Em apenas dois meses de funcionamento, mais de 320 cirurgias já foram realizadas. Médicos alertam para epidemia de traumas

Em apenas dois meses, 320 cirurgias já foram realizadas no centro de reimplantes do HC de São Paulo
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Em apenas dois meses, 320 cirurgias já foram realizadas no centro de reimplantes do HC de São Paulo
Em janeiro de 2001, Teng Hsiang Wei, microcirurgião do Hospital das Clinicas de São Paulo, recebeu um chamado de urgência. As chuvas e os ventos fortes, típicos dessa época do ano, tinham derrubado uma árvore de eucalipto de 30 metros, destruindo seis casas em uma favela na região do Grajaú, zona sul da capital paulista. O bip do médico foi acionado para que Soraia, de apenas quatro anos, tivesse chance de ter o braço direito, amputado pelo acidente, reimplantado.

Ser atendido por um médico da área, há dez anos, era uma espécie de roleta-russa, sinal de sorte. A equipe, até pouco tempo, tinha apenas seis profissionais que davam conta da demanda emergencial do próprio HC e demais pacientes encaminhados para o hospital.

Soraia passou por cinco cirurgias nos últimos anos e criou uma relação íntima com o especialista que a socorreu. Hoje, prestes a completar 15 anos, após uma consulta de rotina, a jovem foi convidar o médico para a sua festa de debutante. “Apenas um bolo que uma amiga fez para ela, bem simples,” interrompe Maria da Graça Gomes, mãe da menina e de mais seis filhos.

Desde a inauguração do Centro de Reimplante 24h, em junho de 2010, na unidade de ortopedia do Hospital, casos como o de Soraia podem contar com mais estrutura e menos altruísmo, como gosta de definir Rames Mattar Junior, diretor do Centro de Referência em Cirurgia da Mão do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Este ano, 25 profissionais especializados (dez médicos, cinco terapeutas ocupacionais, cinco auxiliares de enfermagem, três enfermeiras e dois assistentes sociais) foram contratados, a grande maioria com títulos de mestrado e doutorado. O interesse, segundo Mattar, é conhecimento, aprendizado e humanização.

“Os ortopedistas não tem especialização para atender a essa demanda. Até hoje, todo o trabalho foi voluntário, sempre que somos chamados, fazemos o possível para atender e evitar danos maiores às vidas de pacientes. Mas o País definitivamente não tem estrutura para isso. Esperamos que esse centro seja replicado.”

Na visão do especialista, o Brasil tardou a entender a complexidade dessa área e a necessidade de investimento em centros de atendimento especializados. A briga do setor médico é antiga e até agora, apenas um hospital consegue dar conta de todos os reimplantes.

O ideal, segundo preconiza a Organização Mundial da Saúde, é que tenha uma equipe capacitada nesse tipo de cirurgia e microcirurgias reconstrutivas para cada dois milhões de habitantes. “Só em São Paulo temos mais de 11 milhões e apenas um centro específico”, calcula Mattar.

Em dois meses de atendimento ininterrupto já foram realizadas 320 cirurgias, 22 reimplantes. O centro recebe prioritariamente emergências. Embora tal estrutura ainda não tenha provocado um impacto na fila de espera do atendimento eletivo, os médicos endossam que o ritmo acelerado de trabalho da equipe tem apresentado resultados pontuais no tempo de internação dos pacientes e contribuído para diminuir o risco de infecções hospitalares.

“Um paciente que tenha uma fratura exposta não consegue nada além de cuidados primários em outros hospitais. Os riscos de infecção e seqüelas são elevadíssimos. Não é possível circular pelo pronto atendimento esperando semanas, meses para ser atendido.”

Apesar do sucesso de público, a sobrecarga do centro e os custos de tais cirurgias, podem fazer com que o a iniciativa seja interrompida em pouco tempo. “Estamos vivendo uma epidemia de trauma. Sem investimento extra, superior ao teto estipulado para a área de ortopedia, passaremos a dar prejuízo e o centro poderá ser fechado. Nosso setor precisa ser olhado da mesma maneira que as autoridades tratam a área de transplantes", alerta Mattar.

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