Debaixo de neve, Festival de Berlim começa com filme chinês

Gemma Casadevall. Berlim, 11 fev (EFE).- O filme chinês Apart Together, de Wang Quanan, abriu hoje o Festival de Berlim entre os candidatos ao Urso de Ouro, apoiado em uma espécie de triângulo amoroso no qual pesa mais a vontade do reencontro do que a aguardada polêmica entre a República Popular e Taiwan.

EFE |

Inaugurar um festival praticamente no gelo - nem os esforços dos serviços de limpeza conseguiram remover sete semanas de neve da capital alemã - e com um filme onde não há nem um ápice de sexo, nem música vibrante, nem guerras, mas um trio de idosos permanentemente comendo, foi uma aposta arriscada.

Mesmo o prestígio do diretor, Urso de Ouro em 2007 com "O Casamento de Tuya", conseguiu ganhar o público de Berlim, acostumado a mimar filmes asiáticos, mas a vê-los apenas em dias intermediários do festival, como forma de relaxar entre os desfiles de estrelas.

Wang Quan'an teve a honra de abrir a edição de 60º aniversário e esteve mais que à altura das circunstâncias, naturalmente para aqueles dispostos a assumir que uma abertura de Festival de Berlim não é sinônimo "sine qua non" de astros sobre o tapete vermelho.

"Começar um festival com um filme que trata de reunificação, familiar ou política, é fazê-lo sob um bom presságio", disse o diretor, após passar pelo corredor de imprensa com Lisa Lu, lenda do cinema chinês e centro do trio protagonista.

"Comer e se reencontrar são dois bons exercícios de convivência", explicou depois, diante das insistentes perguntas sobre a grande quantidade de cenas com comida do filme.

"Apart Together" se centra no trio formado por um soldado que fugiu para Taiwan deixando o amor de sua vida em Xangai, a mulher de seus sonhos e o atual marido dela. Tudo isso 50 anos depois da separação do casal original.

Várias coisas no trio são extremas: o formalismo, o afã pela harmonia, a singeleza e, também, a vontade de aproveitar uma boa refeição.

Em torno disso se reúnem seus esforços, com uma única briga em um restaurante e continuamente cercados pela família formada por filhos, neta e algum outro parente, certamente menos generosos que eles em relação ao próximo.

Ao longo do filme, a Xangai dos arranha-céus ganha espaço das casas pobres, a partir de onde os personagens tentam recompor suas vidas, enquanto iniciam os trâmites para o que é provavelmente o divórcio mais exemplar da história do cinema.

Se em "O Casamento de Tuya" Wang montou uma história de amor sobre uma mulher, jovem e formosa, entre duas fidelidades - o marido velho e a terra -, agora o faz sobre um trio e a Xangai de céu cinza.

"Acredito ter transmitido o valor do reencontro e a reconciliação, o máximo ideal para os chineses. Estar juntos, em família, com tudo o que isso significa de felicidade e injúrias", resumiu o diretor.

Os que melhor entendem o valor do reencontro são os que mais perderam com a separação, o perfeito trio conjugal, enquanto a geração posterior parece mais concentrada em seus egoísmos que em superar a fase.

Wang foi recebido com aplausos na entrevista coletiva, a menos movimentada que se pode recordar para um filme inaugural. O oposto do que aconteceu, por exemplo, dois anos atrás, com o Rolling Stones à frente do documentário "Shine a light", assinado por Martin Scorsese.

O filme de Wang foi a primeira dose de cinema asiático entre os 20 aspirantes ao Urso, que terá ainda "A Woman, a Gun and a Noodle Shop", de Zhang Yimou, um remake de um thriller dos irmãos Cohen levado aos tempos do kaiser. EFE gc/rr

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