Barcelona, 21 dez (EFE).- A diversidade de temas abordados pelo cinema brasileiro contemporâneo evidencia a realidade de um país que é, ao mesmo tempo, muitos países, na opinião do ator João Miguel, protagonista do filme Estômago, recém-estreado na Espanha.

"Acho que há uma pluralidade no cinema brasileiro que, de alguma maneira, traduz a própria realidade do Brasil: que são muitos 'Brasis' dentro de um só. O cinema não é a verdade sobre o Brasil, é mais um olhar, muitos olhares", disse o ator à Agência Efe.

João Miguel está na cidade espanhola de Barcelona para inaugurar o III Cine Fest Brasil, organizado pela Fundação Inffinito.

Protagonista também dos premiados "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), de Marcelo Gomes, e "Mutum" (2007), dirigida por Sandra Kogut, João Miguel é considerado um dos talentos emergentes do cinema brasileiro.

Sobre o filme de Marcos Jorge, "Estômago", que abriu a mostra de Barcelona, o ator destacou a habilidade de abordar temas universais como sexo, comida e poder, através de um roteiro "que não tem medo de se comunicar com o público".

Este tipo de conexão é, disse, uma de suas principais satisfações como ator, e agora quando começa a perceber isso graças a seus trabalhos em filmes, apesar de ser um meio que não tem tanto poder de penetração social no Brasil quanto a televisão.

Apesar de ter feito alguns trabalhos na TV, João Miguel reconhece ser "um ator privilegiado" que surgiu do teatro e que pode viver do cinema sem depender da indústria televisiva.

"Para mim, é muito bom perceber que é possível também conectar com as pessoas, mas, sem dúvida, a televisão é o veículo industrial mais forte, mais popular. Acho que é um veículo através do qual é possível fazer coisas muito boas", disse.

Sua declarada admiração pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de sua participação em dois projetos paralelos, o levou a rejeitar o convite do diretor Fábio Barreto para interpretar o político em um filme.

"Lula é um personagem maravilhoso, falando como ator. Acho que conectou com o inconsciente do Brasil. É um fenômeno, como é que um índio (Evo Morales) seja presidente na Bolívia, ou como o próprio fenômeno Hugo Chávez (na Venezuela), com todos os questionamentos possíveis", opinou.

Embora não considere que expressar opinião política seja "uma responsabilidade" dos artistas, João Miguel defende a idéia de que "todos os cidadãos são políticos por natureza" e que devem ter liberdade para pronunciar suas idéias de acordo com a coerência pessoal de cada um.

"Acho que não deveria ser uma obrigação. Mas vivemos em um mundo onde a celebridade é muito cultivada, e às vezes nos sentimos obrigados a falar de tudo", afirmou.

O ator acredita também que "a arte também é política, porque sempre se posicionará de alguma maneira e vestirá a camisa do que está fazendo". EFE vmm.sr/an

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