Curtos ou compridos, eis a questão

Curtos ou compridos, eis a questão Por Vera Fiori São Paulo, 05 (AE) - Para Silvia Marques, autora do livro A História do Penteado (editora Matrix), o dilema de optar pelo comprimento dos cabelos atormenta as mulheres desde priscas eras. De Afrodite, deusa loira da beleza e do amor, passando pelo megahair de Maria Madalena ao curtinho de Joana D’Arc, muitas tendências rolaram nas águas da história.

Agência Estado |

"O cabelo é o símbolo máximo de feminilidade. Quando o corte é feito contra a vontade, como demonstração de força e poder, é mais do que um gesto de brutalidade, é uma mutilação", fala a autora, citando os filmes "Malena" e a "A Filha de Ryan", nos quais o terrível castigo é imputado a prostitutas e adúlteras.

Nos anos 1960, as tesouras deram um baile. Na vanguarda, as atrizes Mia Farrow e Jean Seberg, a estilista Mary Quant e a modelo Twiggy sucederam as "gamines", como eram chamadas as mulheres de cabelos curtinhos e de aparência frágil, assim como as atrizes Leslie Caron e Audrey Hepburn, ambas no começo de carreira.

Este ano, a top Isabeli Fontana causou impacto ao surgir lindíssima como uma gamine vamp, na campanha de maquiagem da Chanel. Teria a top dado adeus às longas madeixas? Nada disso, a produção usou uma peruca: "Mudanças radicais são sempre avaliadas em função da imagem da modelo e contratos de trabalho", lembra a agente da top, Monica Marques, da agência Mega.

Assunto que dá pano para manga, os fios sobem e descem ao sabor da moda, mas só no resto do planeta. No Brasil, ai do cabeleireiro que cortar um centímetro a mais do cabelo. É chilique, choro ou motivo para se esconder na certa.

PONTOS DE VISTA
O cabeleireiro Marco Antonio de Biaggi, expert em cabelos compridos (e blondies), comenta esse apego à cabeleira: "Você está falando com a pessoa certa. Atendemos 300 clientes por dia e todas elas querem seduzir e mostrar poder por meio dos cabelos longos, lisos, repicados e com boa textura. É só pensar em Adriane Galisteu, Luana Piovani, Aline Morais, Juliana Paes, Carolina Dieckmann, Isabeli Fontana, Maria Fernanda Cândido, que conciliam exuberância e personalidade", fala Marco, que, em 20 anos de carreira, produziu 700 mulheres para capas das principais revistas femininas, todas de cabelões. "Acho que das 21 capas que fiz para a revista ´Nova´, apenas em 3 delas as atrizes estavam de cabelos curtos."

Dos salões para o visagismo, um outro ponto de vista. Segundo Philip Hallawell, autor de "Visagismo Integrado - Identidade, Estilo e Beleza" (Ed. Senac), a identidade pessoal também se revela por meio do cabelo, e o jogo de comprimentos possibilita leituras que vão além do formato do rosto:

"O cabelo no ombro tem ação neutra. Abaixo, dá sensação de peso, de que a mulher necessita de apoio financeiro ou emocional, além da conotação de submissão, ao querer agradar ao homem. Se for liso e reto nas laterais do rosto, como entre dois trilhos, denota controle, rigidez. Longos, com ondas largas, e repicados, sinaliza sexualidade à flor da pele. Quanto mais curto, maior a independência, leveza, dinamismo. Com relação à estética, por volta dos 30 anos aos primeiros sinais de envelhecimento, o curto promove uma ação visual para cima, como um lifting, enquanto o cabelo pesado dá um efeito contrário".

Hallawell recorre à ciência para entender uma contradição típica da brasileira nos dias atuais, ou seja, assumir posições de comando ou reproduzir o que vê nas capas das revistas? "As imagens provocam uma resposta emocional antes que sejam interpretadas. A avalanche de fotos sensuais e glamourosas é absorvida de maneira inconsciente e subliminar, e a mulher associa beleza exclusivamente à sensualidade. Mas será adequado ser sensual durante 24 horas? Conteúdo e valores como criatividade e dinamismo também são uma forma de beleza".

