Caso Ônibus 174

Passageira é morta após Sandro do Nascimento invadir o ônibus 174, no Rio. Ele morreu asfixiado em camburão da polícia

Fernando Serpone, especial para o iG | 02/06/2011 07:00

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No dia 12 de julho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, foi morto pela polícia após manter reféns por cerca de cinco horas em um ônibus de linha no Rio de Janeiro. Antes de morrer, Sandro matou uma das reféns. O sequestro do ônibus 174 foi transmitido ao vivo pela TV.

Sandro cresceu nas ruas do Rio de Janeiro. Sua mãe foi abandonada por seu pai quando ela estava grávida. Com seis anos, ele testemunhou o assassinato de sua mãe, a facadas, na favela do Rato Molhado, onde moravam. Grávida de cinco meses, caiu sobre uma faca que havia sido cravada em suas costas.

Após a morte da mãe, foi morar com a tia, mas fugiu e virou menino de rua. Em 1993, Sandro testemunhou – e sobreviveu – a mais um crime, a chacina da Candelária, na qual oito meninos de rua foram mortos por policiais.

Usuário de drogas, cometia crimes para manter o vício. Amigos da rua diziam que ele cheirava muita cola e cocaína. Ficou preso em uma instituição para menores infratores e, no momento do sequestro, era fugitivo – cumpria duas condenações, por furto e roubo a mão armada. Sandro não tinha documentos.

Às 14h25 do dia 12 de julho de 2000, quando estava em frente ao hospital da Lagoa, na rua do Jardim Botânico, Sandro fez sinal para o ônibus 174, que fazia o trajeto Gávea – Central do Brasil. De bermuda , camiseta, chinelo e revolver 38 à mostra, pulou a catraca e sentou-se em um banco perto da janela. Um dos passageiros notou a arma e sinalizou para um carro da polícia.

Dois policiais interceptam o ônibus em frente ao Clube Militar, e o sequestro tem início. O motorista, o cobrador e vários passageiros conseguem fugir de dentro do ônibus. Porém, Sandro fica com cerca de dez reféns.

Às 14h40, mais policiais chegam ao local e começam as negociações. O Bope (Batalhão de Operações Especiais), tropa de elite da polícia carioca, é chamado para conduzir a negociação com Sandro. Os policiais, sem saber o nome do criminoso, passam a chamá-lo de Sérgio. O sequestrador pede o boné de um policial militar, que passa a usar virado para trás.

Sandro parece visivelmente alterado. Em um determinado momento, ele pede para a refém Luciana Carvalho dirigir o ônibus para saírem do local. Nesse momento, ele se queixa da presença da imprensa e diz para a polícia tirar os fotógrafos e cinegrafistas de perto do veículo. A polícia ainda não tinha isolado a área.

Às 15h48 Sandro atira contra o pára-brisa do ônibus para intimidar a polícia e a imprensa, sem acertar ninguém. Com o passar do tempo, ele começa a falar para as câmeras que o filmavam. “Eu acho que a televisão permitiu que ele se sentisse poderoso”, afirma uma das reféns, no documentário “Ônibus 174”, de José Padilha. “Na medida em que ele sabia que estava sendo filmado e queria ser filmado.”

De acordo com os reféns, ele os obrigava a chorar e a gritar, para que a situação dentro do ônibus parecesse ainda mais dramática. Inicialmente, ele não faz nenhuma exigência. Sandro diz aos reféns que não quer se entregar pois teme ser morto pelos policiais ou na cadeia.

Às 16h02, o refém Carlos Leite Faria, 35 anos, pula a janela do veículo e é brevemente detido como suspeito de ser cúmplice de Sandro. Meia hora depois, Sandro olha para um refém, vê sua bolsa e questiona se o rapaz é estudante. Ao receber uma resposta positiva, afirma: “Então vai embora que você deve estar atrasado”. William Nunes de Moura, 28 anos, sai do ônibus e diz que Sandro parece estar drogado e grita muito.

A refém Janaína Lopes Neves, de 23 anos, é obrigada a escrever com batom no para-brisa do ônibus: “Ele vai matar geral às 6h. Arrancaram a cabeça da mãe dele”. Outras frases como “ele tem um pacto com o diabo” também foram escritas pela refém.

Às 17h24, Damiana Nascimento de Souza é libertada após dizer para Sandro que tinha um irmão na cadeia. Ela já havia sofrido dois AVCs (acidente vascular cerebral) anteriormente e estava passando mal. No episódio, ela sofreu mais um AVC, perdendo a fala e os movimentos do lado esquerdo do corpo.

