Curiosos por conta própria

Curiosos por conta própria Por Fabiana Caso Adoram aprender, mas as salas de aula não os seduzem. Pouco pacientes com professores e regras predeterminadas, os autodidatas preferem forjar métodos próprios para adquirir o conhecimento.

Agência Estado |

Traçam suas próprias metas, mas precisam desenvolver a disciplina e perseverança.

"Todos podem aprender. A escola está focada em passar conteúdos, quando também deveria promover a autonomia", reflete a educadora Silvia Gasparian Colello, professora de Psicologia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ela acredita que todos deveriam ter os seus interesses de aprendizagem estimulados, principalmente nesta era digital, quando conteúdos são facilmente acessados pela internet.

Silvia recomenda que o autodidata interaja sempre com seus pares e, de preferência, com alguém que saiba mais. "Não é possível criar conhecimento apenas fechado em um quarto." Segundo ela, o contexto social não valoriza essa autonomia. "Os cursos viraram produtos hoje. Parece que você só está autorizado a saber se pagar. Mas as informações estão acessíveis para todos."

Que o diga o empresário Fernando Luís Cardoso dos Santos, que nunca gostou de assistir a aulas. "Prefiro fazer as coisas sozinho", conta o paulistano de 25 anos. Não tem paciência nem mesmo para manuais de instrução: quando se trata de câmeras fotográficas ou computadores, aprende na prática. E foi por meio de revistinhas de acordes que aprendeu a tocar piano. Depois de dois anos, o interesse por idiomas tomou o lugar da música.

Aos 17 anos, apaixonou-se pela cultura italiana. Na época, não tinha tempo nem dinheiro para fazer um curso do idioma. Comprou, então, livros didáticos e iniciou seu estudo independentemente. "Acordava às 6 horas e estudava diariamente, cerca de meia hora, antes de ir para a escola", lembra. Criou métodos próprios. "Quando tinha dificuldade com uma palavra, a escrevia 50 mil vezes no caderno." Depois de algum tempo, passou a conversar pela internet com pessoas fluentes no italiano, praticando o que aprendia. Seguiu essa rotina de estudo por cinco anos.

Quando viajou para Paris a trabalho, em 2005, fez questão de reservar assento em um voo que tivesse escala na Itália, para testar o idioma. "Entendi tudo o que as pessoas falavam e consegui me comunicar." Por outro lado, foi a partir daí que despertou também para a necessidade de aprender inglês. "Vi que seria mais útil nas viagens."

Mais uma vez, comprou livros de gramática e um bom dicionário. "Pegava as letras das canções em sites e ia acompanhando, palavra por palavra, enquanto as ouvia", conta. A internet foi uma grande aliada: fazia testes de inglês on line, e mantinha amigos do mundo todo, com os quais se comunicava no idioma.

"A minha meta era escrever um texto a cada três meses e sempre testar meus conhecimentos com pessoas nativas", fala. Agora, já planeja estudar francês, também por conta própria. "Você se cobra muito e, às vezes, fica frustrado, porque demora um pouco mais para aprender. Mas é gratificante. É preciso paixão, disciplina e muito estudo."

MÚSICA, ARTES E DIREITO
O percussionista profissional Arlem Ribeiro, de 37 anos, tornou-se um autodidata no estudo de vibrafone, marimba, conga e pandeiro. Chegou a passar no vestibular e cursar a Faculdade de Música da Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou as aulas depois de uma semana. "Tudo parecia muito erudito", lembra. "Passei a observar os músicos, assistir a shows e ler os métodos importados que comprava." Acordava cedo e já começava a estudar. "É preciso dedicar pelo menos uma hora por dia", recomenda. "Hoje, a internet dá acesso a um universo incrível de informações musicais."

Curiosamente, no país do samba, Arlem diz que ainda não foram desenvolvidos bons métodos de ensino para os instrumentos que vieram da cultura africana. "Para estudar música sozinho, é importante ter disciplina, mas também buscar boas referências", aconselha. "Com a internet, é possível conferir a bibliografia usada em universidades de música, ver o que cada curso está trabalhando." Também recomenda a interação. "É fundamental assistir a shows, observar e pedir dicas para músicos mais experientes."

Já a artista plástica Viviana Ximenes, de 29 anos, uma das sócias do ateliê de moda V and Co., estudou Jornalismo na faculdade, mas não exerce a profissão. Oito anos atrás, pintou a primeira tela. "Gostava de brincar, mas não tinha técnica. Até tentei fazer aulas de pintura com um senhor japonês, mas não tinha paciência. Para mim é um processo intuitivo, uma forma de expressão que encontrei." Faz questão de frisar que não era amiga de artistas plásticos nem fazia parte de nenhum clubinho de iniciados.

Sozinha, começou a pesquisar materiais e acabou criando uma técnica própria de instalação. Faz colagens de recortes de mangás em paredes, incluindo objetos em relevo, como chaves e garrafas. Seu trabalho começou a chamar a atenção, e ela passou a receber encomendas para mudar paredes de lojas e residências. "Mesmo assim, não tinha coragem de falar que era artista plástica." Até o dia em que comprou um anuário de artes plásticas, e descobriu que mais da metade dos artistas plásticos era autodidata. A partir daí, não teve mais receio de assumir sua vocação.

A advogada Paula Piccolo, de 30 anos, também é uma autodidata. Na adolescência, aprendeu violão por meio de revistinhas de cifras. Há seis anos, porém, vem se debruçando sobre uma matéria mais árdua: os oito códigos brasileiros de leis. Como não tem tempo para fazer cursos, pois trabalha como advogada e dá aulas de inglês, decidiu estudar por conta própria para concursos públicos na área de Direito.

Em 2005, Paula criou uma comunidade no Orkut: Eu Estudo Sozinho pra Concurso, que hoje tem 7.685 membros. "É uma boa maneira de trocar materiais, dicas de sites e ideias. Todo dia é criada uma nova lei, e fica difícil estudar sem checar os sites e conversar com outras pessoas."

Dedica de uma a três horas por dia aos estudos, e bem mais tempo nos feriados. Para não perder o incentivo, costumava colar na parede à sua frente uma etiqueta com a remuneração do cargo almejado, que podia chegar a R$ 18 mil. No momento, está dando um tempo dos concursos, mas acredita que logo volte à rotina de estudo, com a disciplina de sempre.

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