Caso Maníaco do Parque

Motoboy Francisco de Assis Pereira cometeu série de estupros e assassinatos em São Paulo. Ele está preso na cadeia de Taubaté

Fernando Serpone, especial para o iG |

O motoboy Francisco de Assis Pereira ficou conhecido como o “maníaco do parque” após cometer, em 1998, uma série de estupros e assassinatos no parque do Estado, em São Paulo.

Pereira abordava suas vítimas - todas mulheres jovens - na rua, em locais como pontos de ônibus. Ele se apresentava como agente de modelos, cobria as mulheres de elogios e propunha uma sessão de fotos no meio da natureza. Convencidas da história, as mulheres subiam na garupa da moto de Pereira, que seguia direto para o parque do Estado, uma área de 550 hectares que ele conhecia bem.

Uma vez isolados no meio da mata, o motoboy estuprava e matava suas vítimas por estrangulamento. No julgamento, ele afirmou que, ao usar as mãos para matar uma de suas vítimas enforcada, ele não precisou fazer força, pois ela “morreu de susto”.

No dia 4 de julho, um rapaz embrenhou-se na mata do parque à procura de uma pipa e encontrou dois cadáveres em decomposição. A polícia foi avisada e localizou outros dois corpos. Os investigadores concluíram então que as quatro mortes deveriam ser obra da mesma pessoa, que também teria feito outras duas vítimas, cujos cadáveres haviam sido encontrados anteriormente. As seis mulheres tinham cabelos longos e escuros. Quase todos os corpos estavam despidos e com as pernas abertas, o que evidencia a violência sexual, e foram localizados dentro de um raio de 200 metros.

Em meio às investigações, a polícia encontrou três mulheres que haviam registrado tentativas de estupro no parque. Com base nos depoimentos, foi feito um retrato falado do suspeito. Ao ver o desenho, um homem ligou para a polícia dizendo ter o número do telefone de alguém muito parecido.

A informação levou os policiais até uma empresa de transportes no Brás. Ao chegarem ao local, no dia 15 de julho, descobriram que Pereira morava e trabalhava lá como motoboy. Porém, três dias antes da visita da polícia, ele havia sumido, deixando um jornal com o retrato falado do maníaco do parque e um bilhete: “Infelizmente tem de ser assim, preciso ir embora. Deus abençoe a todos.” No local, mais evidências foram encontradas. Fragmentos da carteira de identidade de uma das vítimas estava dentro de uma privada, entupida por restos de papéis queimados.

AE
O motoboy Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, após ser preso em Itaqui, no Rio Grande do Sul (05/08/1998)
A polícia passou a procurar por Pereira, tido como principal suspeito. Em 1995, ele já havia sido preso por tentativa de estupro em São José do Rio Preto, mas pagou R$ 80 de fiança e foi libertado por ser réu primário.

Após 23 dias foragido, o motoboy foi encontrado em Itaqui, no Rio Grande do Sul. Nesse período, ele se tornou suspeito de oito homicídios – outros dois corpos foram encontrados no parque. Logo após sua prisão, Pereira disse ter matado nove mulheres. Em seguida, orientado por sua advogada, afirmou ser inocente, mas acabou voltando atrás e confessou que tinha matado dez mulheres. O motoboy mudou várias vezes o número de pessoas que ele teria assassinado. Em 2001, disse ter assassinado 15 mulheres.

Preso, o motoboy afirmou que havia sido abusado por uma tia materna, o que o fez desenvolver uma “fixação por seios”. Já mais velho, teria sido assediado por um patrão, passando então a ter relações homossexuais. Pereira disse ainda que teve uma namorada gótica que quase arrancou seu pênis com a boca. Por causa desse episódio, ele passou a sentir dor nas relações sexuais – fato confirmado por suas vítimas que sobreviveram.

Os policiais se impressionaram com a capacidade de convencimento de Pereira, já que as jovens subiam em sua garupa persuadidas por sua conversa, sem coação. Logo após sua prisão, a perita da Polícia Civil Jane Pacheco Belucci conversou com ele por duas horas e afirmou: “Ele é inteligentíssimo, tem uma fala mansa que convence”.

“Quando via uma mulher bela e atraente, eu só pensava em comê-la. Não só sexualmente. Eu tinha vontade de comê-la viva, comer a carne”, disse Pereira em entrevista à “Folha de S. Paulo” em 2001. “Me aproximava das meninas como um leão se aproxima da presa. Eu era um canibal. Jogava tudo o que eu podia para conquistá-la e levá-la para o parque, onde eu acabava matando e quase comendo a carne. Eu tinha uma necessidade louca de mulher, de comê-la, de fazê-la sentir dor. Eu pensava em mulher 24 horas por dia.”

A autoria dos crimes foi confirmada por meio de uma comparação entre a marca de uma mordida na coxa de uma das vítimas e a arcada dentária do criminoso. Outras evidências também ajudaram a incriminá-lo: ele usou cheques de uma de suas vítimas e chegou a ligar para a irmã de outra jovem que ele matou dizendo que ela tinha sido sequestrada e pedindo mil reais de resgate. A irmã disse à polícia que a voz ao telefone era a de Pereira.

Em avaliação psicológica, o motoboy foi considerado imputável, ou seja, tinha pleno juízo dos seus atos enquanto cometia os crimes. Acusado de sete mortes e outros nove estupros, além de roubo e ocultação de cadáver, Pereira teve três julgamentos. No total, foi sentenciado a 271 anos de prisão. No entanto, de acordo com a lei brasileira, ninguém pode ficar mais de 30 anos preso.

Em depoimento durante seu último julgamento, em 2002, o motoboy disse ter matado onze mulheres. Ele afirmou que agia "de forma possessiva" e que era dominado por uma "força maligna" quando cometia os crimes.

Preso na cadeia de Taubaté, Pereira diz ser evangélico e que gostaria de ter filhos. No mês posterior à sua prisão, em 1998, o motoboy recebeu mais de mil cartas de mulheres apaixonadas por ele, segundo Gilmar Rodrigues, autor do livro “Loucas de Amor – mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais”.

Pereira chegou a casar-se com uma delas. Marisa Mendes Levy, uma mulher de mais de 60 anos, pós-graduada em História, de família judaica e classe média alta, o viu pela primeira vez na televisão. Ela lhe enviou uma camiseta, mas não teve resposta. "Depois que ela havia desistido, o viu novamente na TV vestindo a camiseta. Ela escrevia de dois em dois dias para ele, cartas enormes", segundo Rodrigues. Porém, ela terminou o relacionamento após notar comportamentos violentos e atitudes estranhas do serial killer.

Um livro (“Caçada ao Maníaco do Parque”) e um filme (“O Maníaco do Parque”) foram produzidos sobre o caso.

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