Dona da terceira maior expectativa de vida do País, Porto Alegre já tem 13% da sua população formada por pessoas da terceira idade. São 180 mil homens e mulheres que não abrem mão da tradição do churrasco em família, do chimarrão, mas que são praticantes de atividades saudáveis. É perceptível a presença desse contingente no dia-a-dia da capital gaúcha. Os cabelos brancos se destacam nos parques, teatros e cinemas.

Não à toa, a Câmara Municipal aprovou lei instituindo o Mês do Idoso, que faz parte do calendário oficial de eventos da cidade. Esse ano será a terceira edição que começou no dia 22 deste mês e vai até 21 de outubro. Na programação, há mutirão de saúde, caminhadas, mostra de canto e dança e shows. São pessoas que fazem parte da história da cidade e nosso dever é valorizá-los, afirma a coordenadora municipal de políticas para o idoso, Zhélid Quevedo Hunter.

A prefeitura não é a única instituição capaz de entender a importância dos idosos para a cidade. Professor de Educação Física, Diônio Kotz trabalha, desde 1979, com foco na população que já passou dos 60 anos. Ele diz que a procura deste público por atividades que possam melhorar sua qualidade de vida tem aumentado. Eu não podia me conformar com aquela história de que as pessoas se aposentavam e iam para casa colocar suas pantufas, deixando de lado atividades que sempre lhe trouxeram prazer, ou, com um sentimento de inutilidade. Foi assim que decidi com qual público queria trabalhar.

A realização de atividades físicas, a compreensão da importância de alimentar-se melhor e a prevenção de doenças são fatores fundamentais para a mudança do perfil do idoso

Anitta Scherer é um bom exemplo do que pode oferecer a melhor idade ¿ aos 85 anos, viúva, com sete filhos, doze netos e três bisnetos ela faz questão de comandar toda a família. Realiza tarefas domésticas, faz almoço, participa do Clube de mães, faz as compras de casa - sempre a pé, para exercitar as pernas - e não dispensa um passeio: pode ser viagem, festa de aniversário, casamento, ou, até velório, o que importa é não ficar em casa vendo o tempo passar, conta.

O diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Newton Luiz Terra, acredita que a realização de atividades físicas, a compreensão da importância de alimentar-se melhor e a prevenção de doenças são fatores fundamentais para a mudança do perfil do idoso.

O médico conta que, há 25 anos, quando se pedia para algum paciente exercitar-se, a resposta era: doutor, se me virem dando voltinhas na quadra, vão pensar que sou louco. Hoje, encontrar gente acima dos 60 anos caminhando em praças, parques e ruas de Porto Alegre é mais do que comum.

Gente como Olmedo Barcelos, que todas as manhãs está no Parque Farroupilha. Depois de uma corrida, ele senta com os amigos e prepara o chimarrão. A idade? Ele não revela, mas, garante: já passei dos 70, porém, estou bem melhor que aos 40.

Outro fator que colabora para o crescimento da expectativa de vida é o aumento da escolaridade. Pessoas bem informadas não procuram o médico apenas quando estão doentes. Terra acredita que dois terços dos seus pacientes hoje têm menos de 60 anos. Eu atendo às vezes pai, mãe e filhos. Ou seja, as pessoas começam a ver o geriatra não como médico de idosos doentes, mas como um especialista que pode auxiliar no envelhecimento com qualidade de vida.

Com mais de 30 anos de atuação na área, o médico afirma que Porto Alegre ainda não está preparada para o envelhecimento da população: não tem corrimão nos parques para que os idosos possam caminhar, faltam rampas de acesso aos locais e nem os banheiros públicos são adequados para esta população, que tem necessidades especiais.

"As pessoas começam a ver o geriatra não como médico de idosos doentes, mas como um especialista que pode auxiliar no envelhecimento com qualidade de vida"

"Na campanha eleitoral, ouvimos muitas promessas de creches para os pais deixarem os filhos, mas os candidatos ainda não se deram conta que a nova preocupação é onde deixar nossos pais", lembra o especialista.

A adaptação é lenta, mas, aos poucos, torna-se perceptível. No tradicional Acampamento Farroupilha, que ocorre todo mês de setembro, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre, o churrasco não pode faltar. Naturalmente. Este ano, no entanto, surgiu uma novidade: entre ovelhas feitas na vala e carne bovina nas churrasqueiras, o público pôde degustar uma tainha assada e frutos do mar.

Mesmo sem dispensar a tradição, a população porto-alegrense dá sinais de que pode ser flexível nos seus hábitos para envelhecer melhor.

Especial Dia do Idoso:

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