Caso Lindomar Castilho

Cantor matou a ex-mulher com um tiro em 1981. Sete anos depois, saiu da prisão em liberdade condicional

Fernando Serpone, especial para o iG | 02/06/2011 07:00

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No dia 30 de março de 1981, o cantor Lindomar Castilho matou com um tiro sua ex-mulher, a cantora Eliane Aparecida de Grammont. Segundo Castilho, Eliane tinha um caso com um primo do cantor, que também saiu ferido do episódio.

Nascido em Rio Verde (GO), Lindomar Castilho tornou-se famoso nos anos 1970 ao cantar boleros e samba-canções como “Você é Doida Demais”, música-tema do seriado da Globo “Os Normais”. No começo da década de 1980, o cantor estava no auge da fama.

O casamento de Castilho com Eliane durou cerca de dois anos. Eles tiveram uma filha, Liliane, e se separaram em junho de 1980. Agressivo e ciumento, Castilho bebia muito e espancava sua mulher, segundo afirma a procuradora Luiza Nagib Eluf no livro “A Paixão no Banco dos Réus” (Ed. Saraiva).

“Eliane teve de abandonar sua profissão de cantora, que somente retomou depois da separação do casal”, diz a procuradora, no livro. “Quando morreu, fazia seis meses que tinha voltado a cantar e apenas vinte dias que o desquite havia sido formalizado.”

Na noite de 30 de março de 1981, Castilho foi ao bar Belle Époque, na Alameda Santos, em São Paulo, onde Eliane fazia uma apresentação, acompanhada do violonista Carlos Roberto da Silva, o Carlos Randal, primo de Castilho.

"Levantei os olhos, deparei com Lindomar que apontava a arma na direção de Eliane, segurando com as duas mãos”, disse Randal à época, ao jornal “Folha de S. Paulo”. “Ele estava quase a dois metros dela quando disparou.”

Castilho atirou cinco vezes. Eliane foi atingida no peito. Randal também foi baleado no abdome, mas não percebeu na hora. “Levantei do banco e atirei o violão no rosto do assassino, saltando em seguida sobre ele, sendo ajudado pelo proprietário do café, que desarmou Lindomar”, contou Randal. “Somente mais tarde, quando corria em direção à rua Pamplona para pedir socorro, percebi que também estava feri¬do, com uma bala na barriga.”

O violonista acompanhou Eliane até o Pronto-Socorro Brigadeiro, mas ela morreu no caminho. Castilho tentou fugir, porém foi dominado e quase linchado. Quando a polícia chegou, ele estava caído na calçada, com pés e mãos amarradas.
O cantor foi preso em flagrante. No dia 24 de abril, recebeu liberdade provisória por ser réu primário e não representar perigo para a sociedade.

Em maio, Castilho foi interrogado. Em meio a manifestações do lado de fora do Fórum, ele afirmou ter certeza de que Eliane tinha um caso com seu primo. Na ocasião, o advogado de defesa, Valdir Trancoso, fez questão que seu cliente saísse pela porta da frente. O cantor partiu cercado por 17 policiais.

Inicialmente, Castilho foi acusado de homicídio qualificado por motivo fútil e por não dar chance de defesa à vítima, O tiro que acertou seu primo lhe rendeu mais uma, por tentativa de homicídio. A defesa recorreu e o “motivo fútil” foi retirado da acusação. O relator entendeu que "o ciúme, fonte de paixão, não pode ser considerado motivo fútil".

Foto: AE Ampliar

O cantor Lindomar Castilho é detido após matar sua ex-mulher, a também cantora Eliane Aparecida de Grammont (30/03/1981)

A família de Eliane contratou o ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos como advogado. Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, em 1984, Thomaz Bastos disse que o assassinato era classificado como “o falso crime passional”. “Lindomar se dizia apaixonado e traído pela mulher, mas eles já estavam separados havia um ano. Foi um crime premeditado. Quando Lindomar entrou naquele bar, ele entrou para fuzilar Eliane."

Três anos após o crime, o julgamento de Castilho mobilizou grande número de manifestantes e organizações feministas que gritavam frases como "bolero de ma¬chão só se canta na prisão". Além daqueles que pediam a punição do cantor, havia também um grupo autodenominado “os machistas”, que ofendia e jogava ovos nas mulheres que protestavam, segundo o livro da procuradora. A polícia teve de intervir para impedir um confronto físico.

O público no tribunal aplaudiu de pé os discursos feitos pelo promotor Antônio Visconti e por Thomaz Bastos. Cada um falou por uma hora. A defesa, por sua vez, argumentou que havia sido um homicídio cometido sob força da emoção, tentando atenuar a pena, mas a tese não foi aceita.

A defesa disse ainda que não houve tentativa de homicídio de Randal, já que ele teria sido atingido por acidente, dada a imperícia do cantor no manuseio da arma. O argumento convenceu e o crime passou a ser de lesão corporal culposa de natureza leve.

Por 4 votos a 3, o júri decidiu que houve homicídio qualificado pela impossibilidade de defesa da vítima e, no caso de Randal, lesão corporal culposa. No dia 25 de agosto de 1984, Castilho foi sentenciado a 12 anos e dois meses de prisão.

Até então em liberdade, o cantor apresentou-se para ser preso e, após um período detido em São Paulo, foi transferido para Goiânia. Dois anos depois, conseguiu o direito de cumprir a pena em regime semiaberto e, em 1988, saiu da prisão, em liberdade condicional.

Mais de 20 anos depois, Castilho diz não saber como explicar o crime. “Não há registro do que aconteceu em minha cabeça. Eu a amava com certeza total”, afirmou o cantor à revista “Gente”, em 2002. “Qualquer pessoa sob forte emoção é capaz de fazer o mesmo. Me desliguei da realidade por causa de uma violenta emoção.” Porém, ele aponta Randal como o responsável pelo crime. “Esse parente meu foi o causador de tudo, de desavenças, de problemas”.

Na prisão, o cantor chegou a gravar o disco “Muralhas da Solidão”.

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