Chuva provoca tragédia no Rio e deixa 95 mortos

Por Rodrigo Viga Gaier RIO DE JANEIRO (Reuters) - A chuva que atingiu o Rio de Janeiro pelo segundo dia seguido nesta terça-feira deixou ao menos 95 mortos no Estado, provocou deslizamentos, suspensão das aulas e fechou grande parte do comércio da capital.

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"Estamos trabalhando em diversas frentes e com certeza esses números vão subir ainda mais", disse o sargento Sérgio, do Corpo de Bombeiros, referindo-se às mortes causadas por deslizamentos.

Foram confirmadas 41 mortes em Niterói e 35 na capital. Também foram registradas vítimas em São Gonçalo, Nilópolis, Duque de Caxias, na região metropolitana, e Petrópolis, na região serrana do Estado, informaram os bombeiros.

Na capital fluminense, as aulas foram canceladas e a população foi orientada a permanecer em casa e deixar áreas de risco, depois de uma noite de caos.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou em coletiva que a suspensão das aulas será mantida na quarta-feira e fez um apelo para que a população deixe as áreas de risco.

"O principal apelo é que estas pessoas que vivem em áreas de risco, em encostas, não paguem para ver, o risco é muito grande", disse Paes.

A chuva, que começou por volta das 17h de segunda-feira, é considerada a mais intensa já registrada na cidade nas últimas décadas, e não parou de cair durante todo o dia. Várias vias de ligação entre as zonas norte e sul ficaram interditadas devido a pontos de alagamento e deslizamentos.

"A situação é crítica. São vias muito alagadas e paradas. A orientação para as pessoas é que não saiam de casa e evitem deslocamentos", disse Paes por telefone à Reuters na manhã desta terça.

As pessoas seguiram a orientação do prefeito e as ruas ficaram vazias, com poucos veículos circulando.

Numa entrevista coletiva posterior, o prefeito informou que em menos de 24 horas choveu em média 288 milímetros na cidade, e que havia pelo menos 10 mil residências em locais de risco, principalmente em morros e favelas. Segundo Paes, 1.410 pessoas estão desabrigadas.

"É a maior chuva das grandes tragédias da história do Rio de Janeiro", acrescentou.

De acordo com o instituto de meteorologia Climatempo, num período de 12 horas entre segunda e terça-feira choveu o que estava previsto para todo o mês de abril.

ALAGAMENTOS

Imagens de televisão mostraram nesta terça-feira que a Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul, transbordou e inundou as pistas em seu entorno. A Praça da Bandeira, na região central, alagou logo no início do temporal na segunda-feira e diversos carros que estavam no local ou que tentavam cruzar a região ficaram submersos. Muitos veículos foram abandonados.

No início da noite desta terça-feira, o nível da água havia baixado na Praça da Bandeira e os poucos carros que se arriscaram a sair conseguiam transitar em meio ao lixo das ruas.

A rua Jardim Botânico, na zona sul, e vias adjacentes também ficaram alagadas. Em Copacabana, moradores saíam para o trabalho na manhã de terça-feira caminhando com água na altura das canelas nas principais ruas do bairro.

Equipes de apoio e resgate da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros encontravam dificuldades para chegar a locais de maior risco. Havia várias informações de deslizamentos de terra em toda a capital fluminense.

A ponte Rio-Niterói e os aeroportos operaram de forma precária nesta terça.

SEM AULAS; COMÉRCIO FECHADO

Trabalhadores passaram horas dentro de ônibus na noite de segunda-feira sem conseguir voltar para casa devido a alagamentos. Pontos de ônibus ficaram abarrotados de pessoas que não tiveram transporte durante toda a madrugada.

Diante da forte chuva, as aulas foram suspensas nesta terça-feira. O governador Sérgio Cabral reconheceu as deficiências na infraestrutura da cidade, mas culpou o grande volume de chuva e a ocupação irregular de encostas pelo grande número de vítimas.

"Façam um levantamento do número das pessoas que morrem, são os mais pobres em áreas de risco. São aqueles que vão para áreas (de risco)", disse ele, que decretou luto oficial de três dias no Estado, a jornalistas.

O comércio também se viu obrigado a fechar as portas, pois muitos funcionários não conseguiam chegar ao trabalho. Em um shopping center da zona sul, diversas lojas estavam fechadas.

O Sindicato dos Lojistas da cidade do Rio estimou um prejuízo do setor de 170 milhões de reais por causa do temporal. Segundo o presidente da entidade, Aldo Moura, o comércio da capital fluminense tem uma média de faturamento diário de 190 milhões de reais.

"Noventa por cento dos estabelecimentos não abriram ou porque os funcionários não chegaram ou porque não tinha movimento. A nossa estimativa é que o comércio perdeu quase todo o seu faturamento do dia", disse ele.

"O impacto foi generalizado e atingiu todos os segmentos."

O temporal também derrubou árvores e comprometeu o fornecimento de energia em vários pontos da cidade. O Tribunal de Justiça do Estado teve que cancelar as audiências marcadas para os fóruns da cidade. Outros órgãos públicos suspenderam os serviços.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita ao Rio de Janeiro, cancelou a agenda prevista no Complexo do Alemão, onde inauguraria obras do Programa de Aceleração do Crescimento na comunidade.

"As enchentes atingem sempre as pessoas que moram em locais pobres, em locais inadequados", disse Lula a jornalistas no Rio. Mais tarde, em evento na cidade, ele pediu um minuto de silêncio em respeito às vítimas.

"Temos que esperar passar a chuva para cuidar das pessoas", acrescentou o presidente, que ofereceu ajuda ao prefeito e ao governador do Estado.

O Estado do Rio registrou uma tragédia similar, provocada por chuvas e desabamentos em Angra dos Reis, que deixou ao menos 50 mortos no início do ano.

(Com reportagem de Pedro Fonseca)

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