Comunidade de Niterói sofre com falta de esgoto

Pelas vielas íngremes, há muita sujeira e pedaços de canos improvisados

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Localizada no município de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, a Comunidade da Cachoeira passou por maus momentos em abril deste ano devido às fortes chuvas que atingiram a cidade. Casas foram derrubadas por deslizamentos de terra e três pessoas morreram. Meses depois, o rastro de destruição permanece e com um agravante. A comunidade não possui uma rede coletora de esgoto e os dejetos ficam a céu aberto, muitas vezes se infiltrando no solo e deixando-o instável e frágil.

O cenário de aparente abandono reflete uma realidade ainda muito presente no Brasil. Divulgada nesta sexta-feira (20), a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, com dados coletados pelo IBGE em 2008, aponta que menos da metade dos municípios brasileiros (44%) possui serviço de esgotamento sanitário por rede coletora.

Morador da Comunidade da Cachoeira desde que nasceu, o comerciante Aluísio Alves, de 43 anos, revela que o local nunca teve uma rede de esgoto e, com o crescimento desordenado, a situação piorou.

“O problema daqui já é crônico. O prefeito [Jorge Roberto Silveira] sempre falou da qualidade de vida em Niterói, mas isso aqui ficou embaixo do tapete”, reclama. “Já fiz inúmeras reclamações, mas a saúde pública parece ignorar a situação e nunca vem aqui. Os locais onde ficavam as valas negras foram aterrados com os deslizamentos e o esgoto tem infiltrado o solo, podendo acarretar novos desastres”.

Instalada em um morro a beira de uma movimentada avenida de Niterói, a comunidade possui vielas íngremes e sujas, seja por pedaços de casas destruídas pelas chuvas ou por dejetos do esgoto que escorre livremente. Em meio ao mau cheiro, mosquitos e pedaços improvisados de canos a mostra, destacam-se os inúmeros cartazes políticos de candidatos para as eleições deste ano.

“As autoridades já foram acionadas, mas só aparecem no período eleitoral. Eles dão tapinhas nas suas costas, pedem para colocar placas e fazem inúmeras promessas”, conta Aluísio Alves, mostrando que em sua conta de água a taxa relativa aos serviços de esgoto vem zerada.

A combinação chuva mais esgoto infiltrado no solo contribuiu para a tragédia ocorrida na vida da doméstica Nair Silva Neta, de 39 anos. A casa que tinha acabado de pagar foi soterrada em abril e ela agora vive com o marido e os dois filhos – de 5 e 10 anos – em um espaço improvisado em um ferro-velho, próximo à Comunidade da Cachoeira.

“Sempre ficava preocupada com meus filhos com o risco deles pegarem uma doença, como leptospirose, por causa do esgoto aberto”, relembra Nair. “Esse descaso contribuiu para a tragédia e perdi minha casa. Veio tudo abaixo e recomeçar tudo do zero é muito difícil. Deus sabe o quanto é sofrido”, diz, chorando.

A reportagem entrou em contato com a concessionária Águas de Niterói, responsável pelo tratamento de esgoto em Niterói, mas ainda não obteve retorno.

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