Cidade ganha mural de grafite com cenas da década de 20

SÃO PAULO ¿ No ano passado, o muro do acesso ao viaduto Tutóia, na Avenida 23 de Maio, zona sul de São Paulo, ostentava uma cor sem graça ¿ meio bege, meio marrom, meio cinza. Hoje, o espaço é ocupado por uma obra de arte rica em detalhes, presente do grafiteiro Eduardo Kobra e de mais seis artistas para a cidade, que completa 455 anos neste domingo.

Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo |

O painel de grafite, de quase mil metros quadrados, retrata uma cena da São Paulo da década de 20, baseada em fotografias da época. Como o muro é muito extenso, não existia uma imagem panorâmica que cobrisse o espaço. Então montei várias cenas, criando um mural fictício, explica Kobra. O realismo do grafite e a perspectiva das ruas retratadas convidam as mais de 220 mil pessoas, que trafegam diariamente pela movimentada avenida, a viajar para uma São Paulo mais tranquila, do tempo dos bondinhos e lampiões de gás.

Para conseguir a autorização da Prefeitura para trabalhar no muro, o grafiteiro negociou por mais de quatro meses. Segundo relata, foram necessários vários e-mails, reuniões e a colaboração extra do Secretário Municipal das Subprefeituras, Andrea Matarazzo. Ele se interessou pela proposta, mas queria saber exatamente como ficaria. Por isso, fiz uma montagem no Photoshop de uma foto do local com a cena que eu queria usar. Por ser um trabalho histórico, acho que ele gostou, e resolveu aprovar, conta Kobra.


Mural na Avenida 23 de Maio, em São Paulo / Marina Morena

No entanto, a aprovação só saiu no dia 2 de janeiro: Estava viajando e voltei com a ideia de entregar o mural no aniversário de São Paulo. Mas tinha pouco tempo. Kobra iniciou a pintura do muro no dia 5, com a ajuda de mais seis artistas. Para completar o painel em 20 dias, a equipe trabalhou de segunda a segunda, das 8h às 20h, sem patrocínio.

Sem patrocínio? Eu até conseguiria apoio se a liberação tivesse saído mais cedo. Sem a autorização da Prefeitura, ninguém banca o projeto. Vou tentar captar recursos depois, mas por enquanto sou eu quem está arcando com os custos, afirma Kobra. De acordo com o grafiteiro, entre materiais, mão-de-obra, transporte e alimentação, os gastos acumulam R$ 10 mil, que ele paga do próprio bolso.

Pouco espaço e muita tinta

Na calçada de um metro de largura, espremem-se artistas, latas de tinta e escadas de pintor. Ao lado deles, na avenida, veículos passam em alta velocidade ¿ o limite na 23 de maio é de 80 km/h ¿, sem notar os cavaletes e cones da CET, que sinalizam o trabalho. O único instrumento de segurança utilizado pelos grafiteiros é a máscara, que protege contra o esmalte sintético e o látex, usados na pintura do muro.

É bem mais difícil trabalhar aqui, porque, se você quiser ver como está ficando, tem que dar a volta no viaduto, conta Gláucio Santos, artista que trabalha no painel desde o dia 5 de janeiro. Perto do muro, o desenho parece um borrão, mas tomar distância para enxergar melhor, é risco de atropelamento. Eu jogo as cores que estão aqui no esboço e só depois vejo como ficou, simplifica Santos.

Muro das Memórias

O painel da 23 de maio faz parte de uma série de trabalhos do grafiteiro Kobra, iniciada há três anos, com a pintura de uma foto do porto de Santos, litoral paulista, registrada na década de 20. Chamo este projeto de Muro das Memórias, onde eu crio portais para o passado, retratando cenas históricas de São Paulo, conta o artista. O trabalho que originou a série ainda pode ser visto na Avenida Sumaré, região oeste de São Paulo.


Mural na Avenida 23 de Maio retrada a cidade na década de 20 / Marina Morena

Do mesmo artista, os paulistanos podem ver ainda reproduções em grafite do Largo de Pinheiros, de 1920 (esquina da Rua Cardeal Arcoverde com a Av. Henrique Schaumann), do viaduto Santa Ifigênia, em 1913 (Av. Pedroso de Morais), e da Av. São João, de 1950 (Av. Domingos de Morais).

O grafite é um pouco efêmero. Podem passar tinta em cima ou fazerem uma reforma que derrube o muro, mas eu tenho várias obras expostas na cidade, afirma Kobra. O grafiteiro diz que não tem problemas com a Prefeitura, que já apagou grafites irregulares ou por engano. Eu sempre peço autorização para o meu trabalho. Meus painéis são detalhados, demoram mais de um mês para ficar pronto, explica.

Há 20 anos, Kobra tinha um comportamento completamente diferente. Em vez de pedidos de autorização para a Prefeitura, pichações. As contravenções, praticadas desde os 13 anos, lhe renderam três detenções. Hoje aos 33, ele afirma que não faria isso de novo, e espera conseguir patrocínio com a ajuda da lei: Ao patrocinar um grafite, as empresas podem colocar uma placa de identificação no muro. A lei Cidade Limpa permite isso. Então vou tentar captar recursos por aí.

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