SÃO PAULO ¿ Uma das figuras com maior lastro da sétima arte nacional, Hugo Carvana, hoje com 71 anos, é constante. Seja na televisão ou no cinema, o ator mantém um ritmo de trabalho que surpreende, ainda mais se levarmos em conta sua disposição para dirigir as histórias mirabolantes que inventa. A predileção pela comédia, gênero a que sempre se dedicou atrás das câmeras e ao qual volta agora com ¿Casa da Mãe Joana¿, admite, não é intencional. ¿Não quero fazer nada premeditado, vou escrevendo a história e ela vai me conduzindo por determinados caminhos. Mas no fim das contas, não trabalho com lágrimas, não consigo.¿

Acordo Ortográfico O longa chega às telas brasileiras nesta sexta-feira (17) com o carimbo da Globo Filmes, verdadeiro guarda-chuva para o cinema de humor produzido no País ¿ em breve a produtora promove a estreia de A Guerra dos Rocha, de Jorge Fernando, e, em 2009, Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho.

"O Brasil só vai para frente se for
bagunceiro", diz Carvana / Divulgação

Na trama criada por Carvana, Paulo Betti, José Wilker e Antonio Pedro Borges interpretam três amigos que, apesar de detestarem trabalhar, precisam dar um jeito de manter o apartamento onde moram há 30 anos na zona sul carioca. Profissões pouco convencionais, como passeador de idosos e "coroa" de programa, são os ingredientes usados pelo diretor para arrancar risadas fáceis da plateia.

Em entrevista ao iG , Carvana, que tem mais de 80 filmes no currículo, contou que o embrião do roteiro tem origem no período em que, entre as décadas de 1950 e 60, dividiu um apartamento no Leblon com ninguém menos que Daniel Filho, Mièle e Roberto Maya. Trago elementos daquela época, o sentimento de amizade, fraternidade, de patota. No filme, as histórias são bem diferentes, mas a semente é a mesma. Os personagens principais, segundo ele, trazem um certo resquício da cultura hippie, por viverem nessa comunidade escrachada, à margem do mundo, que criaram. Aquele apartamento é um templo da sacanagem, o Vaticano da brincadeira.

Tudo isso reflete a sacanagem do próprio Carvana, como ele mesmo revela. Sou muito sacana, gosto muito de putaria, adoro bagunça, entrega, para em seguida sugerir a solução para os problemas do País. O Brasil só vai para frente se for mais bagunceiro, tem que carnavalizar mais do que já é. O horizonte escurece para o diretor, porém, quando o assunto é o cinema nacional. A dificuldade de se fazer cinema é a mesma em qualquer época, captar recursos é angustiante, doloroso, afirma, com o peso de quem tem seis outros longas no currículo, como Vai Trabalhar Vagabundo (sua estreia na direção, em 1974) e Apolônio Brasil (2004). O cinema brasileiro vai ao sabor das ondas, não há uma indústria. Depende de vontade política, e isso não encontro.

Borges, Betti e Wilker, o time de protagonistas de "Casa da Mãe Joana" / Divulgação

Elenco estelar

Casa da Mãe Joana também conta com a participação de Pedro Cardoso, Malu Mader, Arlete Salles, Laura Cardoso, Agildo Ribeiro e, como se estes não já não fossem nomes suficientes para fechar um elenco estelar, ainda há a bela Juliana Paes para, com o auxílio de efeitos especiais, interpretar a musa de Antonio Pedro Borges. Vou escrevendo e não consigo evitar em pensar em alguns nomes, explica Carvana. Já tive decepções, mas nesse caso deu certo, todos toparam de cara.

A reunião do grupo no estúdio deve ter sido divertida, ainda mais com a estrutura montada pelo diretor, que quis filmar as cenas como se fizessem parte de um vaudeville cinematográfico. As histórias acontecem no mesmo lugar, com um entra e sai danado, portas abrem e fecham, gente que se esconde, tudo muito ágil. O resultado, pelo que Carnava conta, tem dado resultado nas sessões para convidados. O público antecipa o riso, isso é fantástico. É uma alegria só, comemora.

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