Coreografia da companhia inglesa Candoco questiona o humano perfeito

SÃO PAULO ¿ Também conhecida por abrir oportunidade para artistas com diferentes possibilidades físicas, a companhia de dança contemporânea inglesa Candoco traz ao Brasil duas coreografias. Uma delas, ¿The Perfect Human¿, criada pelo bailarino Hofesh Scherchter, propõe o questionamento do conceito de perfeição humana.

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo |

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"The Perfect Human", coreografia da Candoco

Coletivo que congrega pessoas com e sem nenhum tipo de deficiência física e que conquistou os atentos e rigorosos louros da crítica especializada europeia, não como concessão aos profissionais deficientes, mas pela excelência de seus trabalhos, a Candoco tem o costume de trabalhar com coreógrafos convidados, caso de Scherchter, ex-integrante da Batsheva Dance Company, de Israel, e não foi nada insuspeito que lhe chamasse a atenção a questão do real significado da perfeição corporal, tornado leitmotiv do trabalho.

Em entrevista ao Aplauso Brasil, o bailarino e diretor artístico da Candoco, Pedro Machado, fala sobre o trabalho da companhia, sobre The Perfect Human, sobre os conceitos da Candoco a respeito do humano perfeito e da deficiência e sobre a atuação educativa do coletivo, entre outros assuntos.

De que forma a coreografia "The Perfect Human" está relacionada À política de respeito às diferenças da Candoco?
Pedro Machado ¿ Cada pessoa terá sua diferente leitura, o que é um dos fascínios da dança, portanto não posso definir um absoluto. Mas acho a ideia de um humano perfeito tão absurda que gera dúvidas sobre quem a busca. Ao mesmo tempo, diria que todos meus dançarinos são perfeitos pro trabalho que eles fazem. Em termos de movimento, um desafio grande que o Hofesh nos deu, foi de criar uma sequência em uníssono com pessoas com corpos distintos umas das outras. Fomos encontrando um denominador comum que capturava a essência. Acho que a variedade torna o conjunto mais interessante.

Como é o "The Perfect Human" para a Candoco?
É um trabalho bom de se ter no repertório porque requer muito dos dançarinos fisicamente. Isso funciona como um treino. Depois de um ano apresentando esse trabalho, eles estão mais fortes e mais hábeis. Existe um nível de detalhe no movimento que continua a crescer mesmo depois de meses, portanto acho que é uma peça que amadurece. Como ela é um pouco sombria, complementa bem a segunda peça do programa, "Still", feita pelo Nigel Charnock, que é um delírio e muito divertida.

Lembro de, logo após o 11 de setembro, ter assistido um espetáculo da Batsheva Dance Company  e tenho as melhores recordações. O que o coreógrafo trouxe de sua bagagem como bailarino da Batsheva para a técnica apresentada pela Candoco?
A sensação de um grupo coeso, que se move sorrateiramente e que às vezes ataca. A musicalidade e os detalhes, independente de um estilo rígido. Hofesh usa muitas imagens para descrever movimento, uma prática adotada por várias outras pessoas, mas que acredito ser comum no Batsheva.

A Batsheva, companhia israelense, mesmo que indiretamente, é resultado de uma cultura que lida com dificuldades com as diferenças, vítimas ou algozes de uma cultura fundamentalista. Isso ajudou no convívio do coreógrafo com a companhia?
Difícil dizer, em geral os coreógrafos que trabalham com a gente convivem bem com a companhia. O importante é se concentrar no trabalho.

Foi fator determinante na escolha do tema para The Perfect Human?
O título veio de um filme do Jorgen Leth. Imagino que o tema tenha a ver com a visão do Hofesh sobre a companhia.

O que é, em termos técnicos, o trabalho de uma cia. mista? Como é o treinamento dos deficientes e não deficientes?
Nós temos aulas diárias (se a agenda permite) e períodos intensos de treino. Com o decorrer dos anos, fomos descobrindo estilos e estratégias que funcionam mais, ou que preferimos. Cada dançarino tem uma dieta específica de treinamento físico, particular ao próprio corpo e interesse. Mas isso também ocorre em outras companhias.

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Cia. inglesa se apresentará no Teatro Alfa

Grande parte do staff (inclusive o próprio Bruno Machado) tem formação em (Rudolf) Laban. Como a técnica de Laban é traduzida no trabalho da Candoco?
Parte dos estudos do Laban oferecem uma linguagem comum que é muito útil. Nós temos dançarinos de outras escolas também.

Como são as audições (para a inserção de novos bailarinos ao grupo) realizadas pela Candoco? Há alguma exigência ou preferência na seleção?
Procuramos dançarinos criativos que tenham curiosidade e clareza de expressão, que gostem de trabalhar com dança e que se interessem pela companhia.

Há algum grau máximo ou quais as preferências na escolha de um bailarino com deficiência?
Estamos mais interessados em pessoas do que em deficiência. Buscamos pessoas que tenham um certo autoconhecimento e que queiram desenvolver essa área. Pessoas que tenham um bom domínio de variação em sua própria expressão física nos atraem.

Como são as diversas pontes educacionais da Candoco?
Nós temos projetos que atendem desde crianças até profissionais. Treinamos professores e já até aconselhamos arquitetos em teatros. Alguns cursos são curtos mas, no momento, temos um que durará três anos. Há vários detalhes no nosso portal.

Quais os  objetivos dessa preocupação pedagógica?
Dança é um direito de todos e quanto mais variedade tiver a dança, melhor será.

Quais os perigos de uma visão assistencialista, em detrimento da estético-artística, do trabalho da Cia. e quais os cuidados de vocês para inverter esse panorama quando ele é evidenciado?
Para nós, a inclusão sempre foi tão inquestionável que nos permitiu que nos concentrássemos na qualidade, para que não precisássemos provar nada. O importante é se concentrar no trabalho.

Há plano de algum tipo de intercâmbio permanente da Candoco, sobretudo na difusão pedagógica da Cia. com o Brasil?
Puxa, isso seria genial... O Brasil é tão criativo e aberto a novidades que o potencial é enorme. Além do mais, já existem outras companhias aqui que dividem o nosso interesse. Estamos abertos a conversas.

Serviço ¿ Cia. Candoco em São Paulo
Apresentações para o público
Dias 7 e 8 de outubro, Às 21h
Teatro Alfa
Ingressos: R$ 30 (meia-entrada) e R$ 60
Informações: (11) 5693-4000

Apresentações para ONGS, instituições e escolas públicas
Dia 9 de outubro, às 15h
Entrada gratuita, mediante inscrição prévia pelo e-mail candoco@doblecom.com.br

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