SÃO PAULO ¿ Um grande espetáculo serviu como plataforma para o lançamento do Vale Cultura na noite desta quinta-feira (23), no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, na presença do presidente Lula, que assinou o documento que oficializa o envio do projeto de lei ao Congresso Nacional. O benefício, no valor de R$ 50, vai funcionar nos mesmos moldes dos vales-transporte e refeição e conta com apoio maciço da classe artística: Fafá de Belém, a coreógrafa Deborah Colker, Bruna Lombardi, Claudia Abreu, o cineasta Cacá Diegues e o clã Barreto ¿ Luiz Carlos, Lucy e o filho, o diretor Bruno Barreto ¿ foram apenas alguns dos presentes na cerimônia.

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Lula observa apresentação no Teatro Raul Cortez e defende "acesso do povo à cultura"

Tanto entusiasmo se deve ao possível impacto econômico que a medida terá no setor. A previsão do Ministério da Cultura (MinC) é que a adoção do vale injete na indústria cultural cerca de R$ 600 milhões por mês, o equivalente a estrondosos R$ 7,2 bilhões por ano, utilizados na compra de livros, CDs, DVDs, ingressos de cinema, teatro, museus e shows. Conforme o ministro da Cultura, Juca Ferreira, o benefício não só deve trazer um incremento à renda dos artistas, como vai gerar um aumento nos postos de trabalho na área cultural. Onde houver trabalhadores demandando cultura, haverá uma ampliação da oferta de emprego, gerando microeconomias nessas regiões, apontou.

Esforçando-se para ser plural, a cerimônia reuniu artistas de diversas etnias e regiões do Brasil. Chico César, Roberta Sá, Tetê Espíndola, Vitor Ramil e Pinduca se apresentaram acompanhados e sozinhos, além de ter a companhia de um coral indígena, dançarinos e um grupo folclórico do Espírito Santo. Isso sem contar a participação do cineasta Eryk Rocha (filho de Gláuber), no palco para filmar ao vivo as apresentações. No encerramento, todos cantaram juntos a música Comida, dos Titãs ¿ os versos a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte têm sido usados à exaustão para ilustrar como a cultura é um bem fundamental na cesta básica do brasileiro, como diz Ferreira.

O Vale Cultura será concedido através de um cartão magnético, em um mecanismo similar aos outros vales, e será aceito apenas em redes credenciadas, cadastradas junto ao MinC. Se não utilizar todo o crédito de uma vez, o trabalhador pode usar o saldo restante no mês seguinte. O foco do programa são funcionários que ganham até cinco salários mínimos, o que, segundo dados da Receita Federal, deve abranger 12 milhões de pessoas. O empregado contribui com 10% do valor do vale, o equivalente a R$ 5 por mês. Os 90% restantes ficam por conta da empresa, que terá o benefício fiscal de abater com este gasto até 1% do imposto de renda.

Emocionado, Ferreira destacou o lançamento do programa como um momento histórico, uma revolução para colocar a cultura no centro do desenvolvimento do País. O ministro fez questão de reconhecer os pioneiros do projeto ¿ o diplomata Sérgio Paulo Rouanet e o ex-ministro Gilberto Gil ¿, que primeiro pensaram nas vantagens da novidade. Investir no consumo doméstico da família significa que serão gestados novos agentes culturais, novos artistas, criadores e poetas. Em pouco tempo, veremos que o espaço doméstico, até então conectado quase que exclusivamente à televisão, passará a ter também em seu interior outros atrativos.

Um cineminha para ver Lula, Filho do Brasil

Acompanhado de perto pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Lula até fez graça com o fato da mestre-de-cerimônias, a atriz Zezé Motta, citar mais de uma vez no protocolo a presença da possível candidata à presidência em 2010. Eu não vou ler a nominata porque a Zezé Motta leu tantas vezes o nome da Dilma Rousseff que se tivesse um juiz eleitoral aqui, a Dilma já estava prejudicada, brincou.

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Lula abraça o cantor Chico César no palco
do Teatro Raul Cortez, em São Paulo

Se referindo ao Vale Cultura como uma briga antiga, Lula afirmou que o projeto é o primeiro passo para que o povo brasileiro tenha acesso à cultura. O presidente, no entanto, defendeu outras iniciativas para que o impacto seja mais efetivo. Como exemplo, elegeu a falta de salas de cinema e de teatro nas periferias como opção de entretenimento. Cada vez fica mais difícil ir para o cinema por causa do transporte, segurança. O cidadão prefere sentar na frente da televisão e ver o que nós vemos, um misto de coisas boas com uma maioria de coisas ruins.

A solução, na opinião de Lula, não seria estatizar os cinemas ou construir salas públicas, mas iniciar o debate em busca de uma política que inclua definitivamente os habitantes das áreas mais pobres e afastadas, onde está a maioria da população, através de uma combinação dos poderes das prefeituras, governo federal e estadual.

Imaginar que um cidadão vai levantar lá nos confins do Judas, pegar um ônibus e levar duas horas para ir até o centro de São Paulo ver um filme é no mínimo não saber o conforto que é ficar na frente da televisão sem fazer nada. E fez questão de citar Lula, o Filho do Brasil, filme biográfico de Fábio Barreto sobre anos de sua vida antes da presidência. Um cineminha, Barreto, pelo menos para quando você terminar meu filme a gente ter esse prazer.

O carro-chefe do Vale Cultura são as estatísticas do IBGE, datadas de 2006, de que apenas 14% da população brasileira vão mensalmente aos cinemas, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Por isso, a ideia é que o projeto de lei chegue à Câmara dos Deputados em caráter de urgência urgentíssima, seja votado daqui a 45 dias e depois siga para o Senado em busca de uma aprovação em tempo recorde.

Espero que a gente consiga começar o ano com isso aprovado, porque depois também tem o processo cultural, que vai ter que ser trabalhado com os empresários, com os sindicalistas, na divulgação, afirmou Lula. É um trabalho que não é só do governo, mas dos artistas, da sociedade como um todo, para que as coisas possam acontecer.

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