Cidades do interior lideram homicídios no País

Mapa da Violência alerta para o aumento dos assassinatos em cidades pequenas

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

As sete primeiras cidades com as maiores taxas de homicídios por população do Brasil possuem menos de 70 mil habitantes. A informação consta no Mapa da Violência – Anatomia dos Homicídios, realizado pelo pesquisador Júlio Jacobo Waiselfisz, do Instituto Sangari.

De acordo com o levantamento, em dez anos, de 1997 a 2007, os assassinatos no interior do País aumentaram 37,1%, enquanto nas grandes cidades e regiões metropolitanas caíram 19,8% e 25%, respectivamente. No primeiro lugar do ranking está o município de Juruena, no Mato Groso, com população estimada em 6,6 mil pessoas e taxa de 139 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em seguida, encontra-se Nova Tebas, no Paraná, com 2 mil habitantes e taxa de 132 mortes.

Entre as dez primeiras cidades tidas como as mais violentas do Brasil, apenas Maceió (AL), Arapiraca (AL) e Linhares (ES), 8ª, 9ª e 10ª posição, respectivamente, têm mais de 70 mil habitantes.

A título de comparação, a capital paulista fechou o ano de 2009 com uma taxa de 11,23 homicídios para cada 100 mil pessoas, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP). O índice está próximo ao considerado aceitável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para países subdesenvolvidos, que é de 10 homicídios para cada 100 mil.

Pode-se dizer então que São Paulo é mais segura que Juruena? Para especialistas ouvidos pelo iG, não necessariamente. “O mapa da violência é importante para observar grandes tendências, mas não constatar que uma cidade é mais violenta do que a outra ou que a criminalidade migrou para o interior”, afirma Marcelo Batista Nery, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, é preciso cuidado ao analisar taxas brutas. “É errado achar que se pode pegar o índice de homicídios de uma cidade, dividir pela população e então comparar qualquer local. As cidades teriam que possuir características demográficas parecidas”, afirma.

O coordenador do Núcleo Interinstitucional de Estudos da Violência e Cidadania (Nievci) da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Naldson Ramos da Costa, ressalta que apenas um homicídio ou uma chacina elevam consideravelmente o índice em cidades muito pequenas, o que faz com que as taxas fiquem distorcidas. “Assusta de sobremaneira”, afirma.

“A taxa pode ser reflexo de um conflito específico daquele ano, que não é recorrente para dizer que a cidade é violenta”, completa Marina Menezes, coordenadora de Projetos de Segurança Pública do Instituto das Nações Unidas para a Prevenção de Delitos e do Deliquente (Ilanud).

“Cultura violenta”

Ressalvas feitas, pesquisadores concordam que é inegável que cidades do interior têm registrado aumento da violência nos últimos anos. Os motivos, segundo eles, são vários, desde a presença menos efetiva da polícia ao crescimento desordenado.

Nery, da USP, apresenta como uma das variáveis que influenciam o aumento do crime a construção de penitenciárias. “Pessoas ligadas ao preso migram para o município. Se isso ocorre em grande volume, tem impacto demográfico na região que é pequena e pouco habitada”, afirma.

Já o pesquisador Costa cita a “crise de valores na sociedade”, que, no entender dele, atinge tanto pequenas como grandes cidades. “As pessoas parecem ter perdido o medo de sanções, sejam elas éticas, religiosas ou penais”, afirma. No interior, ressalta o consumo cada vez maior de bebidas alcoólicas entre os jovens. “Virou um desinibidor de condutas e um meio de socialização”, considera.

Segundo ele, em cidades mais afastadas ainda está enraizada uma cultura de resolver os problemas por meio da força física. “A cultura autoritária ainda é bem mais forte no interior do que nas capitais. Há ainda a confiança da impunidade. Quando se tem certeza de que será punido, é mais difícil cometer o crime”, afirma.

Políticas específicas

Diferentemente das capitais, onde muitos dos homicídios são cometidos por brigas banais de trânsito, entre conhecidos e vizinhos ou ainda pela disputa entre facções criminosas, especialistas destacam que os motivos que originam os assassinatos no interior, geralmente, são outros: grilagem de terra, trabalho escravo, desmatamento, disputa entre fazendeiros e indígenas ou pequenos produtores.

“Há verdadeiras chacinas motivadas por disputa de terra. A pistolagem ainda é uma forma frequente de se fazer justiça”, afirma Naldson Costa. Municípios de fronteira também são locais mais vulneráveis ao crime, segundo ele. “Há diversas redes sociais com culturas diferentes, o que gera conflitos que muitas vezes acabam resolvidos com a força”, diz.

Melina Risso, diretora do Instituto Sou da Paz, destaca que não há “soluções mágicas” para a violência, mas a polícia precisa atuar junto à sociedade na busca de medidas que se adaptem à realidade local. “É totalmente diferente trabalhar para a redução dos homicídios entre jovens traficantes e na grilagem de terra”.


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