Cresce o número de mulheres que optam por ter os filhos em suas próprias casas

Sentada em um banco do seu quarto, com o marido lhe fazendo massagem nas costas, e dois médicos aguardando a hora do parto ao lado. Foi assim que a administradora Ana Maria Fiorine, de 29 anos, deu à luz sua filha, Clara, no dia 17 de junho deste ano. Ana Maria faz parte de um grupo de mulheres de classe média, muitas vezes formadas, que abrem mão da estrutura de um hospital e pagam até R$ 9 mil para terem seus filhos em suas próprias casas.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Segundo parteiras profissionais, o parto domiciliar é uma alternativa que tem crescido na capital paulista, apesar de não existirem dados oficiais sobre o assunto. Os cartórios de registro de recém-nascidos não diferenciam os partos acidentais em casa dos que foram planejados. Hoje fazemos cerca de 10 por mês na cidade, há sete anos era um por mês e olha lá, afirma a bióloga e educadora perinatal, Ana Cristina Duarte, de 43 anos. Ela, que diz ter participado de mais de 300 partos, entre realizados em hospitais e em residências, formou-se neste mês no curso de obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP) Leste. Enquanto ainda não realiza um parto sozinha, trabalha como doula, ou seja, acompanha o parto e se preocupa com questões não técnicas, como o conforto da gestante.

As mulheres que optam por um parto em casa buscam ter o filho da forma mais natural possível, fugindo de procedimentos hospitalares como raspagem dos pêlos pubianos, utilização de anestesia para aliviar a dor, ocitocina sintética para acelerar as contrações ou a realização de episiotomia (corte na região do períneo para facilitar a saída do bebê). A diferença é que você está na sua casa, faz o que quer. O profissional te respeita, acompanha e não faz o parto. Você é quem o faz, defende Adriana Tanese Nogueira, psicoterapeuta fundadora e presidente da Organização Não Governamental (ONG) Amigas do Parto. É um nascimento sem violências e intervenções desnecessárias, completa ela, que teve sua filha, Beatriz, de parto domiciliar no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1998.

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Ana Maria e a filha Clara instantes após o parto

Em geral, a decisão de fazer um parto domiciliar acontece após a decepção de consultar-se com um obstetra convencional. Este foi o caso de Ana Maria, que a princípio pensava em parir no hospital, mas percebeu que o médico queria empurrar-lhe uma cesária. O obstetra disse que, se não fosse cesária, como o hospital iria saber que eu estava indo para lá. Achei tão absurdo, o filho nasce quando tem que nascer, afirma. Após a indicação de uma amiga, que já havia tido o seu bebê em casa, ela chegou até o profissional adequado ao que desejava. Além do obstetra, ela contratou também um pediatra e uma doula, no valor total de R$ 9 mil. Eu achava que não era o momento de brigar com uma instituição. Queria viver meu parto sem entrar um monte de gente na sala para ver se era lá que acontecia, diz.

O mesmo motivo levou a estudante de enfermagem Izabela Bresson Tanuri, de 23 anos, a optar por uma dupla de enfermeiras na hora de ter o seu filho Mathias, no dia 4 de setembro deste ano. Na primeira consulta com o ginecologista eu me senti mal. Ele foi seco e disse que poderia fazer um parto normal, mas que a maioria das mães pede cesária porque é mais seguro, conta.  Izabela procurou soluções alternativas na internet e chegou até o Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA), criado pela doula Ana Cristina Duarte, que a indicou as enfermeiras obstetras Márcia Koiffman e Priscila Colacioppo. Na hora que conversei com elas decidi que seria deste jeito. Só faltava o dinheiro, afirmou. Pelo atendimento personalizado, as gestantes podem pagar até R$ 5 mil, dependendo da experiência da parteira.

Além da ausência de intervenções hospitalares, as mães destacam também o ambiente intimista e o contato maior que podem ter com os seus bebês logo após o nascimento. A Clara nasceu às 17h45 e veio direto para o meu colo. Fui para a cama com ela ainda com o cordão umbilical, conta a administradora Ana Maria. Quando o cordão parou de pulsar, o meu marido cortou com a ajuda do pediatra. Até hoje ele brinca que foi ele quem tirou a cordinha, diz, aos risos. O primeiro banho também foi dado pelo pai.

