Cumplicidade e intimidade ao redor da mesa

Cumplicidade e intimidade ao redor da mesa Por Ciça Vallerio São Paulo, 16 (AE) - Apesar de o hábito das refeições em família ser considerado importante, esse ritual está saindo de cena no Brasil. É o que mostra pesquisa recente realizada pela Unilever em diversos países, intitulada O Poder das Refeições.

Agência Estado |

No levantamento nacional, descobriu-se que 49% das paulistanas entrevistadas jantam em família todos os dias. Parece um bom sinal, se não fosse outro dado: 69% dos brasileiros dizem que se alimentam enquanto assistem à TV.

Ora, com a TV ligada, a refeição compartilhada perde seus principais benefícios, como estimular a união e cumplicidade entre pais e filhos e aumentar a qualidade da alimentação. Estudos internacionais revelam muito mais ganhos. A conversa que acontece ao redor da mesa contribui ainda para o desenvolvimento social e cognitivo das crianças, e para a ampliação de seu vocabulário.

Uma pesquisa do governo do Reino Unido concluiu que as crianças que fazem regularmente as refeições com os pais têm quase o dobro de chance de tirar notas boas na escola, comparadas àquelas que não desfrutam desse hábito. E adolescentes que adotam esse ritual apresentam menores probabilidades de se envolverem em brigas ou de serem suspensos da escola. Também ficariam menos vulneráveis ao uso de drogas, sexo sem proteção e depressão.

"Nesse tipo de encontro familiar, a criança sente-se acolhida e apoiada, o que ajuda no seu desenvolvimento", ressalta a terapeuta de casal e família, Magdalena Ramos. "Já os adolescentes, quando têm uma boa relação dentro de casa, querem preservá-la e, portanto, não precisam se drogar para se sentirem bem."

O psiquiatra grego Petros Levounis, uma das referências mundiais quando o assunto é dependência de drogas legais e ilegais, afirmou em entrevista à revista Veja: "Quanto mais vezes a família se reúne para o jantar, menor o risco de abuso de drogas."

A empresária Clarissa Mena Barreto Ferreira, de 32 anos, reúne a patota durante o café da manhã. Além do marido Gilberto, sentam-se à mesa impecavelmente arrumada - como é de gosto da patroa - os filhos Pedro, de 5 anos, e Rafael, de 3. "Queremos estreitar o vínculo desde a infância deles."

Clarissa lembra que esse é um momento também para ver como os filhos se comportam à mesa e acompanhar a qualidade da alimentação deles. De olho no futuro, o casal estimula desde já a conversa com os pequenos, contando suas rotinas profissionais de uma forma que entendam.

MAIS SAÚDE
A nutricionista Lara Natacci diz que é durante a refeição em família que mais se presta atenção à qualidade alimentar. "Geralmente, o ritual proporciona uma alimentação mais saudável. Além disso, as pessoas comem menos e mais lentamente do que quando estão diante da TV ou sozinhas", ressalta a especialista, que também é professora do curso de pós-graduação da Universidade de São Paulo, na área de Promoção de Saúde.

Com menos pressa, saboreia-se mais o alimento, e é dado mais tempo ao cérebro para que emita o sinal de que a fome cessou. A nutricionista explica que a sensação de saciedade leva 20 minutos para chegar ao cérebro. Ou seja, quem engole tudo rápido acaba comendo mais do que o necessário, por não dar chance para que essa comunicação aconteça. "Por isso, a refeição à mesa também pode evitar problemas como obesidade, além de outros distúrbios alimentares", afirma.

Compartilhar a refeição - nem precisa ser diariamente - é um ato aparentemente simplório, para efeitos tão positivos. E as mulheres sabem disso. Segundo pesquisa da Unilever, 93% das paulistanas entrevistadas consideram esse o principal momento de conversa com os filhos. No levantamento global, 60% dos entrevistados de vários continentes disseram que essa é a hora de estar junto à família, enquanto que 79% dos brasileiros compartilharam da mesma ideia.

