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Defesa do Estado forte é armadilha para tucanos, afirma cientista político

A defesa do papel do Estado na economia, que será oficializada no 4º. Congresso do PT e tem pontuado o discurso da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) como pré-candidata à Presidência, coloca o PSDB, principal adversário na disputa pela sucessão, numa armadilha sobre qual discurso deverá apresentar ao eleitor durante a campanha.

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Enquanto o PT consolida os pilares que serão defendidos em ano eleitoral, o principal partido da oposição ainda se equilibra num dilema entre refutar um discurso potencialmente impopular (a defesa do legado das privatizações do governo anterior) e, ao mesmo tempo, manter a coerência com seu programa partidário ¿ o que desagradaria parte de seus eleitores mais fiéis.

A análise é do cientista político Celso Roma, pesquisador-colaborador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e estudioso da história do PSDB.

Roma prevê que a discussão sobre o tamanho do Estado será central no embate entre governo e oposição na campanha presidencial.

AE
A ministra Dilma Rousseff com o presidente Lula, em evento da Petrobras

A estratégia petista, segundo ele, tem sido colar nos representantes da administração anterior a pecha de defensores do desmantelamento do Estado, trazendo ao jogo político o histórico de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.

A aposta do atual governo, que em sete anos ampliou, por exemplo, as linhas de crédito dos bancos públicos ¿ como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ¿ e passou defender o maior controle sobre os recursos da exploração do petróleo, é promover a comparação dos dois mandatos para firmar o caráter plebiscitário das eleições de 2010, como tem defendido o presidente.

O tema foi colocado pelo PT nas diretrizes programáticas que serão debatidas durante o congresso do partido. Entre as 60 diretrizes há referências ao fortalecimento das empresas estatais, da capacidade de planejamento da economia e das atuais funções do Ministério do Planejamento.

No documento, há também uma crítica velada ao governo anterior quando se afirma que preconceitos ideológicos hegemônicos nos anos 90 fizeram com que o Estado brasileiro passasse naquele período por um processo de desconstrução, que comprometeu sua soberania e eficácia e dificultou investimentos públicos.

Em outra referência velada aos tucanos, afirma que os mesmos que, no passado, foram responsáveis por esse desmantelamento são hoje os que denunciam a gastança e o inchaço da máquina pública. Como contraponto, o partido diz ter combatido, sob Lula, a terceirização e multiplicado concursos públicos e planos de carreira para tornar o Estado mais eficiente.

Para Roma, sinal dessa provocação aos tucanos, agora oficializada, já havia sido dado em setembro do ano passado, quando a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff afirmou que a tese do Estado mínimo é uma tese falida.

Na ocasião, Dilma elogiou as medidas do governo Lula para superar a crise econômica, e cutucou a gestão anterior ao afirmar que quem defendia que o mercado solucionava tudo era contra a realidade.

Em discurso recente, Lula também chegou a declarar que o colapso do sistema financeiro durante a crise fez do Estado o salvador da economia.

Na mesma linha, Dilma, chamada por Lula como a "mãe do PAC", também já afirmou que o Estado deve reforçar "seu segmento executor".

Defesa do legado

A reação tucana à provocação veio com o próprio FHC, que em artigo publicado neste mês criticou o fato de o mote da campanha petista foi ter colocado como alvos as privatizações e a suposta inação na área social de seu governo.

No artigo, o tucano defendeu os ganhos da privatização do sistema Telebrás, da Vale e da Embraer, e desafiou o governo Lula a comparar, sem mentir e sem descontextualizar, o desempenho dos dois governos. Ao fazer isso, entretanto, o PSDB caiu na armadilha armada pelo PT, de acordo com Celso Roma.

Fernando Henrique se escalou para rebater as propostas de Dilma Rousseff. Ele criticou o aumento dos gastos públicos, o aumento do quadro de funcionários públicos e a tentativa de reestabelecer o papel do Estado como empresário. O problema do PSDB é que, desde o final dos anos 1990, o tema da privatização de empresas estatais se tornou impopular. Com a crise econômica em curso, o discurso a favor da redução dos gastos públicos está sendo interpretado como um contrassenso, avalia.

O desafio do PSDB, na avaliação do especialista, é se contrapor ao programa estatizante do PT e defender o legado liberalizante do partido. Não tem saída para isso, afirma.

Serra


Enquanto o PT lança suas diretrizes, o cientista político avalia que caberá ao governador de São Paulo, José Serra, provável nome tucano na disputa pela Presidência, fugir desse debate.

AE
Lula e Serra em encontro, em janeiro
"Não resta alternativa senão desviar do assunto e focar a campanha em sua biografia política e sua experiência administrativa, diz o pesquisador, que em artigo publicado em 2002 demonstra como o programa de governo do PSDB, elaborado em 1988, orientou-se por uma agenda política que previa a desregulamentação da economia, abertura econômica ao capital estrangeiro e a privatização das empresas estatais.

Nesse programa, escreve Celso Roma, a intenção declarada era a de romper com o caráter nacionalista e estatizante que caracterizava a feição do Estado brasileiro desde o governo Vargas na década de 1930.

Intenção que, certamente, será colocada em xeque na campanha que definirá o jogo político pós-Lula.

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