Comércio de carne pesa em destruição da Amazônia, diz Greenpeace

Por Stuart Grudgings RIO DE JANEIRO (Reuters) - Consumidores de todo o mundo estão inadvertidamente contribuindo para a destruição da Amazônia ao comprar carnes e outros produtos ligados ao desmatamento ilegal, alertou a entidade ambiental Greenpeace.

Reuters |

Num relatório intitulado "Abate na Amazônia", o grupo também culpou o governo brasileiro, que prometeu reduzir o desmatamento pela metade em 10 anos, de ser complacente com a destruição.

O relatório apresentou análises por satélite que demonstrariam que parte significativa da carne exportada por grandes frigoríficos brasileiros vem de fazendas com participação ativa em recentes casos de destruição ilegal da floresta.

Grandes frigoríficos como JBS, Marfrig e Bertin enviam carne e couro a milhares de quilômetros para o sul, onde passam por processamento industrial antes de serem exportados para Estados Unidos e Europa, entre outros destinos, segundo o relatório.

"Com efeito, a oferta criminosa ou 'suja' de gado é lavada ao longo da cadeia de fornecimento até um mercado global alheio a isso", disse o grupo. "A expansão desses grupos é efetivamente uma 'joint venture' com o governo brasileiro."

O relatório identifica grandes empresas, como Adidas, Nike, BMW, Honda, Gucci, Tesco e Wal-Mart, que estariam usando produtos "contaminados pela Amazônia", o que inclui couro para tênis, refeições prontas e até produtos de limpeza e saúde.

De acordo com o Greenpeace, as empresas muitas vezes desconhecem essa ligação com a Amazônia porque compram "cegamente" do Brasil e porque o tamanho e a complexidade da indústria brasileira dificultam tal identificação.

"Não há uma linha clara", disse André Muggiati, ativista do Greenpeace. "Tudo está conectado à Amazônia."

Roberto Gianetti da Fonseca, diretor da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), disse à Reuters que é improvável que toda a carne exportada tenha relação com a Amazônia, e lembrou que a região é muito distante dos principais portos brasileiros.

Grupos como o Greenpeace dizem que o gado amazônico é atualmente a maior causa individual do desmatamento no mundo, uma atividade que contribui com cerca de 20 por cento por cento da emissão global de gases do efeito estufa.

APOIO GOVERNAMENTAL

O Brasil é o maior exportador mundial de carne e tem o maior rebanho comercial bovino do planeta, com 200 milhões de cabeças, um terço das quais na Amazônia, onde as leis brandas e a terra barata ajudaram a alimentar uma rápida expansão da pecuária nos últimos anos.

O governo tem como meta dobrar até 2018 a participação do Brasil no mercado global da exportação de carne, para 61 por cento.

Nos últimos anos, o setor recebeu financiamentos do governo.

Ao mesmo tempo, o governo admite que a pecuária é responsável por cerca de 80 por cento da destruição da floresta.

"Há uma contradição interna entre a meta do governo de expandir a agricultura e a de reduzir o desmatamento", disse Muggiati.

Fontes do setor admitem que pequenos pecuaristas provocam desmatamento, mas dizem que o problema em breve será resolvido com a implementação de microchips em milhões de cabeças de gado, que poderão ser monitoradas por satélite. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse em abril que o Pará terá tal sistema já no ano que vem.

"O Greenpeace deve ficar calmo", disse Gianetti da Fonseca, da Abiec. "Não vamos destruir a Amazônia, mas também não vamos criar um falso sistema de controle para enganar as pessoas."

A Amazônia perdeu cerca de um quinto da sua cobertura florestal nas últimas três décadas e num período de 12 meses, até agosto de 2008, foram devastados 8.147 quilômetros quadrados, aumento de 69 por cento em relação ao período anterior.

A taxa deve voltar a cair neste ano, em parte devido à crise econômica global, que diminui a pressão pela ocupação da floresta, mas economistas temem que as políticas públicas e as forças do mercado ainda estejam favorecendo a destruição.

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