Como dizia a minha avó...

Como dizia a minha avó..

Agência Estado |

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Por Giuliana Reginatto

São Paulo, 07 (AE) - Comida de vó tem fama de ser imbatível. Fernanda Paixão Silveira Bello, de 23 anos, descobriu isso quando deixou a casa dos pais para cursar medicina no interior. "Aprendi várias receitas com minha avó e virei a boleira da república", conta. Aos poucos, ela percebeu que a experiência na cozinha vinha dentro de um pacote bem maior de conhecimentos. "Se tenho dúvidas sobre trabalho ou relacionamentos é ela quem me tranquiliza. As mães são mais ciumentas, nem sempre têm uma cabeça tão aberta", completa.

Gente que já viveu mais de sete décadas, como Maria Rosa D’Amaral Paixão, avó de Fernanda, teve tempo suficiente para passar por todos os dilemas que qualquer neto ainda irá enfrentar: a primeira paixão, o primeiro emprego, a dor da perda, a insegurança. "A primeira conversa que eu tive sobre sexo na vida foi com minha avó", lembra a garota. " Essa presença tão ativa na minha vida me fez prestar mais atenção aos idosos, a ponto de optar por uma especialização em geriatria."

A relações públicas Ana Paula Romero Inforzato, 29 anos, também gosta de ouvir a voz da experiência para lidar com seus conflitos cotidianos. "Ver as dificuldades que minha avó superou faz com que eu sinta vergonha de reclamar da minha vida. Para ela foi tudo tão difícil: teve um marido alcoólatra, formou dois filhos advogados vendendo leite, ovos e queijo. Nunca pode fazer algo só por ela, nunca teve tempo para ser egoísta. E mesmo assim não reclama, nunca falou mal do meu avó. Apenas demonstra gratidão pela família que teve. Estar com ela me traz paz de espírito, me ajuda a ser paciente e grata."

Ana conta que foi também com sua avó, Emília Maule Inforzato, 92 anos, que aprendeu a superar perdas importantes. "Mesmo com a morte dos pais, do marido e dos irmãos ela consegue aceitar e continuar vivendo, sem se culpar ou culpar a Deus, enquanto outras pessoas se desesperam. Esse tipo de compreensão e fortaleza são as maiores lições que ela me dá. É uma sabedoria simples, coisa de vivência mesmo. Ela vive bem com pouco, com simplicidade. Nada como um pão caseiro e uma xícara de café da dona Emília para animar a vida", garante.

A chance de compartilhar a maturidade com os avós - e não apenas a infância - reflete a expansão da longevidade no Brasil na última década. Segundo dados do IBGE, a expectativa de vida da mulher brasileira passou de 70 anos em 1991 para mais de 76 em 2007. "Essa família expandida, que possibilita um convívio intergeracional, é positivo para todos. Os netos recebem uma base emocional, afetiva e cultural muito grande.

Para o idoso, sentir-se com uma função social, a de transmitir legados, sentir-se ouvido por alguém que deseja aprender com ele e não apenas vê-lo fazer tricô, é um estímulo enorme. Alguém que é escutado é alguém que tem um porquê para viver", explica Dorli Kamkhagi, doutora em psicologia pela PUC e gerontóloga do Hospital Dia - Estudos do Envelhecimento - laboratório do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Na avaliação da psiquiatra Rita Cecília Ferreira, do Programa da Terceira Idade, também desenvolvido pelo IPq da USP, a distância entre as gerações de netos e avós é compensada pela proximidade emocional entre eles, o que propicia o diálogo e a interação. "O relacionamento do jovem com os avós é facilitado porque recebe deles um afeto puro, sem a obrigação da educação e do limite, algo que compete aos pais. Além disso, quase sempre os avós são muito disponíveis porque já não estão tão envolvidos com o mercado de trabalho quanto os pais do jovem. "

Para Rita, netos e avós que envelhecem juntos ajudam a perpetuar a história da família. "Além da troca de afeto, existe o acesso do jovem a uma outra época. Muitas vezes ele se surpreende ao descobrir que o avô esteve na guerra, que trabalhou na lavoura ou enfrentou dificuldades extremas", analisa. "Estimular o contato dos filhos com o idoso também é uma forma de diminuir o preconceito. Esses pais, quando envelhecerem, terão um acolhimento diferente por parte de filhos se eles aprenderam a respeitar os idosos."

Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP e psicanalista do Portal do Envelhecimento (www.portaldoenvelhecimento.net), Marisa Feriancic acredita que a troca de experiências entre netos e avós, ainda que expandida, deve passar por mudanças socioeducativas para se tornar mais proveitosa. "As crianças aprendem sobre sexo e sobre tudo na escola, mas crescem sem saber o que é envelhecer. Um velho tem sempre uma história para contar, mas nem sempre há alguém para ouvir. Muitas vezes, a troca acaba sendo pequena, com os avós muito passivos, preocupados apenas em agradar para, assim, fugir da solidão da velhice."

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