Cremesp traça perfil de médico acusado de abuso sexual a pacientes

SÃO PAULO - O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) traçou o perfil do médico acusado de cometer abuso sexual contra pacientes. Homens entre 40 e 60 anos, casados e com discurso religioso são recorrentes nas 35 denúncias do tipo que, todo ano, em média são apresentadas contra os profissionais paulistas.

Agência Estado |

Os ginecologistas e médicos da saúde da família dominam as estatísticas. Outro dado é que 15% dos citados são reincidentes, ou seja, aparecem como assediadores para mais de uma vítima.

Desde 2002 até 2008, foram protocoladas nas delegacias médicas 272 denúncias de abusos cometidas dentro dos consultórios públicos ou particulares. As queixas são consideradas preocupantes, ainda que representem menos de 1% do total de comunicações feitas ao Cremesp (4 mil em média), e apresentam outra particularidade: mais da metade (65%) é arquivada.

O alto índice de arquivamento levou o Cremesp a instalar uma câmara para discutir o assédio sexual de jaleco. É um tema delicado que não pode ser olhado só pelas queixas. Na denúncia, fica sempre a palavra do denunciante contra a do denunciado, afirma Maria do Patrocínio Tenório Nunes, médica que liderou a formação de um grupo multiprofissional dentro do conselho para estudar cientificamente as ocorrências.

A falta de provas é apontada como causa provável para os arquivamentos. E a dificuldade em comprovar o assédio, considerado pelos especialistas a forma mais perversa de destruir a relação médico-paciente, é agravada por um outro fator, lembrado por Jarbas Simas, presidente da Sociedade Paulista de Perícias Médicas. Além da ausência de testemunha, existe ainda o silêncio das pacientes. As próprias mulheres sentem-se intimidadas em relatar, por receio da interpretação do marido ou da sociedade, que ainda é machista, diz Simas. Entender melhor o assédio é também encorajá-las a fazer as denúncias.

Perfil

O perfil de médicos assediadores desenhado agora pelo Cremesp está alinhado às características encontradas na única pesquisa brasileira sobre o tema, elaborada pelo pneumologista Júlio Cezar Meirelles Gomes. A tese, defendida na Universidade de Brasília em 2004, virou livro no ano passado e avaliou as 403 queixas contra profissionais registradas no Brasil, 45% delas em São Paulo e 16% no Rio de Janeiro. Mais uma vez, os ginecologistas representaram a maioria dos casos (20%) seguidos por clínicos gerais (8,2%), ortopedistas (7,9% ) e psiquiatras (5,5%).

O assédio é um desvio ético que está crescendo de forma significativa no País, ainda que se saiba que muitas mulheres não denunciem, alerta Gomes. O excesso de arquivamento ocorre muitas vezes porque fica a palavra da assediada contra a do doutor, uma relação desigual. A passada de mão não deixa marcas, só na alma da paciente.

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