Dois documentos históricos sobre o etnólogo e indigenista Darcy Ribeiro (1922-1997) são lançados hoje no quarto aniversário do Museu Afro Brasil, um DVD e um livro organizado pela cineasta Isa Grinspum Ferraz. No DVD, Um Vulcão de Idéias , o autor de Utopia Selvagem (1982) fala sobre índios, educação e política, lembrado por amigos como o professor de literatura Antonio Candido e o compositor Chico Buarque, que lêem trechos de livros seus.

No livro, Utopia Brasil, integrante da série Escola da Cidade (Hedra Edifora, 160 págs., R$ 20) a documentarista reúne cinco textos inéditos, ou que tiveram circulação restrita, escritos nos últimos 20 anos de vida de Darcy. O livro oferece ainda como bônus um texto do cineasta Glauber Rocha sobre o amigo (de 1978) e uma entrevista sua inédita, realizada na volta do exílio (1977) - conversa entre ele, Darcy, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa marcada por discordâncias.

O DVD é uma ilustração da idéia que Darcy Ribeiro fazia de si mesmo, a de uma cobra que muda de pele de vez em quando para responder às exigências de cada estação. Há nele o antropólogo que lutou pela criação do Parque Nacional do Xingu, o educador que queria as crianças na escola em período integral e o escritor de um romance (Maíra) considerado um dos marcos da literatura brasileira por Antonio Candido. Foram mais de 50 anos de produção de um intelectual que, ministro-chefe da Casa Civil de João Goulart (1963), amargou anos de exílio em países latino-americanos (Chile, Peru, Uruguai), antes de voltar ao País e escrever obras fundamentais como O Dilema da América Latina (1978) e O Povo Brasileiro (1995).

A documentarista e organizadora do livro lembra que Darcy foi um dos poucos intelectuais brasileiros engajados na política partidária (vice-governador do Rio na época de Brizola, ele chegou a senador da República). Ela selecionou textos para o livro que revelam o estilo e as contradições de um antropólogo que, num texto do qual não se tem referência precisa (Brasil-Brasis), de 1987, faz uma profecia catastrófica para Rio e São Paulo, vendo ambas como novas Calcutás do terceiro milênio. O etnólogo teve uma antevisão da capital paulista com pobres morrendo de fome nas ruas e ricos vivendo apavorados em campos eletrificados e superarmados, morrendo de medo dos pobres.

Tanto no DVD como no livro, as populações indígenas do Brasil ocupam bom espaço. Darcy viveu dez anos entre os índios e, para o centenário de Lévi-Strauss, comemorado no dia 28, deixou a mensagem: O mito não se decifra, eis o equívoco de Lévi-Strauss. O mito a gente devora ou é devorado por ele. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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