O mundo da música se mostrou surpreso quando o prestigioso Prêmio Tim, no final de maio, anunciou como vencedor da categoria cantor popular o gaúcho Vitor Ramil. Rei no sul do País e na região platina desde o início da década de 1980, quando estreou com o álbum Estrela, Estrela, Ramil é praticamente desconhecido do restante do público brasileiro. Um dos autores confirmados na próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em que vai debater sua teoria da ¿estética do frio¿, ele lança nesta quarta-feira (18) na Livraria da Vila, em São Paulo, seu segundo romance, ¿Satolep¿ (Cosac Naify, 288 páginas).

Natural e hoje morador de Pelotas (RS), Ramil criou logo no início da carreira a fictícia Satolep, nada mais do que o nome de sua cidade-natal invertido. Ali, situou muitas canções e suas duas obras literárias. A influência é tanta que o lugar batiza seu último livro e o disco Satolep Sambatown , parceria com o percussionista carioca Marcos Suzano. A fascinação pelo lugar, no entanto, embora absolutamente inspiradora, não tem uma explicação clara para o artista.

Parte da graça é não saber, explica Vitor. É mais uma coisa simbólica, meio jungiana, do conceito de criança eterna. Fico burilando histórias da infância, fantásticas ou não, da minha criação, minha família. Tudo isso, Ramil confirma, acaba transparecendo nos escritos, em especial a atmosfera histórica, a geografia da cidade e personagens perdidos no passado. Foi assim com Pequod (1995), o elogiado romance de estréia, editado no ano passado na França e com relançamento agendado pela Cosac Naify, e também com Satolep.

Apesar de não serem autobiográficas, as histórias refletem aspectos da vida do escritor. Pequod, repleto de referências às aventuras do capitão Ahab de Moby Dick, começa com uma mudança para um velho casarão, no mesmo período em que Ramil deixou o Rio de Janeiro para voltar à casa onde nasceu em Pelotas. Em Satolep, um fotógrafo retorna à cidade do título quando completa 30 anos, mesma idade que Ramil tinha quando voltou ao Sul.

Fotos históricas de Pelotas costuram a narrativa de "Satolep" / Reprodução

O misterioso personagem de Satolep é inspirado no autor da maior parte das fotos de um livro chamado Álbum de Pelotas, publicado em 1922. Ao observar as imagens, Ramil notou uma discreta assinatura nas bordas, Brisolora. Uma investigação informal, mas trabalhosa, acabou levando ao nome de José Brisolara da Silva. Os detalhes, porém, sobre quem ele era e se era de fato responsável por todas as fotos permanecem desconhecidos. Esses ingredientes deram origem ao narrador do romance, que mergulha em uma volta ao passado em uma narrativa onírica, pontuada pelo aspecto geométrico que o frio dos pampas confere à paisagem.

Ramil começou a trabalhar em Satolep pouco depois da conclusão de seu primeiro livro, há mais de 10 anos. Sou lento, admite, prefiro que tenha substância do que saia apressadamente. Quem pensa, no entanto, que a literatura era posta em segundo plano em uma carreira predominantemente musical, se engana: segundo Ramil, a dedicação à ficção era até maior. Para mim sempre foi mais definitiva a forma de escrever do que de compor.

A criação ganhou ritmo acelerado quando Ramil chegou o formato final do romance, ao intercalar fotos de Brisolara, acompanhadas de pequenos textos, com os capítulos do livro. A partir daí, o desafio formal passou a ser juntar uma coisa com a outra. Dentre suas influências literárias, o escritor ressalta a obra de Jorge Luis Borges, que lê desde a juventude. É um texto conciso, austero, que me marcou desde muito cedo, mesmo que eu não entendesse tudo, trafegando pela explicação, mas sem chegar lá. É poético, de muita imaginação, e Satolep segue a mesma linha.

Sem nunca ter participado da Flip nem viajado a Paraty, Ramil não sabe o que esperar da festa. Dos colegas de mesa ¿ o argentino Martín Kohan e o norte-americano Nathan Englander ¿, pouco conhece. Tanta novidade não parece preocupar o escritor e compositor, que acredita que o fato de pessoas de países diferentes abordarem a estética do frio só vai engrandecer o debate. Acho legal que seja assim. Não é um movimento, nem uma idéia para ser defendida, aponta.

Estética do frio foi um termo cunhado pelo próprio Ramil na década de 1990, em um ensaio em que refletia a condição sui generis da cultura do sul do País, tão próxima do Uruguai e Argentina, em relação ao restante do país. O assunto foi tema de uma conferência em Genebra, em 2003, que, posteriormente, deu origem a um livro mais abrangente. Segundo Ramil, mais do que uma teoria, a estética do frio sempre foi uma busca constante em sua trajetória, uma leitura pessoal da brasilidade. É uma viagem cujo objetivo é a própria viagem.

Além de continuar divulgando Satolep e Satolep Sambatown , Ramil vai lançar em breve Ramilonga 10+1 , versão remasterizada do álbum de 1997, dedicado exclusivamente à milonga, acompanhada de uma turnê praticamente idêntica a da década passada. E a comemoração pela conquista do Prêmio Tim permanece, graças à euforia digna de Copa do Mundo dos fãs. Foi uma quebra de paradigma do que é popular. Me dei conta do meu público e do poder do pessoal da Internet. Foi subversivo, adorei.

Leia mais sobre: Flip , Vitor Ramil

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.