Crédito encolhe, piora e machuca resultados do Bradesco

Por Aluísio Alves SÃO PAULO (Reuters) - O Bradesco acusou os efeitos da desaceleração no crédito e do aumento da inadimplência no primeiro trimestre, e a situação vai piorar ainda mais antes de ser revertida a partir de setembro.

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"Temos a expectativa de aumento da inadimplência nos próximos dois trimestres", disse Milton Vargas, diretor vice-presidente do banco, a jornalistas, ao apresentar os resultados do primeiro trimestre.

O Bradesco anunciou pela manhã que apurou lucro líquido de 1,723 bilhão de reais entre janeiro e março, em linhas com as previsões de analistas e 9,6 por cento menor do que o ganho obtido um ano antes. Foi a primeira queda no lucro em 17 trimestres, disse Vargas.

No final de março, os ativos totais da instituição somavam 482,1 bilhões de reais, um avanço de 6,1 por cento no trimestre e de 35,6 por cento em doze meses.

Frontalmente atingido pelos efeitos da crise global, o crédito foi o grande vilão do período. Embora tenha crescido 26,5 por cento em doze meses, a carteira encolheu 0,5 por cento ante o final de 2008, para 214,3 bilhões de reais. Com isso, as operações de financiamento, que respondiam por um quarto dos resultados, caíram para 15 por cento no trimestre.

E o perfil do crédito ainda piorou, com o índice de inadimplência (operações com atraso superior a 90 dias) subindo de 3,6 para 4,3 por cento em apenas três meses.

"Acreditamos que esse índice pode chegar a um teto de 4,9 por cento até agosto ou setembro", disse Vargas.

Ato reflexo, o soma das despesas com baixas contábeis com as provisões para perdas atingiram 11,4 bilhões de reais em março, 41 por cento maiores em doze meses.

"A queda do lucro já era esperada. O que impacto mais foi o aumento das provisões para perdas", disse João Augusto Frota Salles, economista da consultoria Lopes Filho.

Como as receitas com serviços não tiveram performance muito melhor --crescimento de 1,2 por cento em doze meses, para 2,84 bilhões de reais--, coube aos ganhos com a carteira de títulos a tarefa de amortecer os resultados fracos do trimestre, produzindo um ganho líquido de 1,29 bilhão de reais.

"Tivemos ganhos com a marcação a mercado sobre títulos como os CDS (credit default swaps)", afirmou Vargas.

PLANOS MAIS MODESTOS

Mesmo enxergando alguma recuperação das operações de crédito, devido à tendência de queda do juro básico no Brasil, o Bradesco já antevê para o conjunto de 2009 resultados mais fracos do que previa antes.

A expectativa para crescimento da carteira de crédito para o ano, de 13 a 17 por cento, está sendo revisada para baixo. E o plano de abrir 180 novas agências já foi enxugado.

"Acreditamos agora que vamos abrir um pouco menos de 100 agências", afirmou Vargas.

Para o executivo, a melhora do panorama macroeconômico nos próximos meses, combinada com a manutenção de bons índices de eficiência operacional, farão o Bradesco voltar gradualmente aos vistosos números dos trimestres anteriores.

O ROAE (rentabilidade sobre patrimônio líquido), importante indicador de rentabilidade de um banco, por exemplo, caiu de 28,7 para 21 por cento, na comparação com março de 2008.

"Esperamos voltar à normalidade a partir do quarto trimestre deste ano", disse Vargas.

Para Frota Salles, considerado o pano de fundo da economia dos últimos meses, os resultados foram até bons.

"Conseguir manter uma rentabilidade superior a 20 por cento numa crise dessas é algo notável", considerou.

Às 14h27, a ação do Bradesco subia 3,8 por cento, a 28,12 reais, na Bovespa, onde o principal índice acionário avançava 5,38 por cento.

VISANET

Vargas revelou na teleconferência que o processo de abertura de capital da Visanet, empresa da qual o Bradesco é dono em sociedade com o Banco do Brasil e o Santander, deve ser retomado em até 90 dias.

"Ainda não está definido o montante e as condições, mas deve acontecer em até 90 dias", afirmou Vargas.

A primeira tentativa de listagem das ações da companhia de meios de pagamento na Bovespa foi suspensa no ano passado, devido à intensificação da crise global, que paralisou as operações de mercado de capitais.

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