Dantas usa CPI para desqualificar Polícia Federal e Satiagraha

BRASÍLIA - O banqueiro Daniel Dantas prestou depoimento à CPI dos Grampos nesta quinta-feira e buscou desqualificar ações da Polícia Federal e da Operação Satiagraha, simbolizada no delegado Protógenes Queiroz. Em seis horas de depoimento, ele alegou que as provas que o levaram a uma condenação 10 anos por corrupção e à instauração de processo por crimes contra o sistema financeiro foram adulteradas ou obtidas de forma ilegal.

Severino Motta - Último Segundo/Santafé Idéias |

No caso de sua condenação por corrupção, Dantas disse que o vídeo que mostra o ex-presidente da Brasil Telecom e seu assessor, Humberto Braz, e o professor universitário Hugo Chicaroni, supostamente enviados por ele para oferecer US$ 1 milhão ao delegado Vitor Hugo da PF, em troca da exclusão de sei nome da Satiagraha, foi montado .

Tem o vídeo e áudio, depois foi descoberto que o vídeo é feito por um equipamento e o áudio por outro. E que foi montado, o áudio não pertence ao vídeo, disse. E obtivemos laudo, e vamos entregar à CPI [o laudo] que atesta que a voz não é de Humberto Braz, a conversa [do suborno] ocorreu quando ele estava no banheiro, completou.

Sobre outras provas que constam no inquérito de crimes contra o sistema financeiro, Dantas disse à CPI que a Polícia Federal adulterou os documentos e promoveu escutas clandestinas para incriminá-lo . De acordo com ele, a equipe do delegado Protógenes Queiroz adulterou trechos e datas de diálogos e desapareceu com os áudios originais.

[As] gravações [foram] mutiladas, tem enxertos, subtrações, não correspondem a datas e os originais desapareceram, não existem os originais, tudo [está] baseado em cópia. As gravações estão adulteradas, disse.

Agência Brasil
Dantas durante depoimento
Em seu depoimento, Dantas ainda disse acreditar que informações obtidas pela Polícia Federal no curso das investigações da Satiagraha estavam sendo repassadas para seus concorrentes empresariais.

No caso da Satiagraha nós sentimos que eram constantes a antecipação de nossas iniciativas. Até o momento que ficou tão claro que não teria como terem informação a não ser com interceptação (...) Então os elementos são tais que me permitem a forte suspeita [sobre a PF vazar informação para a concorrência].

Após desferir as críticas contra a Polícia Federal, Dantas buscou explicar as supostas facilidades que teria nas esferas superiores da Justiça. De acordo com ele, seus advogados acreditavam que, nas primeiras instâncias, como a que o condenou, poderia ter havido corrupção de magistrados , o que, acredita, seria mais difícil nas altas cortes.

Eu nunca tive facilidade nas outras instâncias, alguns advogados se preocuparam em primeira instância com suspeita que tivesse tido corrupção de juizes de primeira instância, disse. E que nas instancias superiores essa possibilidade é mais remota, completou.

Negativa

Ainda durante a CPI, Dantas se negou a fornecer cópia do inquérito da operação Chacal da Polícia Federal, que o denunciou por violação de sigilo, formação de quadrilha e receptação. De acordo com ele, o inquérito corre em segredo de justiça e não é possível garantir que membros da CPI não vazem o documento.

Seu eu tivesse como ter segurança de que isso não vazaria eu teria como fazer, mas não tenho como ter essa segurança, disse.

Por outro lado, ele disse que caso a comissão envie um perito de confiança ele está disposto a abrir o HD (disco rígido) que está criptografado e foi apreendido , segundo a Polícia Federal, numa parede falsa de sua casa no Rio de Janeiro. Apesar disso, alegando desconfiança, ele se negou a abrir os dados para a PF.

Estaria disposto a abrir o HD para que a comissão avaliasse que não existe nada disso que está sendo falado pelo [delegado afastado] Protógenes [Queiroz], disse. [Deixaria] Ser periciado por essa comissão. Não tenho a confiança necessária na PF para fornecer os programas. Eu abriria para o perito e depois [o HD automaticamente se] fecha, disse.

Reação

Ao ouvir a defesa de Dantas relativa à condenação por corrupção, alguns deputados se irritaram, dizendo que não cabia ao banqueiro fazer alegações sobre um processo no qual a Justiça já o havia condenado. Um dos mais irritados foi Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ).

Ele [Dantas] fica parecendo ser vitima de interceptação, quando na verdade ele é autor. Tem que reconhecer a inteligência e poder do banqueiro. A operação [Satiagraha] não pode ser desmoralizada nessa CPI, não podemos concordar com a desmoralização da PF nessa CPI, disse.

Estou impressionado com o poder de Dantas na Satiagraha. A gente já ouvia falar, mas teve dois habeas-corpus em pouco tempo, conseguiu uma súmula para proibir o uso de algemas, veja que poder, ninguém pode usar mais algema, completou.

Quem também fez duras criticas a Dantas foi a deputada Luciana Genro (PSOL-RS), dizendo que a população brasileira precisa saber que ele é o maior criminoso do colarinho branco do Brasil, e que por isso tenta desmoralizar o trabalho da PF.

Final da CPI

O relator da CPI dos Grampos, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), disse nesta quinta-feira que pretende apresentar seu relatório na próxima semana e deve pedir o fechamento da filial da empresa de investigação Kroll no Brasil. Sobre a possibilidade de indiciamento do banqueiro Daniel Dantas e dos delegados Protógenes Queiroz, antigo responsável pela Satiagraha, e do ex-diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, Pellegrino disse ainda não ter elementos para formar sua convicção.

Sobre a Kroll, o relator disse não ter dúvidas que as consultorias prestadas pela empresa são baseadas em informações obtidas de maneira ilegal, como a quebra de sigilos e grampos telefônicos.

Em relação a Daniel Dantas, Pellegrino disse que tem convicção de sua culpabilidade em casos de espionagem industrial, mas que não está convicto em possuir provas. O caso, de acordo com ele, será analisado nos próximos dias.

Em relação ao indiciamento por falso testemunho de Protógenes e Lacerda, como já adiantou que vai pedir em voto separado o presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), Pellegrino disse que há diferenças entre omitir e mentir.

Eles podem ter omitido algumas informações devido ao sigilo das operações, disse.

Apesar da vontade de Pellegrino, Itagiba disse que não vê problemas em prorrogar, mais uma vez, a CPI, que se encerra no dia 16 do próximo mês. Basta que para isso os membros votem pela prorrogação.

A próxima atividade da CPI deve acontecer no dia 20, em São Paulo, quando procuradores do Ministério Público e o Juiz Fausto de Sanctis devem ser ouvidos pelos integrantes da comissão.

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