PARATY ¿ A última mesa desta sexta-feira (04) foi o destaque do dia e, talvez disputando com a http://sergiorodrigues.ig.com.br/botequim-em-festaconversa de botequim entre Humberto Werneck e Xico Sá, a mais engraçada da 6ª edição da Flip. O escritor norte-americano David Sedaris trouxe à tona o humor politicamente incorreto que domina seus livros e fez do palco da Tenda dos Debates plataforma para uma apresentação de stand-up comedy digna de lotar qualquer clube do mundo.

Eleito humorista do ano pela Time Magazine (contou que recebeu a notícia no dia 10 de setembro de 2001), Sedaris, na verdade, tem bastante experiência com público, já que participa freqüentemente de programas de rádio e viaja muito para divulgar seus livros, como "Eu falar bonito um dia" e "De veludo cotelê e jeans". Homossexual assumido e sem medo de cutucar o profano, conquistou a platéia de cara, ao ler a crônica "Jesus Sálvia", sobre a Páscoa em diferentes lugares do mundo.

"É fácil fazer humor com diferenças culturais", garantiu. "O Natal na Holanda, por exemplo, tem como figura um Papai Noel franzino que tem a ajuda de seis a oito ajudantes para colocar aqueles que se comportaram mal num saco. Isso já não é suficiente?", indagou.

Por isso mesmo Sedaris afirma que faz não-ficção, apesar de nem sempre suas histórias serem totalmente verdadeiras. "Se escrevo uma história e percebo que ela é 97% verdadeira, para mim está ok", brincou, além de fazer troça da política da prestigiada revista New Yorker, da qual é colaborador, que sempre checa os dados das matérias antes de publicá-las ("se entrego piadas, eles checam também").

O fato de Sedaris falar abertamente sobre seu namorado nos textos poderia indicar que seus livros não seriam bem recebidos entre a conservadora comunidade norte-americana, mas acontece o contrário: os estados de direita são alguns de seus maiores consumidores. "Quando era jovem, se você falasse sobre seu namorado em um livro, nem iria para a prateleira. Mas hoje, quando falo do meu companheiro, os casais hetero se identificam em sua vida pessoal."

O resto da noite seguiu com observações ferinas (e nada gratuitas) sobre diversos países, da França, onde mora ("lá eles estão em greve o tempo inteiro"), à Inglaterra, Grécia e Japão, que o escritor visitou recentemente. A capital nipônica, inclusive, foi apontada por Sedaris como seu mundo ideal, onde todas as regras são seguidas. "Mas, de repente, percebi que não tinha mais do que reclamar, fiquei perdido", lamentou.

Observações sobre enchimento para bumbuns e calças para fazer xixi podem à primeira vista não parecer muito sofisticadas para se debater na Flip, mas são totalmente relevantes para se perceber o processo criativo de um dos autores mais hilariantes e bem-sucedidos do humor contemporâneo.

Expressionismo e criminalidade

Noll leu trechos picantes e narrou seu processo criativo / Foto: Walter Craveiro

A primeira mesa do dia teve a participação de três escritores que produzem contos. O alemão Ingo Schulze e os brasileiros Modesto Carone (especialista em Kafka) e Rodrigo Naves (crítico de artes plásticas) foram mediados por Carlos Calil, em um debate que, no entanto, apenas tangenciou o formato das narrativas curtas.

Na seqüência, aconteceu um dos encontros mais esperados do dia. A cineasta argentina Lucrecia Martel e o escritor gaúcho João Gilberto Noll, conhecidos por adotarem posturas pouco convencionais em seus trabalhos, tentaram expressar o processo criativo que adotam, mas nada conversaram entre si.

Pouco afeito à fala, Noll, ganhador cinco vezes do prêmio Jabuti, leu trechos de "Lorde" e de seu apimentado último romance, "Acenos e Afagos". O alto teor erótico e homossexual da cena perturbou um pouco a platéia, mas o sentimento se dispersou em seguida. O gaúcho contou que o personagem que protagoniza seus livros procuram preencher o "vazio da existência com o deleite carnal".

"Não escrevo com muita programação, deixo que os cavalos mentais me arrastem. Me sinto um pintor expressionista, jogando tintas no quadro, e isso me encanta. A grande capacidade da literatura e da arte é mostrar o que está arredio, que foge do convívio social, que assim se pode dizer sem temer ser internado em um hospício."

Martel, por sua vez, voltou a lembrar a influência do ritmo das conversas que ouvia em sua cidade-natal, Salta, no norte da Argentina, como desencadeadora de seu gosto pela sétima arte. Assumindo-se à parte da comunidade cinematográfica por não possuir uma formação cineclubista, expressou a inquietação que sente ao levar um roteiro para as telas.

"Parece que, quando se filma, se rasga o roteiro em mil pedaços, joga-se para cima. A partir daí, eu espero que, por algum milagre, as cenas se juntem de novo e façam sentido. Felizmente, Salta tem um registro bastante grande de milagres e aparições", confessou a diretora, que, no sábado à noite, exibe pela primeira vez na América Latina o filme "La Mujer Sin Cabeza", concorrente do último Festival de Cannes.

O debate sobre tráfico e consumo de drogas dominou a conversa entre os jornalistas Guilherme Fiuza e Misha Glenny. Ambos concordaram que, para combater o problema, é preciso não demonizar os usuários. "Muita gente simplesmente se diverte com drogas e consegue sair direitinho. Por causa do medo - justificado - dos tóxicos, as pessoas deixam esses nuances", afirmou Fiúza. Já o inglês Glenny centrou fogo nas políticas internacionais, a seu ver fracassadas, de combate ao tráfico. "Em sete anos e meio, os EUA investiram US$ 5 bilhões no Plano Colômbia e mesmo assim a produção de cocaína no país aumentou", disse.

A mesa "Estética do Frio" reuniu o compositor gaúcho Vitor Ramil, o argentino Martín Kohan e o norte-americano Nathan Englander. Apesar do primeiro estar lançando o romance "Satolep", uma espécie de atestado da teoria do título da mesa, e os outros participantes ambientarem suas últimas obras em Buenos Aires, o que ligaria o trio ao menos pela região, faltou unidade temática e o debate seguiu desconexo. Ramil teve pouco tempo de explicar suas idéias a respeito da cultura no sul da América, se restringindo a seu romance. Englander, falando rápido, aproveitou para criticar a política externa do governo George W. Bush, enquanto Kohan, o que se saiu melhor, abordou a delicada tarefa de falar de política sem abordá-la diretamente, o que fez no romance "Ciências Morais".

Dia cheio

O penúltimo dia da Flip é aguardado com um dos melhores da festa literária. O quadrinista e escritor Neil Gaiman, assediado ícone pop desta edição, vai dividir o palco com Richard Price, grande nome da prosa norte-americana atual. À tarde, é a vez das conversas com o italiano Alessandro Baricco, o controverso colombiano Fernando Vallejo e, a figura inconteste que passeia por Paraty, o dramaturgo britânico Tom Stoppard.

Confirma abaixo a programação:

- 10h: Guerra e paz, com Chimamanda Adichie, Pepetela
- 11h45: A mão e a luva, com Neil Gaiman, Richard Price
- 15h: Fábulas italianas, com Alessandro Baricco, Contardo Calligaris
- 17h: Paraíso perdido, com Cees Nooteboom, Fernando Vallejo
- 19h: Shakespeare, utopia e rocknroll, com Tom Stoppard

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