Delegado entrega inquérito na segunda e deve pedir prisão preventiva de militares

RIO DE JANEIRO ¿ Depois de tomar os depoimentos dos 11 militares acusados de terem entregado três jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira, onde foram assassinados, o titular da 4ª DP (Praça da República), delegado Ricardo Dominguez, pretende ouvir, nesta quarta-feira, um comandante do Exército e uma testemunha, informou o delegado-substituto Afonso Mota. Segundo ele, o inquérito será entregue ao Ministério Público na próxima segunda-feira. Junto com o documento, devem ser feitos pedidos de prisão preventiva.

Redação |


Três militares foram ouvidos na última segunda-feira e os outros oito prestaram depoimento, por cerca de 12 horas, nessa terça. Tudo está encaminhado e terminaremos o inquérito no fim de semana. É certo que tenente (Vinícius Ghidetti de Andrade Moraes, de 25 anos) se sentiu desacatado e quis dar um corretivo nos jovens, disse. Os militares estão presos administrativamente e podem ser detidos preventivamente pela polícia.

O tenente teria levado, no último sábado, os jovens para a sede do Comando Militar do Leste (CML), onde um comandante teria dado a ordem para que os rapazes fossem liberados. O comando foi desrespeitado, pois o acusado não queria perder moral com a tropa. De acordo com Mota, esse comandante e um morador que viu o momento em que os jovens foram levados pelos integrantes do Exército serão ouvidos nesta quarta-feira.

Hierarquia

O delegado Afonso Mota informou que muitos dos militares participaram da entrega dos jovens a traficantes simplesmente porque estavam seguindo a hierarquia do comando. De acordo com ele, alguns acusados não sabiam exatamente o que estava ocorrendo.

Eles não podiam contestar a ordem da hierarquia militar. Muitos entraram no carro que seguia para a Mineira sem saber. Como você vai adivinhar que se tratava de uma furada?, questionou. Segundo ele, o argumento dos advogados Márcio Frazão e Rafael Viana, que defendem dois sargentos, é válido.

Os dois magistrados contaram, nesta terça-feira, que seus clientes e outros três militares receberam a ordem de descer do caminhão do Exército e fazer a guarda da base do morro, enquanto o tenente e o resto dos militares levava os jovens para o alto da favela.

Mota informou que provavelmente somente três ou quatro militares tinham conhecimento do deslocamento para o Morro da Mineira e sabiam o tempo todo que iriam para o alto da favela, onde os jovens não seriam soltos. Acredito que três ou quatro sejam indiciados por homicídio triplamente qualificado. A medida correta seria detê-los e trazê-los para a delegacia, mas levar para o interior de um quartel é um erro. Não estamos vivendo numa ditadura, disse.

O delegado-substituto elogiou a participação do Exército nas investigações. As instituições não têm culpa de ter esse ou aquele elemento. O Exército prestou plena colaboração com a polícia sem contestar se houve crime militar ou crime civil. Eles não entraram nesse questionamento e estão nos ajudando, ressaltou, acrescentando que nenhum dos três jovens mortos tinham mandados de prisão decretados.

Menor não será ouvido

Um menor que era considerado testemunha-chave do caso, pois teria visto o momento exato quando os três jovens foram levados pelos militares não precisará mais ser ouvido, disse o delegado. As provas dos autos são mais do que suficientes para o inquérito. Tivemos outros meios de chegar à mecânica do evento e não se faz necessário expor o menor a situação de risco, explicou.

O caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no último sábado e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

Nesta segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

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