De onde vêm as árvores de Natal?

De onde vêm as árvores de Natal? Por Edison Veiga São Paulo, 25 (AE) - Matéria para Sua Vida de 25 de dezembro Quando percorre as trilhas de sua fazenda de 1,4 milhão de metros quadrados, na Ilha do Bororé, bairro da região sul de São Paulo, o paulistano Edwin William da Conceição Hering, de 74 anos, sempre carrega um facão. Ao se deparar com um pinheirinho precisando de poda, não resiste e faz o serviço.

Agência Estado |

"Visitei plantações de coníferas nos Estados Unidos, no Canadá, na Dinamarca, na Inglaterra e na Alemanha, aprendendo as melhores técnicas para uma árvore de Natal perfeita", conta. "Eu mesmo ensinei aos meus funcionários."

Hering, ou Doutor William - como é chamado por todos - domina cinco idiomas e cursou duas faculdades (Economia, na PUC, e Direito, na USP). Mas sua especialidade são as árvores que, enfeitadas, trazem alegria nesta época do ano. Tudo começou em 1942, quando seu pai, o alemão Hans Wolfgang Hering, comprou terras na Ilha do Bororé e, aposentado de seu trabalho como representante comercial de uma marca de máquinas de lavar, decidiu plantar eucaliptos - para fazer lenha - e coníferas.

Em pouco tempo, a casa da família, no Jardim Europa, zona sul de São Paulo - tornou-se um ponto de venda movimentado no segundo semestre. "Formavam filas ali em frente", recorda-se. "Depois começamos a alugar terrenos nos Jardins para comercializar os pinheiros." O negócio foi dando certo. Aos poucos, a carteira de clientes aumentou. Tanto que Doutor William nem exerceu a advocacia. "Desde cedo ajudei a administrar a fazenda."

A história de sua família, tanto do lado paterno quanto do lado materno, foi fortemente influenciada pela crise de 1929. "Meu pai veio para o Brasil pouco antes, seguindo o conselho de meu avô, que dizia ser o momento de recomeçar em outro país", conta. Já sua mãe, de família quatrocentona, era filha do Conde de Serra Negra, um bem-sucedido cafeicultor que tinha 25 fazendas. "Com a crise, só conseguiu salvar uma, a menor, em Botucatu, no interior do Estado", relata.

E era nessa fazenda que o menino William costumava passar suas férias, quando criança. "Queria ser fazendeiro", lembra. O sonho foi concretizado muitos natais depois. William nasceu na Rua Turiassu, em Perdizes, zona oeste da cidade, e costumava brincar no Parque da Água Branca, na mesma região. Estudou no Colégio Visconde de Porto Seguro, que ainda se chamava Deutsche Schule, e no Colégio Marista Arquidiocesano. Em 1942, além da fazenda, seu pai também comprou uma casa na Rua França, no Jardim Europa, para onde a família se mudou. "Nunca mais saí de lá", conta ele, que atualmente vive com sua segunda mulher.

Em sua casa, Natal sempre foi uma solenidade. "Meus pais adornavam uma árvore na sala de visitas, que ficava trancada", rememora. "Reuníamo-nos na sala de jantar e, só depois de o sininho tocar, podíamos entrar e ver os enfeites, as velas, os presentes." O que mais ficou em sua lembrança foi uma bicicleta aro 24 que ele ganhou em 1943, com uma fita vermelha.

Era com ela que William ia, todos os finais de semana, até a Rua Mourato Coelho, na Vila Madalena, na zona oeste, onde havia uma cocheira em que ficavam os cavalos de seu pai. "Andava pelo bairro todo. As ruas eram de terra e só tinha mato", diz.

BISCOITOS DE NATAL
Doutor William controla tudo o que acontece na fazenda Castanheiras. Recebe, por fax, relatórios diários com as atividades dos 25 funcionários. Quando vai para lá, geralmente uma vez por semana, é generoso nos elogios e rigoroso nas cobranças. Ele também exige boa qualidade dos pinheirinhos. "De cada mil que plantamos, não cortamos nem 100 exemplares", revela, lembrando que só as melhores recebem uma etiqueta indicando que podem ser vendidas. Um pinheiro de 3 metros pode chegar a custar R$ 900.

Na fazenda, ele fica à vontade. Veste calça jeans e tênis e demonstra agilidade para caminhar, saltar do trator e interagir com os sagüis - que atrai para perto com um apito. No escritório, na Rua Xavier de Toledo, no centro, de onde administra a fazenda e cerca de 40 propriedades urbanas, o clima é mais sério. Veste paletó e gravata e tem um ar mais sisudo, concentrado. Visível de um sofá de espera, há uma tabuleta azul dependurada, com os dizeres: "Por fineza, aguardar na ante-sala". Dali, podem ser observados quadros espalhados pelas paredes, com fotografias de sua propriedade rural. Tanto na fazenda como no escritório, o café é servido em xícaras decoradas com desenhos de pinheirinhos.

Aos poucos, Doutor William vem diminuindo a plantação de coníferas. "Em 30 anos, quero ter 40% de
minha fazenda com mata nativa", promete. "Murei-a toda, porque o pessoal entrava para roubar palmito e caçar. Quero deixar uma área preservada para a posteridade."

O discurso ecologista é trazido para as ações do dia-a-dia. Doutor William é conhecido entre os funcionários do prédio onde fica seu escritório por uma excentricidade: não utiliza os elevadores. São 12 andares subidos e descidos diariamente a pé. "Desde 1991 eu só uso escadas. Elevadores demandam muita energia elétrica", justifica.

Seus pinheirinhos podem ser encontrados na loja de conveniência de um posto de gasolina próximo à Ponte Cidade Jardim, na zona oeste. Antes de ter se tornado posto, ali era uma floricultura, que já comercializava as árvores de sua fazenda. O terreno é uma das propriedades que ele aluga. O maior pinheiro que ele já cortou tinha 16 metros de altura. Foi utilizado no Anhembi, em 1982, para decorar um evento da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Tradições natalinas são mantidas pelo Doutor William. Quem o visita em dezembro, já sabe: vai ganhar um "biscoito de Natal", costume que atravessa gerações de sua família, alemã de origem escocesa.

Saborear um deles é sentir o gosto de um feliz Natal.

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