Trechos do áudio da reunião realizada na Superintendência da Polícia Federal (PF) em São Paulo, na segunda-feira, divulgados hoje a mando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mostram que partiu do delegado Protógenes Queiroz a iniciativa de encerrar a participação nas investigações da Operação Satiagraha para se dedicar ao curso superior de polícia e de deixar o comando do inquérito com outros colegas. Ele comprometeu-se a concluir um relatório, amanhã, e nunca mais retornar ao comando da investigação, a não ser como mero colaborador, no futuro, se os colegas que assumirem o caso precisarem da ajuda dele.

A reunião, que durou cerca de duas horas e meia, foi toda gravada. Os trechos mostram Protógenes admitindo ter "cometido erros", assumindo a responsabilidade por vazamentos e por privilégios à TV Globo na divulgação da operação. "O (Protógenes) Queiroz falhou", diz ele, falando na terceira pessoa, para, a seguir, se explicar melhor em relação aos erros, que estão sendo apurados em dois procedimentos internos na PF e podem resultar em punições administrativas.

"O dr. Troncon me depositou (confiança) e eu firmei compromisso com ele, mas falhou ao meu controle." Troncon é o diretor da Divisão de Combate aos Crimes Organizados da PF e presidia a reunião como emissário da direção-geral, de Brasília. Em outro trecho, Protógenes tenta uma solução: ele propõe conduzir o inquérito e tomar os depoimentos das testemunhas e acusados nos finais de semana, recusada com veemência pela direção da PF. Em nenhum momento, nos trechos divulgados, Protógenes se disse pressionado e até fez elogios explícitos à direção da PF e aos chefes imediatos. "Devo cem por cento da execução dessa operação a dois homens de bem dessa instituição", disse ele, referindo-se ao diretor da Divisão de Combate aos Crimes Organizados, Roberto Troncon Filho, que presidiu a reunião, e ao superintendente da PF em São Paulo, Leandro Coimbra.

Os diálogos mostram formas de pressão consideradas legítimas, sobretudo quando Troncon expõe com firmeza que não é boa técnica conduzir um inquérito nos fins de semana, nem respeitoso com os investigados convocá-los para depor aos domingos. Mostram também que partiu de Protógenes a iniciativa de reconhecer os erros e de lutar pelo curso, que lhe valerá uma promoção na carreira.

Coincidência

Conforme a direção da PF, mesmo sabendo da coincidência de datas entre o curso e o final do inquérito, Protógenes insistiu em comandar a investigação até o fim e desencadeou a Operação Satiagraha, mesmo sabendo que teria de se afastar no auge do caso. A reunião teve a presença de 12 pessoas, entre dirigentes nacionais da PF, enviados de Brasília, da Superintendência de São Paulo, além de Protógenes e dos demais delegados que o auxiliaram na investigação.

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