Convívio entre gerações traz ganho afetivo e cultural, diz gerontóloga

A chance de compartilhar a maturidade com os avós - e não apenas a infância - reflete a expansão da longevidade no Brasil na última década. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida da mulher brasileira passou de 70 anos em 1991 para mais de 76 em 2007.

Agência Estado |

E os especialistas destacam que o tempo que separa as gerações é o mesmo que as une. “Essa família expandida, que possibilita um convívio intergeracional, é positivo para todos. Os netos recebem uma base emocional, afetiva e cultural muito grande", explica a gerontóloga Dorli Kamkhagi.

"Para o idoso, sentir-se com uma função social, a de transmitir legados, sentir-se ouvido por alguém que deseja aprender com ele e não apenas vê-lo fazer tricô, é um estímulo enorme. Alguém que é escutado é alguém que tem um porquê para viver”, completa Dorli que é doutora em psicologia pela PUC e gerontóloga do Hospital Dia - Estudos do Envelhecimento - laboratório do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação da psiquiatra Rita Cecília Ferreira, do Programa da Terceira Idade, também desenvolvido pelo IPq da USP, a distância entre as gerações de netos e avós é compensada pela proximidade emocional entre eles, o que propicia o diálogo e a interação. “O relacionamento do jovem com os avós é facilitado porque recebe deles um afeto puro, sem a obrigação da educação e do limite, algo que compete aos pais. Além disso, quase sempre os avós são muito disponíveis porque já não estão tão envolvidos com o mercado de trabalho quanto os pais do jovem. ”

Para Rita, netos e avós que envelhecem juntos ajudam a perpetuar a história da família. “Além da troca de afeto, existe o acesso do jovem a uma outra época. Muitas vezes ele se surpreende ao descobrir que o avô esteve na guerra, que trabalhou na lavoura ou enfrentou dificuldades extremas”, analisa. “Estimular o contato dos filhos com o idoso também é uma forma de diminuir o preconceito. Esses pais, quando envelhecerem, terão um acolhimento diferente por parte de filhos se eles aprenderam a respeitar os idosos.”

Histórias

Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP e psicanalista do Portal do Envelhecimento, Marisa Feriancic acredita que a troca de experiências entre netos e avós, ainda que expandida, deve passar por mudanças socioeducativas para se tornar mais proveitosa. “As crianças aprendem sobre sexo e sobre tudo na escola, mas crescem sem saber o que é envelhecer. Um velho tem sempre uma história para contar, mas nem sempre há alguém para ouvir. Muitas vezes, a troca acaba sendo pequena, com os avós muito passivos, preocupados apenas em agradar para, assim, fugir da solidão da velhice.”

Giuliana Reginatto

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