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Izabela, o marido e o filho Mathias
No entanto, ter um filho longe do hospital, geralmente, significa enfrentar a família. Todo mundo falava que eu era maluca, mas ninguém se intrometeu, afirma Izabela Tanuri, que no momento do parto contou com a presença da mãe para ajudá-la. Diferentemente de Ana Maria, que se encontrou com o pai horas antes em sua casa, quando já estava com fortes contrações, mas não lhe contou que a neta estava prestes a nascer ali mesmo. A minha família e a do meu marido não sabiam que iria ser em casa. Existe muito preconceito e a gente achou que não eles não iriam entender, diz.

Para a enfermeira obstetra Márcia Koiffman, o importante é a mulher decidir qual é o local que se sente mais segura para ter o seu bebê, mesmo com as críticas que pode sofrer. Não acho necessariamente que o parto em casa é o melhor, mas, para aquele casal que quer ter desta forma, ser forçado a ir para o hospital é muito ruim, afirma ela, que tem 10 anos de experiência como parteira e neste ano realizou cerca de 70 partos domiciliares. Desde que comecei a atender em casa, em 2005, a procura só tem aumentado. Antes era só um parto por mês, diz.

Moda perigosa

Não há leis que proíbam o parto domiciliar no Brasil e toda enfermeira tem habilitação legal para atender este procedimento. Porém, o Conselho Regional de Medicina se opõe a este tipo de parto. Não existe determinação, mas existe recomendação do Conselho para não realizarmos. Se ocorrer algum problema e ficar comprovado que, se a gestante estivesse em um ambiente hospitalar, o resultado seria outro, a responsabilidade será do médico, explica o obstetra Antônio Júlio Barbosa, do Hospital Santa Catarina, em São Paulo.

Para evitarem complicações futuras ¿ para a mãe, o bebê e a si mesmas ¿ as parteiras costumam adotar alguns cuidados básicos. O parto em casa só é feito se não for detectado nenhum problema nos pré-natais e a gravidez for considerada de baixo risco. A mãe não pode ter doenças como diabetes e hipertensão, e entrar em trabalho de parto antes da 37ª semana. Casos de gravidez de gêmeos ou quando o bebê está sentado também são transferidos para o hospital.

A parteira Márcia explica que, por segurança, prefere ter um hospital na retaguarda, mas diz que nunca precisou encaminhar uma mãe em situação de emergência. A gente leva todo o material, soro, remédio para parar sangramento, oxigênio e aparelho de reanimação neonatal, afirma.

Contudo, segundo a ginecologista Alessandra Palma, da Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André, mesmo o parto sendo um procedimento de baixo risco, existem problemas que precisam de intervenções imediatas. Alessandra cita como exemplos o sofrimento fetal agudo (falta de oxigênio no sistema nervoso que pode levar a paralisia cerebral), descolamento de placenta da mãe e partos que precisam da utilização de fórceps para o bebê sair. O parto é uma coisa natural, teoricamente toda mulher está preparada, mas existem algumas situações que se o médico não estiver presente podem acabar em tragédia, alerta.

Totalmente contra o parto domiciliar, o professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto, Luiz Camano, discorda da presença de apenas uma enfermeira e considera que nem sempre há tempo hábil para transferir a gestante. Imagine como vai remover neste trânsito caótico de São Paulo? A enfermeira obstetra é importante, mas deve fazer parte de uma equipe médica. Ela sozinha não tem condições de resolver uma patologia que apareça durante a evolução do parto, diz. Para o profissional, o parto em casa é um retrocesso. Isso era há 200 anos, hoje, só uma pessoa que não entende o problema que pode surgir que faz isso, critica.

Para as mães que passaram por essa experiência, porém, os riscos parecem não importar. Na hora que o médico colocou a mão no meu ombro tive certeza que não ia dar nada errado. No próximo, vai ser em casa também, afirma Ana Maria, a mãe da Clara.

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