Delegados não usaram laudos para interrogar

O promotor de Justiça que acompanha o caso Isabella, Francisco Cembranelli, negou nesta terça-feira que os delegados Calixto Calil Filho e Renata Pontes, do 9º Distrito Policial, no Carandiru, tenham usados os laudos periciais do crime para interrogar Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, na última sexta-feira (18). Ninguém teve acesso aos laudos.

Agência Estado |

    Durante o depoimento, em nenhum momento, a delegada abriu um laudo e leu para o casal, porque não existia fisicamente um laudo nesse momento", afirmou Cembranelli. "O que tínhamos eram informações transmitidas pelos peritos, em conversas com os delegados. E as perguntas foram feitas com base nesses apontamentos."

    Os laudos do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto Médico Legal (IML) foram anexados hoje (22) aos autos do inquérito, segundo o diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), Aldo Galeano. São cerca de cem páginas de laudos, apensadas a outras 700 de inquérito, divididas em seis volumes.

    "As perguntas inerentes aos laudos foram feitas aos indiciados com base em observações dos delegados em visita ao local do crime e em conversas com os peritos", afirmou Galeano. "Em nenhum momento elas foram lidas de um laudo pelos delegados."

    A investigação corre sob sigilo de Justiça. Os advogados de defesa da família Nardoni anunciaram na segunda-feira (21) que entrariam com representação na Corregedoria da Polícia Civil contra irregularidades nas investigações.

    Um dos principais argumentos da defesa é que os laudos foram usados no interrogatório, antes de serem apensados aos autos. A decisão de recorrer à Corregedoria surpreendeu Cembranelli. "Fiquei surpreso com o anúncio, pois entendo que a investigação está sendo feita de maneira criteriosa, sem nenhuma ilegalidade", afirmou. "Foi dada ciência das informações da perícia à Promotoria, aos defensores e aos próprios indiciados ao mesmo tempo, no dia dos depoimentos."

    O que as investigações revelaram

    Até o momento, o que foi revelado pelos laudos do IC é que havia

    AP
    Caso Isabella chega a sua fase final
    sangue no carro de Alexandre, no apartamento do casal e no sapato de Anna Carolina. A polícia sabia, desde o início das investigações, que havia sangue no carro de Alexandre, mas preferiu manter a informação em sigilo para não atrapalhar o encaminhamento do caso e confundir a defesa do casal. Durante a investigação, chegou até mesmo a anunciar que não era sangue a mancha encontrada no veículo.

    De acordo com a polícia, havia sangue no encosto do banco do motorista, no assoalho do veículo e na lateral da cadeirinha de bebê. No apartamento, o sangue teria sido encontrado do hall de entrada até o quarto dos filhos do casal. Exames confirmaram que o sangue é de Isabella Nardoni.

    Trilha de sangue - o laudo também apontou que havia uma trilha de sangue na cena do crime que o assassino tentou disfarçar. Ela começava no carro de Alexandre e continuava a partir da entrada do apartamento. Por isso, a perícia chegou à conclusão de que Isabella chegou ferida ao apartamento do 6º andar do Edifício Residencial London.

    A trilha de sangue foi produzida por pingos que caíram de uma altura de 1,2 ou 1,3 metro de altura, o que é compatível com a altura do pai da menina. O rastro começa no carro de Alexandre, o Ford Ka estacionado na garagem do 2º subsolo do prédio, e só foi revelado após a aplicação do luminol (substância química que destaca manchas invisíveis a olho nu).

    Além da porta do apartamento, a trilha continuava, passando ao lado da mesa com seis lugares e do sofá de couro preto. Em seguida, os pingos mostraram que o assassino de Isabella levou a menina no colo pela sala onde estava a tevê de plasma de 50 polegadas até o corredor em direção dos quartos.

    Uma gota foi identificada, por exemplo, na frente da porta do banheiro. O criminoso entrou na primeira porta à esquerda - o quarto de Cauã e Pietro, que fica antes do de Isabella. Ele pôs Isabella em cima da cama enquanto cortava a rede da tela de proteção, daí a mancha de sangue no lençol encontrada no quarto.

    Pegada de chinelo - foi então que o assassino escorregou e pisou no lençol da cama. É ali que foi encontrada a pegada característica do chinelo que Alexandre usava na noite do crime.

    Tela cortada - a tela foi cortada rapidamente com uma faca e com uma tesoura - na roupa de Alexandre havia partículas de naílon da tela. Isabella foi segurada pelas mãos a 20 metros de altura. Foi solta primeiro pela mão esquerda e depois pela direita. Havia uma mancha de sangue em forma de dedos de criança a 5 cm do parapeito da janela.

    Marcas no pescoço - os peritos também constataram que as marcas no pescoço da menina foram provocadas por esganadura. Pela extensão e o tipo das lesões internas, tudo leva a crer que a compressão foi feita por alguém não tão forte.

    Reprodução/ TV Globo
    Quarto de onde Isabella foi jogada
    Versão do pai - o fato de Isabella ter chegado ferida ao prédio desmente o álibi do pai. Em seu primeiro interrogatório, Alexandre afirmou que ela estava bem quando chegou ao prédio. Isabella dormia. Alexandre afirmou que levou a menina no colo até o quarto dela. Alexandre contou à polícia que levou Isabella sozinho até o apartamento enquanto sua mulher e seus dois outros filhos aguardavam na garagem. Segundo ele, quando voltou ao apartamento encontrou a tela da janela rompida e a criança havia sido jogada.

    Arrombamento e invasão - não havia sinais de arrombamento no apartamento nem de uma possível invasão do prédio. Os peritos usaram um homem de 1,9 m de altura para exemplificar que seria impossível que alguém escalasse o muro dos fundos do prédio para entrar no imóvel. Concluíram que não havia possibilidade de que uma terceira pessoa tivesse invadido o prédio e matado a menina.

    A trilha de sangue no apartamento foi desfeita às pressas pelo criminoso. O que ele não contava era que o rastro de gotas de sangue e a presença de manchas na fralda fossem detectadas pelo uso do luminol.

    Os peritos também analisaram as fitas de vídeo do sistema de segurança do Edifício London e do prédio em frente. Em nenhum momento foi observada a presença de pessoa estranha ou veículo entrando no prédio no dia do crime.

    Portanto, os dois únicos adultos que estavam no apartamento naquela noite eram o pai e madrasta da menina. Essa certeza se deve ainda a um dos princípios de toda perícia criminal: todo contato deixa uma marca. Nenhuma outra pessoa deixou marcas dentro do apartamento além dos dois acusados. Todas as marcas e vestígios no lugar foram feitos pelo casal e pelas três crianças.

    O caso

    AE
    Isabella era filha do consultor jurídico Alexandre Alves Nardoni e da bancária Ana Carolina Cunha de Oliveira. A cada 15 dias, ela visitava o pai e a madrasta Anna Carolina Trotta Peixoto.

    No sábado, dia 29 de março, a garota foi encontrada morta no jardim do prédio em que o pai mora. A polícia descartou desde o princípio a hipótese de acidente. O delegado titular do 9º Distrito Policial Carandiru, Calixto Calil Filho, declarou que Isabella foi jogada da janela do apartamento por alguém.

    O delegado destacou o fato de a tela de proteção da janela do quarto ter sido cortada e de ninguém ter dado queixa de desaparecimento de pertences no local.

    O pai teria alegado à polícia que um homem invadiu o seu apartamento. Ele e Anna Carolina afirmam ser inocentes e, por meio de cartas, disseram esperar que "a justiça seja feita".

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