Comércio e fiado deslancham na cidade com a maior cobertura do Bolsa Família

Em Junco do Maranhão, 91,6% das famílias possuem o benefício

Sabrina Lorenzi, enviada a Junco do Maranhão | 30/09/2010 17:50 - Atualizada às 10:32

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Rosemeire de Sousa fica sem graça quando conta que deu três dos seis filhos para parentes criarem. E chora diante da repórter ao lembrar que passava fome com as crianças, sem marido para ajudar. Mas agora ela não esconde a satisfação de poder alimentar João Gabriel, de 6 anos; José Roberto, 7, e Leinara, 11, os irmãos mais novos que tiveram a oportunidade de continuar vivendo com a mãe. Enquanto fala, a doméstica acerta contas num mercadinho que vende fiado para beneficiários do Bolsa Família. Primeiro ela paga o que deve, depois compra mais alimentos, numa cena que se repete todo mês, no dia de pagamento do benefício.

Do outro lado do balcão, Maria de Fátima Cardoso risca a dívida de Rosemeire no caderno de anotações das dezenas de clientes com crédito no estabelecimento. Com certo constrangimento, lamenta não ter podido lhe vender fiado antes de o programa social ingressar na cidade. A comerciante teve de investir para dar conta do aquecimento nas vendas. Mesmo com a proliferação de concorrentes ao longo da rua onde paralelepípedos substituíram o chão de terra batida, o mercadinho foi ampliado. Se o programa social é conhecido por fazer girar a economia de cidades pequenas, imagine em Junco do Maranhão, onde 91,6% das famílias recebem o benefício?
 

 Localizada a 235 quilômetros a oeste de São Luís, na divisa com o Pará, Junco do Maranhão é a cidade com a maior cobertura do Bolsa Família, de acordo com levantamento do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) realizado a pedido do iG. Com apenas 3,9 mil habitantes, segundo última estimativa do IBGE, o município vive basicamente de agricultura e transferências de renda. A terra cultivada dá mandioca, milho, feijão, arroz, pasto, laranja, açaí e coco de babaçu.

A prefeitura emprega 13,4% da população, a Previdência Social cobre 6,6% dos juncoenses e o Bolsa Família está presente em 888 lares (91,6%) – o maior alcance de pessoas entre todas as fontes de renda. Com benefícios que variam de R$ 68 a R$ 200 (bem aquém do salário mínimo base para aposentadorias, pensões e pagamentos de servidores), o programa social injeta na cidade, por ano, desde 2008, cerca de R$ 1 milhão por ano - equivalente a um quarto da folha de pagamento da prefeitura e cerca de metade do que recebem aposentados e pensionistas.

Nos últimos três anos, foram abertas uma loja de eletrodomésticos, pet shop, hortifruti, padaria, lanchonete, lan house, duas farmácias, duas lojas de material de construção, dois postos de gasolina, dois pontos de atendimento bancário, alguns mercadinhos, açougues e várias lojinhas de roupas. A paisagem mudou com o comércio e a substituição de casas de pau-a-pique por alvenaria.

Dividida pela rodovia federal BR 316, a área urbana de Junco do Maranhão não tem mais de 10 ruas. De um lado da estrada, a sede da Prefeitura e as tantas lojas que surgiram recentemente. Do outro, o único hotel da cidade, próximo a uma pracinha com quiosques onde as pessoas se reúnem à noite sob o vento morno da região. Também ali uma novíssima loja de móveis e eletrodomésticos. Há 52 anos no estado, o grupo Paraíba viu na cidade oportunidade de negócio e se instalou ali, ao lado do hotel Almeida.
Antes da criação do Bolsa Família, segundo relatos de moradores, a cidade possuía apenas uma farmácia, uma loja de material de construção, um açougue e poucos mercadinhos. O benefício foi criado em 2003 pelo governo Lula. Em Junco do Maranhão, 323 famílias eram beneficiadas. No Brasil, 3,6 milhões.

Criados no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, os programas Bolsa Escola, Auxílio Gás e Cartão Alimentação foram incorporados a partir de 2004 ao Bolsa Família – que, com cerca de 12,7 milhões de famílias beneficiárias, hoje é considerado o maior programa de transferência de renda do mundo relativamente ao tamanho da população.

Ao responder como alimentava os filhos antes de receber R$ 134 do programa, os olhos de Rosemeire enchem d'água. "Eu passava fome com meus filhos, abraçava e chorava com eles". Dos seis filhos, apenas os mais novos ficaram com a mãe. Daniele, a mais velha, de 17 anos, é criada pela avó, perto de casa. Sandriele 12, e Aniele, 14, moram em outras cidades, também com parentes.

O posto da Caixa Econômica Federal, dentro de outro mercadinho, faz o pagamento do Bolsa Família na última quinzena do mês. As filas não são tão grandes quanto as que atormentam as metrópoles, mas suficientes para sustentar a barraquinha de Francisca Iraci Pereira. A vendedora de mingau de milho, café, pão com manteiga e suco aproveita a ocasião para garantir o sustento.

Foto: Paulo Marcos

A fila do Bolsa Família: pagamento do benefício é realizado na segunda quinzena do mês

"Só trabalho aqui quando sai pagamento do Bolsa Família. Quando não tem pagamento eu nem venho", conta, enquanto vende, em frente à fila do Bolsa Família, um copinho de mingau de milho para Leonor Bezerra da Silva, outra beneficiária.

Depois de tomar o mingau, Leonor atravessa a rua e garante o almoço do dia para os cinco filhos e o marido. No açougue, pede dois quilos de "ossada" para preparar um cozido de legumes. Mandioca, milho, arroz e feijão ela já tem em casa, direto da lavoura no quintal. Do dinheiro do programa social, ela costuma comprar carne e material escolar.

O impacto do Bolsa Família, segundo a prefeitura, ainda não se converteu em aumento da arrecadação. O número de alvarás aumentou, de 21 em 2005 para 29 neste ano, mas a informalidade ainda representa metade da economia local, segundo o chefe de gabinete Raimundo Veras. "A arrecadação de Junco é praticamente zero. Não temos serviços aqui, o que nos renderia ISS",diz, lembrando que a prefeitura sobrevive do Fundo de Participação dos Municípios, transferência do governo federal.

As transformações vistas a olho nu não foram captadas pelas pesquisas que medem desenvolvimento humano e renda, pois estas dependem do censo em andamento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O último foi realizado em 2000. Mas alguns indicadores reunidos pelo iG revelam melhora na educação e no combate à desnutrição infantil. A geração de emprego e renda, porém, são desafios que a cidade ainda precisa enfrentar.

A última análise de alcance municipal do País revela que 71,2% da população vivia abaixo da linha de pobreza em 2003, segundo mapeamento do IBGE. O último Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 2000, coloca o município na 5.225ª colocação, dentre as 5.507 que existiam no País – atualmente são 5565.

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