A crítica internacional não foi generosa com Ensaio sobre a Cegueira, filme de Fernando Meirelles que abriu o Festival de Cannes nesta quarta-feira. Apesar de elogiar a edição de Daniel Rezende e as soluções visuais adotadas por Meirelles, a norte-americana Variety, um dos principais veículos de entretenimento no mundo, não aprovou a adaptação do brasileiro, comparando principalmente o longa-metragem ao livro de José Saramago.

"'Ensaio Sobre a Cegueira' chega às telas pomposo e desmotivado, seguindo escrupulosamente o ritmo do livro, mas se aproximando muito pouco de sua visão", afirma um trecho da crítica. Os ingleses Daily Telegraph e The Times também não aprovaram o filme, afirmando que Meirelles se perdeu ao tentar reproduzir fielmente o romance.

Em entrevista coletiva realizada após a exibição do filme para a imprensa, Meirelles disse que o longa é "uma parábola sobre a fragilidade da civilização e a facilidade com que se derrubam valores aceitos pelas sociedades avançadas".

Além de "Ensaio Sobre a Cegueira", há outro longa brasileiro na disputa pela Palma de Ouro: é Linha de Passe, dirigido por Walter Salles Jr e Daniela Thomas, que será exibido neste sábado. Até hoje, apenas um filme brasileiro ganhou a Palma de Ouro ¿ O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, recebeu o prêmio em 1962.

Sem contar a vitória de Orfeu Negro, que, apesar de elenco e música brasileira, tinha equipe e diretor francês, depois disso foram poucas as vezes em que o país figurou entre os ganhadores do festival. Uma delas foi com Glauber Rocha, eleito melhor diretor em 1969 por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, assim como Fernanda Torres, melhor atriz em 1986 por Eu Sei que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor.

A torcida pelo Brasil neste ano continua na mostra paralela Um Certo Olhar (A Certain Regard), dedicada a filmes de diretores estreantes. É o caso de "A Festa da Menina Morta", estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele, e "Afterschool", primeiro longa do brasileiro-americano Antonio Campos. O documentário O Mistério do Samba, por sua vez, que conta com a participação de Marisa Monte para narrar o cotidiano da Velha Guarda da Portela, encerrará a mostra Cinéma de la Plage.

Com presença cativa em Cannes, os curtas-metragens brasileiros terão quatro representantes nesta edição. "Areia", de Caetano Gotardo, e "A espera", de Fernanda Teixeira, estão na lista de filmes da 47ª Semana Internacional da Crítica, que será realizada entre 15 e 23 de maio, e que premiou no ano passado Um Ramo, dos paulistas Juliana Rojas e Marco Dutra. Já o curta "Muro", do pernambucano Tião, foi selecionado para a mostra Quinzena dos Realizadores. O quarto e último curta brasileiro é "O som e o resto", de André Lavaquial e Rodrigo Rueda Terrazas, que estará na mostra Cinéfondation.

Panda e Indiana Jones

Grandes nomes do cinema contemporâneo vão disputar a Palma de Ouro 2008, de um total de 22 indicados. Clint Eastwood concorre com suspense A Troca (The Changeling), estrelado por Angelina Jolie, o alemão Wim Wenders participa com A Filmagem em Palermo (The Palermo Shooting), enquanto Steven Soderbergh mostra seu retrato do revolucionário Che Guevara em Che, inclusive com Rodrigo Santoro no elenco.

Além do Brasil, a América Latina estará representada por dois filmes argentinos. A celebrada Lucrecia Martel, de O Pântano e A Menina Santa, apresenta seu novo longa, A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza). Pablo Trapero, por sua vez, de O Outro Lado da Lei e A Família Rodante, faz a estréia de Leonera.

Apesar da disputa pelo prêmio principal, Cannes também é conhecida por abrigar as primeiras exibições de grandes produções hollywoodianas ou obras de cineastas consagrados. Neste ano, os destaques devem ser as sessões de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, a volta de Steven Spielberg às aventuras do arqueólogo desbravador; Kung Fu Panda, comédia em animação do estúdio Dreamworks; e Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, estrelado por Penélope Cruz e Scarlett Johansson.

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* Com informações das agências Ansa e Reuters

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