Contos de Roberto Bolaño misturam vida e literatura

¿A gente nunca acaba de ler, ainda que os livros se acabem, assim como a gente nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um fato certo¿, afirma o personagem de um dos contos de ¿Putas assassinas¿. Pois nesses relatos se intensifica o grande coração por trás da obra de Roberto Bolaño: a difusa e por vezes indissociável relação entre vida e literatura, entre o viver e o escrever, entre narrar o vivido e narrar o que é só imaginado. Aqui o imaginado é vivido ¿ e vice-versa e em doses iguais. Bolaño representa um meio-termo entre Borges, o autor que viveu enfurnado em bibliotecas, e Hemingway, que fez da vida a matéria de sua literatura. O chileno viveu muito, e aventuras de risco considerável, para, nos últimos anos, trancar-se e passar os dias finais apenas escrevendo. Embora tenha escrito desde cedo, publicou tarde, aos 40 anos, em 1993, e daí até sua morte, dez anos depois, engendrou um punhado de romances, contos, novelas e poemas, incluindo dois catataus ¿ ¿Os detetives selvagens¿, de 500 páginas, e ¿2666¿, com mais de mil e inacabado.

Jonas Lopes |

Putas assassinas é seu primeiro livro de contos lançado no Brasil, depois do irregular A pista de gelo, o emblemático e cultuado Os detetives selvagens e o irretocável Noturno do Chile, novela compulsiva e corrosiva, escrita numa prosa que daria orgulho ao austríaco Thomas Bernhard. Essas narrativas curtas, ainda que não superem os melhores momentos de seus romances, chegam para aumentar o culto ascendente a Bolaño, um fenômeno ocorrido não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, onde o escritor foi objeto de artigos exultantes na The New Yorker, no The New York Times e no The New York Review Of Books. Elas chegam também para reforçar a sua já citada relação entre vida e literatura, a esta altura tão característica e tão evocada pela crítica.

Pois vários episódios que marcaram a vida de Bolaño são citados aqui e ali nos 13 relatos. A mudança para o México com a família no final dos anos 1960. A volta ao Chile natal em plena euforia pela eleição de Salvador Allende e a subseqüente reviravolta que levou Pinochet ao poder, Allende à morte e o jovem Bolaño à prisão ¿ foi salvo ao ser reconhecido por um amigo de infância, uma história inacreditável, quase inverossímil, que é a cara dele. O retorno ao México, as aventuras como aspirante a poeta (exploradas magistralmente em Os detetives selvagens). O auto-exílio na Espanha, trabalhando como segurança em um camping até conseguir emplacar sua literatura.

Três dos contos são mais abertamente autobiográficos: Gómez Palacio, Últimos entardeceres na terra e Dias de 1978. Os três trazem como protagonista B (ou Bolaño). Em Últimos entardeceres na terra, ele, ainda um jovem de 22 anos, viaja com o pai para Acapulco, paraíso dos turistas mexicanos. Lá passam os dias esperando algo acontecer, entre passeios na praia e visitas ao prostíbulo local. O filho parece mais maduro do que o pai, mais acomodado com a condição de ser isolado, exilado e solitário. O conto é um ótimo exemplo de como o escritor consegue manter a tensão sem fazer nada muito importante acontecer: ele cria um fio que segue sofrendo alterações delicadas, porém nunca mudando radicalmente de direção. Bolaño não espera transformar a vida de suas criações; as epifanias são sutis, imperceptíveis, se é que existem. Os personagens sofrem pequenos sustos, surpresas, mas pouco se alteram do início ao fim da história, endurecidos que já estão pela vida.

B já está mais velho em Gómez Palacio, em que é professor e vai lecionar em uma cidade fantasma no deserto, e Dias de 1978, que conta a sua relação fugidia com um homem ciumento e invejoso que acabou louco. Nos dois, B mostra a mesma serenidade angustiada da juventude, uma espécie de desespero silencioso e discreto que encontramos em outros personagens. Tão discreto que em Prefiguração de Lalo Cura conhecemos o filho de uma atriz pornô que assiste estoicamente às fitas que a mãe filmou grávida dele, acreditando que os caralhos que penetraram minha mãe se encontraram no fim da trilha com meus olhos.

Bolaño também ressurge ¿ desta vez com seu próprio nome ¿ no último texto de Putas assassinas, Encontro com Enrique Lihn, uma lembrança de seu encontro com o poeta chileno de uma geração anterior. E marca presença, de certa forma, em Fotos, sob a égide do alter ego Arturo Belano, um dos heróis de Os detetives selvagens. O poeta real-visceralista está perdido no coração africano, folheando um volume tão longe de casa quanto ele: uma coletânea de poesia surrealista em língua francesa, em edição rara e que por algum motivo obscuro foi parar ali. Fotos é um exercício de natureza borgeana: Belano tenta imaginar a vida daqueles poetas esquecidos, inventa suas possíveis obras como se fossem novos Pierre Menards ou Herbert Quains.

Para quem pensa em Roberto Bolaño como uma resposta e uma contestação ao famoso boom da literatura latino-americana das últimas décadas, O retorno é uma grata surpresa, um relato digno de figurar em uma boa enciclopédia de realismo fantástico. Mais mórbida das histórias, ela traz um narrador que acaba de morrer ver sua alma deixar o corpo. O defunto faz uma hilária menção a Ghost, o filme melado com Demi Moore e Patrick Swayze, onipresente na programação televisiva em todo fim do ano e em que Swayze vê, da mesma forma, sua alma abandonar o corpo. Minha experiência, comenta o narrador, entre mil outras coisas, me faz pensar que por trás da puerilidade dos americanos às vezes se esconde algo que nós, europeus, não podemos ou não queremos entender. Após acompanhar o corpo até o hospital, o fantasma o vê sendo levado até a mansão de um estilista francês conceituado que paga para se satisfazer sexualmente com mortos. O defunto entabula um diálogo memorável com o necrófilo. Mais uma vez, sem perder a tal serenidade angustiada.

Bolaño só derrapa quando deixa essa serenidade ser perturbada, como no fraco conto que dá título ao livro. A fina arte do chileno está em escapar dos clichês que cercam as figuras marginais na literatura desde os ultrapassados e superestimados beatniks. Seus escritores, prostitutas, atrizes pornô, jogadores de futebol e necrófilos revêem com humor e melancolia suas tragédias pessoais, sem se deixar levar por elas. Ao mesmo tempo, observam esses feitos e fatos com desapego, como que com desinteresse existencial. Cada um deles poderia deixar tudo para trás num instante. Por isso são tão cativantes. É preciso matar os pais, declara outro dos narradores. Como ele bem sabe, e todos os outros também, o poeta é um órfão nato.

Serviço
Putas assassinas
Roberto Bolaño
Companhia das Letras
219 páginas
Preço sugerido: R$ 38,00

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