Há 2.800 anos, um funcionário da corte real da antiga cidade de Sam’Al - no que hoje é o sudeste da Turquia - inspecionava a confecção de uma estela, a placa de pedra que adornaria seu próprio túmulo.

O artista cinzelava o basalto e, aos poucos, emergia o perfil de um homem barbado, vestido com manto de franjas e um curioso chapéu enfeitado. Arqueólogos da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, anunciaram ontem ter encontrado a pedra esculpida, monumento que pode conter os primeiros relatos de crença no espírito.

Com quase 1 metro de altura e 60 centímetros de largura, a estela de 363 quilos foi desenterrada da casa onde o funcionário viveu. Para David Schloen, responsável pela expedição arqueológica, o achado demonstra, de maneira muito viva, que a cidade antiga de Sam’Al já integrava, no século 8º a.C., elementos das culturas semítica e indo-européia - por coincidência, o mesmo substrato sobre o qual surgiu, séculos depois, o Ocidente.

A língua é semítica, mas os nomes do funcionário e do rei são indo-europeus, bem como a crença de que a alma sairia do corpo e habitaria a pedra. Já os povos semitas acreditavam que a alma permanecia ligada aos ossos, o que tornava abominável a cremação dos mortos. Segundo os pesquisadores, a inexistência de ossadas na câmara e a presença de urnas para cinzas nos sítios arqueológicos vizinhos reforçam a tese de que o funcionário foi cremado.

O professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Pedro Lima Vasconcellos, recorda que diferentes concepções sobre a vida no além-túmulo têm reflexos concretos sobre o momento presente. “O dualismo que vê o corpo como realidade separada da alma, e até como prisão para ela, costuma encarar a morte como libertação”, explica Vasconcellos. “O sentido da vida passa a ser a morte.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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