defendeu anistia a traficantes, em troca de desarmamento e renúncia ao tráfico. ¿É preciso negociação, sem demagogia¿, justificou o petista." / defendeu anistia a traficantes, em troca de desarmamento e renúncia ao tráfico. ¿É preciso negociação, sem demagogia¿, justificou o petista." /

Colômbia vira arma política no Rio

RIO DE JANEIRO - Palco de conflitos da polícia com a guerrilha do narcotráfico, a Colômbia está no epicentro do debate sobre a violência no Rio de Janeiro. Transformou-se em modelo tanto para o governo estadual como para adversários do governador Sergio Cabral. É o caso de Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu e pré-candidato ao governo, que em entrevista ao iG, na semana passada, http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/11/19/lindberg+defende+anistia+a+traficantes+nas+favelas+no+rio+9128284.html target=_topdefendeu anistia a traficantes, em troca de desarmamento e renúncia ao tráfico. ¿É preciso negociação, sem demagogia¿, justificou o petista.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

Em 2007, a Colômbia aprovou uma anistia desenhada para recuperar o controle de armas de fogo mantidas ilegalmente. No início deste ano, um decreto assinado pelo presidente Álvaro Uribe suspendeu as ordens de detenção e concedeu liberdade condicional aos guerrilheiros que desertassem e entregassem sequestrados. Em troca do benefício, os guerrilheiros precisam assumir o compromisso de atuar como gerente da paz.

Do outro lado do campo político, o governador Sergio Cabral vem, desde 2007, inspirando-se no exemplo colombiano para reduzir os índices de criminalidade. Naquele ano, ele e o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, ao lado dos governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e do Distrito Federal, José Roberto Arruda, visitaram Bogotá pela primeira vez para conhecer os programas implantados na Colômbia.

Na época, os confrontos entre o tráfico e a polícia no Complexo do Alemão alertaram para a necessidade de antecipação às táticas de guerrilha urbana usada pelos criminosos. Desde então, policiais do Rio, incluindo oficiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), têm feito cursos na Colômbia. Um dos focos do treinamento é aprender a detectar armadilhas montadas por terroristas com bombas e minas terrestres. Para o governo estadual, a Colômbia é também exemplo na estratégia de ocupação permanente de áreas conflagradas pelo crime organizado.

Fomos para a guerra

Há dois anos, o Bope descobriu uma armadilha no Alemão: uma pista conduziria a um falso esconderijo de armas. Quando abrissem a porta do paiol, as granadas explodiriam. Os explosivos acabaram desarmados. Esse tipo de tática, previsto em manuais militares, é citado por policiais como algo cada vez mais comum entre traficantes. Eles passaram também a abrir fossos nos principais acessos das favelas, a fim de dificultar a ação das polícias Civil e Militar.

Desde o fim da década de 80, quando houve a primeira apreensão de um fuzil, no Morro da Mangueira, constata-se que os marginais do Rio têm usado armas de combate de guerra, lembra o capitão Ivan Blaz, porta-voz da Polícia Militar do Rio. Isso passou a exigir um treinamento mais tático, voltado para o combate em área urbana. Fomos para a guerra.

O capitão justifica a procura pelo conhecimento colombiano: o Rio passou a ter uma característica muito peculiar. Precisamos de um treinamento diferenciado. Segundo ele, os colombianos têm muito a dividir em tática de guerra na selva e na aplicação de explosivos para a retirada de barricadas, por exemplo. Nem a PM, nem a Secretaria de Segurança Pública divulgam maiores detalhes sobre o treinamento. Não informaram, por exemplo, o número de policiais treinados em solo colombiano.

O porta-voz da PM fluminense ressalta, no entanto, que a troca de experiências não se resume à Colômbia. Sempre realizamos intercâmbios com unidades de outros países, como Israel, Estados Unidos e a França, conta Blaz. Nesta semana, o Bope iniciou treinamento para resgate de reféns supervisionado por policiais da RAID, unidade contraterrorista da Polícia Nacional da França. O exercício foi a simulação do resgate do governador e nove oficiais tomados como reféns no estádio do Engenhão, na zona norte do Rio.

Queda de homicídios

A recorrência ao modelo colombiano se explica pelos números. Nas décadas de 80 e 90, a capital Bogotá e a vizinha Medellín ficaram conhecidas como as cidades mais violentas da América Latina. As duas cidades começaram a dar a volta por cima com prefeituras que investiram na polícia e, ao mesmo tempo, nos moradores das comunidades carentes. Em pouco mais de uma década, em Bogotá, a taxa de homicídios caiu de 80 para 24 mortes por ano em cada 100 mil habitantes. No Estado do Rio, no mesmo período, o índice praticamente não mudou. De 56 assassinatos por 100 mil habitantes, passou para 53,1.

A Colômbia tornou-se exemplo não só com reforço no policiamento. Deu-se uma combinação entre repressão ao crime e investimento em infraestrutura. Nas favelas, depois da ocupação policial vieram as melhorias ¿ com a construção de ruas, avenidas, escolas, iluminação e hospitais. O projeto incluiu a demissão de policiais suspeitos de envolvimento em corrupção.

O projeto atual do governo fluminense adota as unidades pacificadoras ¿ modelo de ocupação de favelas dominadas pelo tráfico ou outro tipo de poder paralelo que conta com a integração de moradores e polícia. Atualmente são cinco unidades pacificadoras. A elas se somam investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em favelas como o Complexo do Alemão e Rocinha.

O modelo colombiano é elogiado por especialistas como Luiz Eduardo Soares e Silvia Ramos. Para eles, o exemplo da Colômbia é importante no tratamento da corrupção policial, na combinação entre repressão e investimento em infraestrutura e na comprovação de que é possível resolver o problema da violência.

Autor de livros sobre o Comando Vermelho e a Rocinha, o jornalista e escritor Julio Ludemir discorda em parte. Vê os planos que recorrem à Colômbia como exemplos que exageram as mudanças promovidas pelos vizinhos. A Colômbia é um grande mito, afirma. Continua na rota internacional do tráfico e criou um Estado policial. 

Luiz Eduardo Soares, principal mentor de anistia feita por Lindberg Farias, elogia: em cidades como Bogotá, Cali e Medellín, a abordagem foi multidimensional, não se limitou a ações policiais, ressalta. A política adotada envolveu reurbanização, investimento em cultura, educação, emprego e renda, proteção integral às famílias mais vulneráveis.

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