Chuvas matam 84 em Santa Catarina; cresce operação de ajuda

Por Pedro Fonseca e Fabio Murakawa RIO (Reuters) - O número de mortos por causa das fortes chuvas em Santa Catarina subiu a 84, enquanto se intensificavam na terça-feira as operações de resgate e ajuda às vítimas, muitas delas isoladas pelas águas e a lama numa das piores tragédias climáticas do Estado.

Reuters |

"Estamos de luto, o Estado está de luto, a situação é muito complicada", disse à Reuters o gerente de Operações da Defesa Civil de Santa Catarina, major Emerson Neri. "Nosso povo não está nada bem. Tem sido um trabalho árduo."

Segundo o major, no entanto, a chuva já perde a força no Estado, e o nível do rio Itajaí, que atravessa as regiões mais afetadas, baixou de 11,5 metros para 6,7 metros no final da tarde de terça-feira.

Cerca de 30 pessoas permaneciam desaparecidas, disse o major citando dados oficiais, o que poderia elevar o número de mortos para mais de 110.

Seis municípios catarinenses declararam estado de calamidade pública. Outros oito estão inacessíveis desde o fim de semana, com diversas estradas bloqueadas por enchentes e queda de barrancos. O total de habitantes ilhados nesses municípios chega perto de 100 mil.

Mais de 54 mil pessoas estão desabrigadas ou desalojadas. Desse total, cerca de 23 mil sem ter aonde ir recorreram a abrigos públicos, como ginásios, escolas e igrejas, segundo a Defesa Civil.

Enquanto isso, autoridades locais, estaduais e federais tentam se mobilizar para conseguir ajuda e dar seguimento ao resgate e amparo à população.

Cerca de 160 moradores ilhados foram resgatados no final da tarde da localidade de Morro do Baú, no município de Ilhota, a 111 quilômetros de Florianópolis. "É bem possível que haja pessoas soterradas por lá. E essas pessoas ainda não estão em nenhuma estatística", afirmou o major.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, informou em nota que militares enviados ao Estado já resgataram mais de 300 pessoas. "É lamentável o que está ocorrendo lá", disse Jobim.

O Ministério da Justiça anunciou o envio para o Estado de 46 homens da Força Nacional de Segurança.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, informou que viajará na quarta-feira ao Estado, onde se reunirá com o governador Luiz Henrique da Silveira. Segundo nota, Temporão anunciará medidas emergenciais de socorro às vítimas. Ele também sobrevoará as regiões afetadas.

MEDIDA PROVISÓRIA

O governo federal avalia ainda uma medida provisória para liberar recursos, mas o valor ainda não foi definido. "Depende muito da demanda, isso (valor) será definido nas próximas 48 ou 72 horas", disse à Reuters por telefone o secretário nacional da Defesa Civil, Roberto Guimarães, que desde domingo está em Santa Catarina à frente das operações de resgate.

Segundo o secretário, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, sobrevoou regiões atingidas nesta terça-feira e solicitou um vídeo com as imagens. A pedido do ministro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve apresentar ao Congresso a medida provisória nos próximos dias.

"Nós tivemos um tsunami de barro, lama, árvores... Veio tudo abaixo, tudo", disse a costureira Josiane Malmann, que foi resgatada por helicópteros num grupo de 200 pessoas que estava sem ter como sair do município de Ilhota, onde morreram 18 pessoas. Imagens de TV mostraram pessoas isoladas pelas águas pedindo ajuda no município.

Mais de 500 homens do Exército, com auxílio de veículos anfíbios, foram enviados para prestar socorro aos moradores de Blumenau, onde 20 pessoas morreram soterradas, e o prefeito João Paulo Kleinubing declarou no fim de semana estado de calamidade pública. As ruas da cidade estavam tomadas pela lama, segundo imagens da TV, apesar de a chuva ter dado uma trégua. Mas 150 mil pessoas continuavam sem energia elétrica no município, segundo a Defesa Civil.

Um grupo de salvamento da Força Área montou uma base na cidade de Navegantes, e governos de outros Estados enviaram helicópteros para ajudar no resgate de pessoas ilhadas.

"Em Ilhota e Itajaí, efetivamente, eles estão com muita água. O município de Itajaí está em torno de 80 por cento submerso", afirmou o secretário da Defesa Civil, que tem realizado sobrevôos diários sobre as áreas mais atingidas. O Estado vem sendo castigado por chuvas constantes há mais de três meses.

AJUDA

Parte da população está sem acesso a água e energia. E a Defesa Civil de Santa Catarina pediu a doação de água potável como prioridade, enquanto o governo federal disse ter entregue 286 toneladas de comida para os desabrigados.

O abastecimento de gás em municípios da região e no Rio Grande do Sul também foi afetado com o rompimento de um duto. A Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG) informou em comunicado, nesta terça-feira, que as obras de reparação no trecho do gasoduto rompido pela chuva vão levar 21 dias e que será colocado em prática um plano de contingência para o fornecimento a residências, hospitais e comércio durante esse período.

Durante evento em Brasília nesta terça-feira, o presidente Lula pediu um minuto de silêncio em respeito às vítimas das enchentes no Estado.

Segundo o secretário da Defesa Civil, a prioridade de Lula é conseguir abrigo, alimento e medicação para a população atingida pelas enchentes e deslizamentos.

"A primeira preocupação é com a integridade física, com a vida. A recomendação do presidente Lula é abrigar, medicar e alimentar as pessoas atingidas", disse o secretário, vinculado ao Ministério da Integração Nacional.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou, por meio de um boletim nesta terça-feira, que as recentes chuvas fortes sobre Santa Catarina foram "resultado do estabelecimento de um bloqueio atmosférico no oceano Atlântico que se formou durante a semana passada".

Segundo o Inpe, a "intensidade das chuvas está diminuindo. O tempo deve ficar nublado com chuva fraca até sábado".

Na década de 1980, o Estado de Santa Catarina também foi castigado pelas cheias. Em 1983, quase 200 mil pessoas ficaram desabrigadas e 49 morreram por causa da chuva, segundo dados oficiais.

(Com reportagem adicional de Alice Assunção em São Paulo)

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