Crise financeira desafia capital político de Lula

Por Raymond Colitt BRASÍLIA (Reuters) - Enquanto o Brasil surfava na onda de expansão econômica global, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desfrutou de aprovação recorde. Agora, conforme a crise financeira se espalha pelo planeta, ele enfrenta o desafio de manter o crescimento econômico e o seu capital político.

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Num momento de depreciação do real e das bolsas, e ainda na ressaca de uma derrota do PT em São Paulo, a principal capital do país, começa a ser questionada a capacidade de o governo manter sua base aliada nas próximas eleições.

Mais do que isso, a orgulhosa promessa feita por Lula de que faria seu sucessor em 2010 soa agora otimista demais. "Lula não estará mais em condições de fazer seu sucessor", disse José Luciano Dias, sócio da consultoria CAC, em Brasília.

O presidente, que parece ter um estranho talento para desmentir seus críticos, viu sua popularidade atingir 80 por cento em setembro, graças à mais prolongada fase de prosperidade em várias décadas no país. Poucos meses atrás, a obtenção do grau de investimento e as descobertas de petróleo no pré-sal pareciam tornar Lula e o PT imbatíveis.

Agora, o crescimento econômico pode encolher à metade dos 5 por cento estimados para este ano, segundo economistas.

Os setores eletrônico e siderúrgico já começaram a reduzir a produção devido à desaceleração da demanda, e as fábricas de automóveis entraram em férias coletivas, abrindo uma perspectiva de aumento do desemprego.

"Os fundamentos da popularidade de Lula começam a parecer frágeis", disse Ricardo Guedes, diretor do instituto de pesquisas Sensus.

Temendo um pessimismo contagioso, Lula se empenhou o quanto pôde para minimizar a crise, dizendo que o Brasil hoje seria o país mais bem preparado do mundo para enfrentar "um tsunami" econômico, que aqui chegaria apenas na forma de uma "marola". Depois que o real perdeu quase um terço do seu valor perante o dólar, Lula foi rápido em anunciar que o pior havia passado.

"É claro que a crise atrapalha nossos planos, mas estou convencida de que o histórico social e econômico do Lula vai prevalecer em 2010", disse à Reuters a líder do PT no Senado, Ideli Salvati (SC).

CHAMPANHE ANTECIPADO?

A acentuada queda na cotação do petróleo e a escassez global de crédito geram dúvidas sobre o desenvolvimento das enormes reservas petrolíferas recém-descobertas, que poderiam impulsionar o Brasil ao status de país rico.

"Lula talvez tenha aberto o champanhe antes da hora, e isso pode voltar para assombrá-lo", disse Guedes.

Animado por seu bom desempenho na eleição de outubro, o PMDB, principal aliado do governo Lula, agora quer substituir o PT na presidência na Câmara, além de manter a do Senado.

Alguns parlamentares peemedebistas podem até apoiar a candidatura do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ao Planalto em 2010.

"Com a popularidade de Lula, achávamos que o PT iria bem na eleição", disse o senador Pedro Simon (PMDB-RS). "Mas foi mal, a economia está sofrendo, e não nos vejo apoiando Lula em 2010", acrescentou Simon, admitindo que o PMDB deve se dividir sobre a questão.

Muitos aliados hesitam em apoiar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para 2010, temendo que ela não tenha carisma e reconhecimento popular para herdar votos de Lula.

"Ela é leal, trabalhadora e tecnicamente capaz, mas precisa crescer na arte de fazer política", disse o deputado Henrique Eduardo Alves (RN), líder do PMDB na Câmara.

Mesmo assim, se uma série de medidas adotadas nas últimas semanas pelo governo e o Banco Central conseguirem conter a crise, Lula poderá argumentar que se saiu muito melhor do que seus antecessores no combate a turbulências internacionais.

Não seria a primeira vez que Lula desafia os analistas - como já fez há dois anos, ao ser reeleito por ampla margem, quando meses antes muitos consideravam seu governo politicamente acabado devido ao caso do mensalão.

"Com Lula, o Brasil cresce o dobro do que antes e um ano de crise não vai apagar seis anos de crescimento", disse o deputado Henrique Fontana (PT-RS), líder do governo na Câmara.

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