MUDAR É BOM
Ao ganhar o papel de uma garota moderna, que retorna à cidade natal na novela "Paraíso", da TV Globo, a atriz Fernanda Paes Leme viu as mechas dos longos cabelos castanhos se espalharem pelo salão de Wanderley Nunes. A mudança foi radical: "Em princípio, fiquei um pouco nervosa, mas amei o resultado, mexeu com a minha autoestima." O cabelão foi para o ralo e, com ele, o mito de que a sensualidade está no comprimento. Segundo Wanderley, o corte de Fernanda tem base reta e fios repicados, no estilo da atriz Katie Holmes, "remetendo à praticidade e modernidade."

Mas antes de se empolgar, diz ele, é bom pensar duas vezes: "Se estiver triste, não mude radicalmente para não se arrepender depois. Também é importante levar em conta o formato do rosto. O triangular, por exemplo, é o que menos oferece opções de curtos, ao contrário do quadrado. Largura de testa, tamanho de nariz, queixo e boca devem ser levados em conta, já que o rosto fica todo descoberto", aconselha.

Quem também tosou as madeixas foi a editora de moda Erika Palomino, jurada do programa "Brazil’s Next Top Model". Sobre o novo look (que alguns compararam ao da modelo inglesa Agyness Deyn ), observa: "É um tipo de cabelo que exige atitude, e que só faz parte do repertório visual de quem conquistou o direito de fazer o que quiser sem ligar para a opinião dos outros. É libertador." E acrescenta:

- Cortei com o Pablo e tingi com o Yuha, ambos do MG Hair. Aproveitei que perdi peso para cortar mais ainda. Gostei muito. Eu sempre quis ter um cabelo meio Elis Regina e Mia Farrow, em `O Bebê de Rosemary´.

Sobre a resistência das brasileiras à tesoura, Erika acha que existe uma cultura de sedução em torno dos cabelos compridos. "Os homens supostamente gostam mais, e as mulheres os mantêm como arma de conquista e também como apoio emocional e elemento de competitividade diante das outras mulheres - quem tem o cabelo mais bonito, mais comprido, etc."

Desapegada dos fios, para ela, as modelos deviam ter a mesma postura. Ou mais até, já que o mercado de moda exige mudanças. Jurada durona do programa, comenta o chororô das meninas na hora da transformação de beleza: "Elas se deprimem e sofrem com crise de identidade e personalidade. Não sabem explorar o novo personagem. E também têm medo de o mercado não entender e elas perderem trabalho. Não sabem, coitadas, que é exatamente o contrário!"

Formada em Arquitetura, há cerca de cinco anos a atriz e bailarina Maysa Mundim mantém o corte moderno, assinado por Guilherme Cassolari. "Já usei até moicano multicolorido para um concurso de beleza. Não me importo de mudar sempre, afinal, cabelo cresce mesmo." Sobre o mito da sedução dos longos, ela e Cassolari dividem a mesma opinião: "O homem de cabeça mais aberta se sente atraído pelas mulheres de cabelos curtos."

CORTAR, JAMAIS
Nem mesmo a ideia de que o curto subtrai alguns anos e promove um lifting visual convence Rosa Maria Fernandes. Ela tem trauma de cortes radicais e explica o motivo: "Minha irmã tinha um problema grave de saúde e minha mãe fez uma promessa de não cortar o cabelo dela. Como ia até a cintura e dava muito trabalho, ela cortava o meu no estilo chanel bem curtinho, na orelha. Mas quando fiz 12 anos, dei meu grito de liberdade e fugi da tesoura."

Rosa continua fugindo da tesoura até hoje e tem suas teorias: "Quem gosta de cabelo curto é cabeleireiro. Homens gostam de cabelo comprido", diz ela, taxativa, deixando claro que este é também seu gosto pessoal.

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