessidade de atualizarmos esses dados com mais rapidez, pois no verão ocorre um aumento natural do número de casos, detalhou o superintendente de Vigilância Ambiental e Epidemiológica da secretaria estadual de Saúde, Victor Berbara.

Para o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, todas as ações contra a dengue que vêm sendo tomadas são feitas com vistas para o futuro. Segundo ele, o governo precisa avaliar a questão a longo prazo. Se queremos ter a situação da doença controlada daqui a cinco anos, temos que começar a trabalhar desde já, analisou no início do ano.

Avaliação

De acordo com o doutor em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Roberto Medronho, o Rio não deve passar por uma nova epidemia de dengue neste ano. Segundo ele, o risco pode ser descartado porque boa parcela da população ficou imune ao tipo mais comum da doença, o 2, no surto ocorrido no verão passado.

O fato de não haver uma nova epidemia não se deve em função do combate ao mosquito Aedes Aegypti e sim a imunidade que a população adquiriu na última epidemia, afirmou.

Para Medronho as medidas de combate à dengue que vêm sendo feitas estão corretas, mas precisam ser realizadas durante o ano todo. Caso contrário, não irão atingir o objetivo esperado.

AE

"População deve fazer a sua parte", diz especialista

Essas ações serão mais importantes para o verão de 2010 do que para o deste ano, analisou. Se esse processo não for feito o ano todo, se for feito somente no verão, o modelo não irá se sustentar. Essas medidas dão esperança, mas devem ser perenes.

O especialista avalia que a articulação entre as esferas municipal, estadual e federal ocorrida neste ano deve ser ressaltada, assim como o processo preventivo feito antes de uma epidemia. Para ele, as ações de combate à dengue estão adequadas, mas não são mais que obrigação do governo.

Pela primeira vez há um trabalho conjunto de prevenção. Foram precisos mais de 100 óbitos para que o governo agisse dessa maneira, disse. O atual prefeito [Eduardo Paes] e o secretário municipal de Saúde [Hans Dohmann] têm mostrado muita vontade política. No entanto, o governo quando entra está cheio de gás. Isso deve ser olhado com reserva, alertou Medronho.

Mesmo com as ações corretas que estão sendo feitas, o sanitarista identifica algumas deficiências no plano de trabalho montado pelo governo. Segundo ele, o governo deve fazer uma maior fiscalização dos macrofocos, como depósitos do Detran e praças abandonadas, e contratar mais agentes de saúde. Procurada pela reportagem, a secretaria municipal de Saúde não soube informar quantos profissionais possui atualmente e se há previsão de novas admissões.

Medronho alerta também para a situação em que se encontra o Centro de Controle de Vetores da Prefeitura do Rio, conhecido como o quartel-general (QG) da dengue, em São Cristóvão, zona norte da cidade. No local fica armazenado o material de prevenção à doença no município, desde panfletos educativos a larvicidas biológicos. O prédio está em condições insalubres, com problemas de iluminação, infiltração e goteiras.

Segundo a secretaria municipal de Saúde, a secretaria de Obras foi informada da situação e irá fazer um levantamento técnico dos prédios do centro de controle para realizar as obras necessárias. A Defesa Civil também foi acionada para avaliar algumas instalações, que podem ser interditadas.

Só teremos total tranquilidade quando criarem a vacina, senão a dengue ainda será um problema. Ainda não somos eficazes no combate ao mosquito Aedes Aegypti e não é somente o governo que tem culpa. A população também tem a sua parcela de responsabilidade. A população deve fazer o seu dever de casa, finalizou Medronho.

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