De volta ao passado, Zélia vê pragmatismo no confisco bancário

BRASÍLIA (Reuters) - A economista Zélia Cardoso de Mello ouviu críticas duras à sua passagem pelo Ministério da Fazenda em evento que reuniu depoimentos de ex-ministros em Brasília para celebrar os 200 anos da instituição. Marcílio Marques Moreira, que sucedeu Zélia no comando do ministério durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992), chegou a fazer uma alusão ao nazismo ao lembrar do chamado Plano Collor, por meio do qual o governo promeveu o confisco de depósitos bancários em março de 1990.

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'Medidas para combater a inflação às vezes são tão perniciosas quanto a própria inflação', afirmou Moreira em palestra gravada antecipadamente e exibida no evento em um telão.

Como exemplo, o ex-ministro citou o fato de a inflação elevada na Alemanha ter contribuído para alimentar o apoio da classe média ao nazismo.

Em seguida, Moreira citou o congelamento de ativos promovido por Collor e Zélia como outro exemplo de medida 'perniciosa'.

'Talvez não houvesse muitos outros caminhos, mas a medida foi tomada talvez em dose exagerada', afirmou o ex-ministro.

Os ex-ministros Paulo Roberto Haddad e Fernando Henrique Cardoso também destacaram, ao participar do evento, a preocupação que tiveram em seus mandatos de não 'quebrar contratos', como havia sido feito no Plano Collor.

Em participação também gravada, Fernando Henrique afirmou que os planos econômicos anteriores ao Real, lançado em 1994 quando ele era ministro, foram definidos sem consultas públicas e provocando 'susto' à população.

'O susto maior foi o confisco do presidente Collor,' afirmou o ex-presidente Fernando Henrique.

Zélia, presente ao evento, argumentou que o confisco da poupança promovido após a posse de Collor foi uma medida 'pragmática' e necessária para fazer frente ao processo inflacionário.

'Naquele momento, tomamos as medidas que tínhamos que tomar para fazer frente à realidade', afirmou Zélia a jornalistas.

Apesar de enxugar brutalmente a liquidez da economia com um confisco bancário que causou enormes transtornos para a população, o efeito prático sobre a inflação foi de curtíssima duração.

'Houve um diagnóstico de que aquilo tinha de ser feito', acrescentou, quando questionada se ela se arrependia da iniciativa.

Durante o seminário, Zélia citou o apoio que recebeu de Collor para adotar medidas 'antipopulares, mas necessárias' e também destacou o fato de seu governo ter tido papel importante na abertura comercial do país.

(Reportagem de Isabel Versiani)

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