“Da mesma forma que vocês é perverso (sic), eu também não sou de bobeira não”, grita Sandro de uma das janelas do ônibus. Apontando a arma para a cabeça de uma das reféns, ele afirma que irá matá-la às 18h “para o Brasil inteiro ver” se não receber uma granada. “Há 15 anos, arrancaram a cabeça da minha mãe”, continua. “Eu não tenho nada a perder não.”

Na opinião de psicólogos e cientistas sociais, ele prolongou a situação pois ali sentiu-se poderoso, deixou de ser um menino de rua “invisível”, indiferente aos outros, como sempre fora.

Foto: AE

Sandro Barbosa do Nascimento mantém uma mulher como refém durante o episódio conhecido como Sequestro do Ônibus 174

Fazendo ameaças e falando descontroladamente, ele menciona as chacinas de meninos de rua de Vigário Geral e da Candelária. “Vocês não mataram meus amigos na Candelária? Eu tava lá.”

O tenente-coronel José Oliveira Penteado, responsável pelo comando da operação, queria que algum membro do Bope atirasse em Sandro, e atiradores foram posicionados. A localização do sequestrador favorecia uma ação desse tipo: Sandro estava em um ônibus cercado por janelas que permitiam vê-lo.

Ele, inclusive, colocou a cabeça para fora do ônibus diversas vezes. Segundo policiais presentes na ação, houve mais de dez oportunidades para se efetuar um disparo na cabeça de Sandro sem colocar os reféns em risco. No entanto, Penteado recebe várias ligações de autoridades não reveladas dizendo para não matar o sequestrador.

Às 17h38, Sandro coloca um lençol na cabeça de Janaína e diz que irá matá-la. O sequestrador coloca Janaína no chão do ônibus e vai a uma janela, com outra refém, para exigir R$ 1.000, duas granadas e um fuzil.

Sandro então dispara para baixo, supostamente na direção de Janaína. A refém que ele segurava consigo põe a cabeça para fora da janela e diz que ele matou a garota no chão. Do lado de fora, não é possível ver o que acontece com Janaína, que finge ter sido atingida. O sequestrador ameaça matar outra mulher. Segundo as reféns, ele mudava muito de planos.

Às 18h44, um homem de muletas é libertado. Em seguida, sem aviso prévio, ele sai do ônibus usando a refém Geísa Firmo Gonçalves, de 20 anos, como escudo humano. Ele segura Geísa pelos cabelos, aponta o revólver contra sua cabeça e diz aos policiais que esta é a última chance de negociação, senão ele irá matar a refém e suicidar-se.

Escondido na frente do ônibus, um policial do Bope, soldado Marcelo Oliveira dos Santos, 27 anos, aproxima-se de Sandro lentamente pelo lado direito, tentando não ser notado. Porém, quando ele prepara sua submetralhadora HK para atirar, Sandro vira a cabeça em sua direção. O policial erra o tiro e acerta de raspão o queixo de Geísa.

O sequestrador atira nas costas da refém, e ambos caem no chão. Ele faz ainda dois disparos em Geísa antes de ser desarmado. Para os trinta e cinco milhões de brasileiros que acompanham ao vivo pela TV, a impressão é a de que ele havia sido atingido.

A multidão de curiosos avança na direção do sequestrador com a intenção de linchá-lo. Com dificuldade, a polícia coloca Sandro em um camburão, onde ele morre por asfixia. Segundo os policiais que estavam dentro do carro, ele estava muito agressivo, tendo quebrado o braço de um policial e mordido outros. A solução, segundo os policiais, foi fazer ele desmaiar por meio de uma “gravata”.

A polícia afirmou posteriormente que o soldado que atirou agiu por iniciativa própria – homens do Bope têm esse grau de autonomia. A ação policial foi criticada por uma série de erros e falhas durante a ação: a área demorou para ser isolada, o sequestrador não foi morto quando ele estava mais vulnerável, ou seja, dentro do ônibus, a arma usada por Santos era inadequada, os policiais não tinham rádio e comunicavam-se por sinais, entre outras.

Os dois policiais acusados de assassinar Sandro foram considerados inocentes por um júri popular. A perícia mostrou que Geísa foi atingida por quatro disparos: o primeiro, feito pelo policial, de raspão no queixo, e os outros três, de Sandro – dois no torax e um no braço.

Além do documentário de José Padilha, feito em 2002, o sequestro também foi adaptado para o cinema em “Última Parada 174” (2008), dirigido por Bruno Barreto. Após o crime, a linha 174 mudou de número para 158.

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