Da tórrida São Luís, a história do cineasta e dono da distribuidora Lume Filmes

SÃO PAULO ¿ Onze horas da manhã. Ligo para o número geral da produtora e distribuidora Lume Filmes de São Luís do Maranhão. O site e o catálogo com películas raras de David Lynch e Akira Kurosawa impressionam, dando a entender uma ação profissional de larga escala.

Henrique Melhado Barbosa, do Último Segundo |

Acordo Ortográfico

Alô, por favor, sou jornalista do iG . Gostaria de falar com o diretor-presidente Frederico Machado sobre a distribuidora.

É ele mesmo, diz Machado com um leve sotaque.

A informalidade e a paixão pelo cinema, como ele mesmo descreve, marcam esse maranhense de 36 anos que, após nove anos à frente de uma pequena produtora, também começou a vender e distribuir filmes raros em DVD. O seu primeiro longa-metragem, ao custo de R$ 780 mil financiados de forma totalmente independente, inicia as filmagens nos próximos meses.

"Underground", do sérvio Emir
Kusturica, vencedor em Cannes

Eu faço a curadoria, as legendas dos DVDs e sou eu quem atende o telefone mesmo. É uma produtora muito pequena, diz sobre a empresa que fica ao lado de uma locadora de filmes de arte, também de sua propriedade. Estou falando da locadora, é o mesmo telefone. Não tem nem extensão, explica entre risadas.

Machado conta que sua paixão pela sétima arte nasceu no Rio de Janeiro, para onde se mudou com os pais poetas aos 11 anos de idade. Lá ia ver filmes em Botafogo e fiz um fanzine sobre cinema.

Em 1996, ganhou um concurso do Ministério da Cultura para fazer um curta-metragem e voltou para a capital São Luís. Vi muito potencial aqui e acabei ficando. Dois anos depois, abriu uma locadora de filmes de arte e em seguida a produtora para realizar curtas-metragens e documentários institucionais.

Distribuição

Ao longo dos cinco anos arrendando do Estado um cinema na capital São Luís, onde passava filmes de arte e independentes, e organizando o Festival Internacional de Cinema de Maranhão, entrou em contato com distribuidoras internacionais. Daí nasceu a idéia de trazer filmes que dificilmente encontram espaço no mercado.

"Eraserhead" (1977), primeiro
longa-metragem de David Lynch

Como tenho locadora, vejo a falta de filmes essenciais. E os antigos são fáceis (de conseguir os direitos). Os clássicos são muito baratos, afirma, citando películas que custaram US$ 1 mil pelos direitos de distribuição no País.

Machado atribuiu os preços elevados ¿ cada DVD sai por R$ 44,90 ¿ à pequena tiragem e à dificuldade de distribuição. É acima da média, mas as tiragens ficam entre mil e duas mil cópias e 95% é consumido em São Paulo e Rio de Janeiro, completa, lembrando que em breve deve sair uma coletânea de curtas-metragens, além de películas do cinema marginal brasileiro. O apoio tem sido impressionante, afirma.

Honesto com o Brasil

Sobre seu primeiro longa-metragem, Um Lugar de Solidão, Machado afirma se tratar de sua grande aposta, já que será financiando inteiramente do próprio bolso, algo raríssimo no cenário nacional. Estou botando todas as minhas economias no filme. Acredito muito nele, reflete, orgulhoso.

A produção digital contará a história de um fotógrafo que volta ao Maranhão para conhecer seu filho e realizar um trabalho sobre a infância no Estado. Um road movie experimental, como escreve na sinopse do filme que deve estrear em 2010.

"Os Imorais", de Stephen Frears

Machado pontua sobre as dificuldades de exibição de filmes nacionais, o grande gargalo atualmente na produção do País, mas critica principalmente os projetos que continuam explorando o Estado por meio dos concursos governamentais que concedem renúncia fiscal.

Tem diretor que quer ganhar até R$ 320 mil. Porque ele coloca também a produtora nos vários tópicos do orçamento. Fazer um filme de R$ 10 milhões para só 100 mil pessoas assistirem é só para o diretor se satisfazer, tanto pessoal, como financeiramente. Por isso o cinema brasileiro não dá certo, critica, ao citar projetos que viu como jurado em um concurso do BNDES.

Há projetos honestos, mas não dá para compreender outros. É possível sim fazer um filme com R$ 1 milhão, R$ 700 mil. Por isso, digo que este é honesto, com o Brasil mesmo, afirma.

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