Caso Mércia Nakashima

Advogada foi morta em maio de 2010. Ex-namorado Mizael Bispo é acusado do crime. Ele está foragido

Fernando Serpone, especial para o iG |

A advogada Mércia Mikie Nakashima desapareceu em maio de 2010 em Guarulhos, na Grande São Paulo. Seu corpo foi encontrado 19 dias depois em uma represa de Nazaré Paulista. Segundo o laudo do IML (Instituto Médico Local) Mércia morreu afogada, mas antes foi ferida por tiro no braço esquerdo, na mão direita e no maxilar. Também foi atingida no rosto por outro objeto não identificado.

O ex-namorado de Mércia Mizael Bispo de Souza, advogado e policial militar reformado, e o vigia Evandro Bezerra da Silva são os principais suspeitos do crime. Os dois dizem ser inocentes e estão foragidos. Ainda não houve julgamento. De acordo com a família da vítima, Mizael não se conformava com o fim do relacionamento, insistia para que eles reatassem e a perseguia.

No dia 23 de maio de 2010, Mércia foi à casa da avó, em Guarulhos. Após sair do local, por volta das 18h30, ela desapareceu. De acordo com Janete, sua mãe, que a acompanhou até o carro, “ela estava feliz”.

Com base nas investigações e depoimentos, a polícia acredita que Mércia saiu da casa da avó e encontrou-se com Mizael em um local próximo. Ele entrou no carro dela, modelo Honda Fit, e os dois seguiram até a represa de Nazaré Paulista.

No local, Mizael agrediu e deu um tiro no queixo da advogada, que desmaiou, segundo a polícia. Ele então saiu do carro e o empurrou para dentro da água com Mércia, ainda viva, no interior do veículo. Pouco depois, Evandro buscou Mizael na represa, conforme haviam combinado, e Mércia morreu afogada.

Após dois dias sem notícias de Mércia, a família informou a polícia sobre o desaparecimento e espalhou panfletos com a foto da advogada em Guarulhos.

Sem ser chamado, Mizael prestou depoimento. Quatro dias depois, foi convocado para depor, desta vez como suspeito de envolvimento no desaparecimento. O ex-namorado disse ter visitado o filho, que tinha com uma ex-mulher, e que esteve com uma garota de programa na noite em que a advogada desapareceu.

Arquivo pessoal
Mércia Nakashima
Segundo o delegado Antonio Olim, que conduziu as investigações, Mizael apresentou diferentes versões nos diversos depoimentos que deu. O delegado afirmou que o ex-policial “premeditou tudo” e que “ele mente o tempo todo”. Ao pedirem a identificação da garota de programa, por exemplo, ele passou a dizer que, na verdade, havia estado com uma mulher casada e queria preservar sua identidade.

Pelo rastreador do automóvel de Mizael, a polícia constatou que, das 18h40 às 22h38 do dia 23 de maio, o carro de Mizael ficou em frente ao estacionamento do Hospital Geral de Guarulhos, em uma rua a menos de cinco minutos da casa da avó de Mércia. Nesse dia, o ex-policial confirma que tentou ligar para a advogada, mas diz que não conseguiu falar com ela.

No dia 10 de junho, após denúncia, o corpo de bombeiros encontrou o carro de Mércia a seis metros de profundidade na represa de Nazaré Paulista (64 km de São Paulo). Dentro do veículo, estavam todos os pertences da advogada, como o celular e a bolsa. A janela do motorista estava aberta. No dia seguinte, um pescador encontrou o cadáver da advogada boiando na represa. A família de Mércia reconheceu o corpo pelas roupas que ela usava da última vez em que foi vista. No sapato de Mizael, foram encontrados resquícios de alga semelhantes às que existem na represa.

Ao longo das investigações, testemunhas importantes apareceram. Um comerciante que pescava na represa na noite de 23 de maio disse ter visto o carro sendo empurrado para a água. Segundo o irmão da advogada, Márcio Nakashima, uma testemunha ouviu “dois gritos apavorantes” antes de o carro afundar.

Um flanelinha afirmou ter visto Mizael em frente ao hospital, onde ele estacionou seu carro e entrou em um Honda Fit. Segundo a testemunha, na mesma noite, cerca de três horas depois, ele voltou ao local para buscar o carro.

Evidências e testemunhas também apontaram a participação do vigia no crime. Um funcionário do posto de Nazaré Paulista onde Evandro trabalhava afirmou que Mizael ia frequentemente ao posto para falar com o vigia. Os dois ficavam de uma a duas horas dentro do carro do ex-policial. “Antes ele (Mizael) ia quase todo dia. Depois do assassinato, parou de ir”, afirmou, em depoimento, acrescentando que Evandro parou de trabalhar “lá pelo dia 30” do mesmo mês.

No dia em que Mércia sumiu, Mizael ligou 16 vezes para o vigia com um telefone celular que não estava em seu nome. No mês, foram 41 ligações. Mizael dizia que conhecia Evandro, mas que não era próximo. Um mês após o corpo ter sido encontrado, o vigia foi preso no interior de Sergipe. Evandro teve a prisão preventiva decretada no dia 25 de junho e era considerado foragido. Inicialmente, o vigia admitiu à polícia ter ido buscar Mizael na represa de Nazaré Paulista no dia 23 de maio. Mas depois negou a versão e disse que foi torturado.

Em seguida, a Justiça decretou a prisão preventiva de Mizael, que não foi encontrado e passou a ser considerado como foragido. No dia 12 de julho, o delegado responsável pelo caso disse em entrevista que Mizael premeditou a morte de Mércia.

No dia 14 de julho, a Justiça revogou a prisão temporária do ex-policial. Poucas horas depois, ele foi indiciado por homicídio doloso triplamente qualificado e ocultação de cadáver. No dia 30 de julho, a polícia entregou o inquérito do caso e pediu novamente a prisão preventiva de Mizael e do vigia.

O Ministério Público (MP) ofereceu denúncia contra o ex-policial por homicídio triplamente qualificado - motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Para o MP, Mizael matou Mércia por ciúme e por não se conformar com o término do relacionamento. O vigia foi denunciado por homicídio duplamente qualificado - motivo cruel e recurso que impossibilitou defesa.

"O homicídio foi causado por motivo torpe e repugnante, pelo fato da vítima ter terminado um relacionamento amoroso com o acusado. O meio cruel foi porque foram feitos disparos em partes não letais do corpo de Mércia, o que causou dor e aflição. Já o recurso que dificultou a defesa da vítima foi pela dissimulação que o acusado usou para atrair a vítima para uma encontro quando sua intenção era matá-la", afirmou o promotor Rodrigo Merli Antunes, do MP, a época da denúncia, em agosto.

Em outubro, foram realizadas audiências de instrução do caso, com os suspeitos em liberdade. Na ocasião, Cláudia, irmã da advogada, disse que Mércia tinha “muito medo” de Mizael por causa do “ciúmes excessivo”. “Ele não a deixava falar com ninguém. Nem comigo". Mizael e Mércia namoraram por quatro anos e tinham um escritório de advocacia em sociedade.

Em dezembro de 2010, Mizael e Evandro tiveram a prisão preventiva decretada novamente após familiares de Mércia e o delegado do caso terem sofrido ameaças. Na mesma decisão, o juiz determinou que os dois vão a júri popular, em data ainda a ser definida. Os dois estão foragidos desde então.

Em fevereiro e em abril de 2011, Mizael e Evandro tiveram o pedido de habeas corpus negado. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) também rejeitou o pedido de liminar de Mizael para transferir o julgamento de Guarulhos para Nazaré Paulista, onde ele atuou como policial.

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