Córneas de menino baleado no Rio são doadas

RIO DE JANEIRO ¿ As córneas do menino João Roberto de Amorim Soares, de três anos, baleado na cabeça no bairro da Tijuca, foram doadas nesta terça-feira. A família autorizou a doação do órgão no final da noite dessa segunda-feira, segundo informou a assessoria do Hospital Copa D´Or, onde João estava internado. O corpo do menino está no Instituto Médico Legal (IML) e de lá seguirá para o cemitério do Caju, zona Portuária do Rio. O enterro está marcado para as 17h. João Roberto foi atingido na noite do último domingo.

Redação |

AE
João Roberto, de 3 anos

A pessoa que receberá as córneas ainda não foi identificada, mas a Central de Transplantes do Rio vai intermediar o processo, informou a assessoria do Hospital Geral de Bonsucesso, onde está o órgão.

De acordo com a assessoria do Copa D'Or, somente as córneas puderam ser aproveitadas, já que os demais órgãos ficaram comprometidos graças à forte medicação que o menino foi submetido. As córneas foram retiradas na noite desta segunda-feira. O corpo ficou na capela da unidade por algumas horas e depois seguiu para o IML.

Morte cerebral

O chefe da seção de pediatria do Hospital Copa D´Or, Arnaldo Prata, confirmou no início da noite desta segunda-feira a morte cerebral do menino João Roberto. O estado de saúde já havia sido constatado pela manhã e foi confirmado no final da tarde por um exame específico.

De acordo com Arnaldo Prata, João Roberto tinha menos de 5% de chances de sobreviver. O garoto estava internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da unidade de saúde desde as 4h desta segunda.

Em entrevista coletiva, o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, classificou o ocorrido como "tragédia" e disse que "faltou preparo" na ação policial. Beltrame disse ainda que o fato não pode ser comparado à política de segurança pública do Estado.

"É um fato que demonstra uma falta de preparo na hora de agir, mas não há qualquer ligação sobre o que foi feito e o nosso dia-a-dia.

Para o secretário, faltou preparo "psicológico e operacional" na ação dos policiais. Ele salientou que os policiais não têm direito de errar. "Temos que ter o discernimento suficiente sobre como agir", afirmou Beltrame.

Os PMs envolvidos no caso estão presos administrativamente. Eles serão ouvidos no inquérito que foi instaurado pelo 6º BPM (Tijuca).

Desabafo do pai

O pai da criança, o taxista Paulo Roberto Amaral, de 45 anos, fez um

AE
Pai de João chora ao receber a notícia 
desabafo emocionado na porta do hospital, onde o filho foi internado. Eu sou taxista e estava trabalhando no domingo para juntar um dinheirinho para o aniversário dele, que ia fazer quatro anos no dia 29.

Eu estava com uma passageira, passando pela rua General Espírito Santo Cardoso (onde João foi baleado) quando ela notou que havia várias viaturas no local, mas eu nunca ia imaginar que iam executar a minha família. Metralharam o carro com uma mulher e duas crianças dentro. Minha mulher ficou cheia de pedaços de estilhaços pelo corpo, afirmou.

Segundo o taxista, Alessandra, sua mulher, voltava de uma festa infantil com os dois filhos do casal no carro. Além de João, estava no veículo o bebê Vinícius, de nove meses, que nada sofreu. Quando estava na esquina de casa, a mãe viu que um carro passou em alta velocidade e que ele estava sendo perseguido pela polícia. Ela encostou o carro para os policiais passarem, mas eles a teriam confundido com os bandidos.

"Mesmo atingida (por estilhaços), ela saiu do carro e jogou a bolsa do bebê para mostrar que tinha crianças. Isso foi a 200 metros da delegacia (19º DP)", contou o pai, muito abalado. O projétil que atingiu o menino na cabeça ficou alojado na quarta vértebra cervical. "Destruíram o cérebro do meu filho."

Baleado na cabeça

João foi baleado na cabeça durante uma perseguição de policiais do 19º BPM (Tijuca) a bandidos, na rua General Espírito Santo Cardoso, a poucos metros da delegacia do bairro. Eles seguiam criminosos que teriam assaltado pessoas momentos antes em ruas da localidade.

Testemunhas informaram que os policiais perseguiam um veículo Fiat Stilo preto, onde estariam os criminosos, mas acabaram atirando contra o veículo da mãe do garoto, um Palio Weekend cinza chumbo. Além de João, a advogada Alessandra Amorim estava com um bebê de nove meses, quando o carro foi atingido pelos disparos. Ela ficou ferida por estilhaços na barriga e na perna.

De acordo com testemunhas, a advogada chegou a jogar a mochila de um dos meninos pela janela, para mostrar aos policiais que os bandidos estavam em outro carro, mas há informações de que foram disparados pelo menos 15 tiros contra o carro que ela dirigia. O automóvel foi periciado para recolher fragmentos dos projéteis e aferir se eles foram disparados pelos PMs ou pelos bandidos.

A Polícia Civil instaurou inquérito e pediu as imagens gravadas pelas câmeras de segurança de edifícios localizados na área onde a criança foi baleada. As armas dos policiais que estavam na perseguição foram apreendidas para perícia.

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