Com padres aclamados, julgamento é suspenso em Arapiraca

Julgamento começou nesta sexta-feira e será retomado no dia 22 de julho. Apenas as testemunhas de acusação foram ouvidas

Mariana Lima, enviada especial a Arapiraca |

A audiência de instrução do processo criminal dos padres Luiz Marques Barbosa, Raimundo Gomes e Edilson Duarte terminou pouco depois das 19h30 desta sexta-feira. Apenas as três vítimas – Cícero Flávio Vieira Barbosa, Fabiano Ferreira da Silva e Anderson Farias da Silva – e quatro testemunhas de acusação foram ouvidas antes da suspensão da sessão. Uma testemunha de acusação que não havia sido notificada, as onze testemunhas de defesa e os réus serão ouvidos em nova sessão, no dia 22 de julho.

Na saída, nenhum dos advogados, o promotor ou o juiz falaram com a imprensa. Testemunhas de defesa e outras pessoas presentes ovacionaram os padres. Frases como “o senhor é santo” e “isso é uma injustiça” eram ouvidas entre disputas por apertos de mão e bênçãos.

Mariana Lima
Luiz, Edilson e Raimundo no Juizado em Arapiraca durante primeira audiência, no dia 8 de julho
Ao contrário do que se esperava, não houve mobilização popular em frente ao Juizado de Infância de Arapiraca. Logo cedo, três viaturas do Pelotão de Operações Especiais (Pelopes) faziam a segurança da entrada do Juizado e a rua estava parcialmente bloqueada. No entanto, a única manifestação era da imprensa. O único momento onde houve uma aglomeração de pessoas em frente ao juizado foi quando um grupo de crianças resolveu jogar bola no campinho em frente. Algumas pessoas ligadas às antigas paróquias dos padres estiveram presentes numa espécie de corrente de apoio, mas apenas alguns parentes estiveram com os ex-coroinhas.

Ana Lúcia Paulino da Silva, mãe de Anderson, estava com os dois filhos mais velhos, porém sem o marido. “Ele fica muito abalado com essa história, então preferimos que ele não viesse hoje”. Segundo Andersoa, antes de sofrer os abusos por parte do monsenhor Raimundo, ele sonhava em ser padre. Ao sair do depoimento, confirmou que desistiu da vocação. “Isso morreu. Ele [padre Raimundo] tirou isso de mim”.

Todos os ex-coroinhas mantiveram as informações dos seus depoimentos e foram enfáticos ao afirmar que existem outras vítimas. “Arapiraca é uma cidade muito preconceituosa, mas os outros meninos que sofreram abuso devem perder o medo e denunciar. Só assim essa situação pode ter fim”, disse Fabiano Silva ao sair da sala da audiência.

Cada vez que os rapazes atravessavam o juizado para ir embora, recebiam olhares tortos e severas críticas das pessoas que estavam apoiando os padres. “Nunca vi esse menino na paróquia nem em nenhuma igreja. Ele está mentindo, armando contra o padre Edílson”, disse uma fiel exaltada enquanto Cícero Flávio era escoltado para fora da sala pelo defensor público.

Representantes do Vaticano

Os instrutores do processo penal nomeados pelo Vaticano, os padres Daniel Nascimento e Menetti Severiano, ambos da diocese de Penedo, acompanharam quase toda a audiência. Eles disseram não estar ali para defender os padres, apenas para acompanhar o julgamento. Perguntados sobre o andamento do processo canônico movido contra os padres, eles limitaram-se a dizer que agora está na competência do tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé – órgão que tem suas origens na Inquisição medieval.

Quanto à sua opinião sobre a condução do julgamento, em oposição à sessão da CPI da Pedofilia de abril de 2010 (aberta ao público, presidida pelo senador Magno Malta e que reproduziu o vídeo de sexo entre Luiz Marques e um dos rapazes), padre Daniel disse que eram dois momentos distintos, tanto da parte dos magistrados quanto da parte dos acusados. “Quando se está sob pressão, reage-se de um jeito. A pessoa fica coagida”.

Delação premiada

Essa coação explica a mudança das alegações do padre Edilson Duarte. Consultados antes da sessão, seus advogados disseram que o padre confessou os crimes na CPI da Pedofilia sob coação.

“Ele não estava orientado, estava numa situação extremamente constrangedora, coercitiva. Nós o instruímos a falar a verdade neste julgamento, e a verdade é que o padre Edilson é inocente e que não há indícios da perpetração de qualquer ilícito penal de sua parte”, disse Thiago Mota.

Mota explicou também que a suposta confissão por delação premiada não existiu. “A delação premiada só pode ser oferecida pelo Ministério Público ou pela Justiça. Uma CPI não tem competência para isso”.

A única informação que padre Edilson manteve desde a sessão da CPI é de que é homossexual.

Dinheiro ou denúncia

Boa parte das pessoas que defendem os padres acusa os ex-coroinhas de querer apenas lucrar com a história. Mais especificamente, Cícero Flávio e Fabiano Ferreira, que teriam procurado pessoas ligadas ao monsenhor Luiz Marques para pedir dinheiro em troca da não-divulgação do vídeo.

Procurado pelo iG , Fabiano nega veementemente as acusações. “Já foi investigado, teve inquérito e foi arquivado. Não passava de uma mentira dos advogados do padre. A pessoa passa por tanta coisa, toma coragem pra denunciar e ainda leva o nome de bandido. É humilhante!”.

Ele atribuiu esse “boato” ao preconceito da cidade. “Aqui em Arapiraca é assim mesmo, as pessoas acham aqueles padres uns santos”.

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