Um dos grandes achados do estudo, conforme observa Margarida Valente, gerente de pesquisa da Unilever, foi a informação de que as pessoas estão mais conscientes sobre o poder das refeições em família, independentemente da origem e classe social. "Apesar das diferenças econômicas e culturais dos países estudados, compartilhar esse momento ainda é considerado muito importante para a sociedade moderna, no mundo inteiro. O choque foi perceber como o hábito está perdendo espaço nos lares, por causa da rotina corrida e dos horários desencontrados."

Sim, está cada vez mais difícil manter esse ritual. Mesmo assim, há quem tenha mudado a rotina para conseguir desfrutar desse momento. Após divorciar-se, a engenheira química Márcia Bueno resgatou o jantar em família, com os dois filhos, Ana Luiza, de 15 anos, e Felipe, de 11."Fiz questão de mudar e, desde o começo deste ano, esse hábito se tornou sagrado", avisa Márcia, de 45 anos. "Quando estamos jantando, faço questão de desligar a TV. Pergunto como foi o dia de cada um, conto como foi o meu. É gostoso, pois eles cresceram e estão numa fase legal para conversar sobre todos os assuntos. Percebi como isso ajudou a fortalecer nosso vínculo e intimidade."

Outra que investiu nesse ritual foi a supervisora de marketing Beth Diniz, de 44 anos. "Antes cada um comia em um horário, chegava tarde em casa... até surgir a doença do meu marido", conta. "No ano passado, ficamos sabendo que ele estava com câncer. Esse chacoalhão nos uniu ainda mais." Em dezembro de 2008, veio a boa notícia: após o tratamento, ele estava curado. Como celebração, Beth resolveu adaptar seu horário no trabalho para curtirem juntos o jantar, todas as noites, exceto nos fins de semana. Assim que estaciona o carro na garagem, Beth vai à padaria e compra quitutes para incrementar a comida preparada pela empregada, enquanto os homens arrumam a mesa. "O Gabriel, que está com 11 anos, ficou mais carinhoso e colaborador", conclui Beth. "Sem contar os papos divertidos, que acabam proporcionando confidências e descobertas."

Até mesmo uma mãe supermoderna, como a artista plástica e ilustradora Vivian Suppa, de 52 anos, curva-se à tradição. Porém, adota o hábito de promover refeições conjuntas mais por uma questão prática do que por uma tentativa de confraternização. Como montou escritório no apartamento em que vive, o encontro durante o jantar é uma forma de evitar as interrupções dos rebentos durante sua labuta diária, quando voltam da escola. Afinal, não pode se dar o luxo de interromper o trabalho a todo instante. "No nosso caso, jantar junto não surgiu com o objetivo de estreitar a relação, pois já somos unidos e meus filhos contam coisas que até gostaria de não saber", brinca Suppa, como é conhecida. "É uma forma de resolver questões práticas do dia a dia."

Reúnem-se à mesa a meiga Charlotte, de 12 anos, que adora contar detalhes dos acontecimentos da escola, não antes de fritar uns bifes para acompanhar a comida preparada pela empregada; e seu irmão, o grafiteiro Romain, de 19, que costuma organizar a louça suja na pia. O ritual é acompanhado com prazer pelo atual marido de Suppa, o designer gráfico e ator Eduardo. "É o momento de darmos toda a atenção para eles", fala o pai postiço. Para Suppa, vale também a movimentação da família antes da comilança. "Basta escutar a pergunta ‘o que vamos jantar?’, para todos se envolverem com a organização, o que não deixa de ser outro tipo de prazer."

Uma dica unânime, entre especialistas: para se beneficiar de tudo de bom que as refeições em família trazem, aconselha-se não fazer cobranças nem enveredar para conversas desagradáveis. "Tem de ser a hora de compartilhar experiências de forma gostosa", avisa a terapeuta de casais e de família Magdalena. "É importante resgatar esse hábito tão saudável, já que hoje há cada vez menos solidariedade e colaboração nos lares. Cada um vive por si só, e não consegue olhar na cara do outro."

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