Criados para dar apoio a pacientes, Caps não estão presentes de forma igualitária em todo o País

Os centros de Atenção Psicossocial (Caps) foram criados para ser um dos pilares da reforma psiquiátrica e funcionar como intermediário entre o atendimento ambulatorial e a internação após a saída de pacientes com transtornos mentais de hospitais psiquiátricos.

Com uma lógica inversa à dos hospícios, os Caps têm conseguido avanços na reinserção social dos doentes, mas enfrentam dificuldades estruturais e ainda não têm cobertura suficiente em todos os estados.

De acordo com o Ministério da Saúde, há 1.513 Caps em todo o país, mas a distribuição é desigual e não atingiu o parâmetro de uma unidade para cada 100 mil habitantes. Em toda a Região Norte, por exemplo, há 121 Caps, pouco mais da metade de unidades que existem no estado de São Paulo (235). Os dados se referem a maio deste ano.

Apesar da dificuldade na oferta dos serviços, o governo diz que o balanço de nove anos de implementação da reforma psiquiátrica é positivo. “A cobertura em saúde mental cresceu nos últimos anos. Em 2002, 21% da população estavam cobertos pelos Caps. Hoje atingimos 62% de cobertura”, compara o coordenador de Saúde Mental do ministério, Pedro Gabriel Delgado, em entrevista por e-mail.

Na região metropolitana de Manaus, às margens do Rio Negro, um Caps inaugurado há um ano mudou a rotina de cuidados com os portadores de transtornos mentais do município de Iranduba. Instalado numa casa simples, com uma grande árvore que serve de abrigo para sessões de terapia em grupo, o local tem mais de 180 usuários cadastrados.

A dona de casa Ivonete Marques é mãe de Dirlam, um dos primeiros pacientes do Caps. Depois de anos cuidando do filho em casa e de acompanhá-lo em internações, ela diz que o atendimento de base comunitária mudou o comportamento do rapaz. “A mudança foi grande, pelo menos aqui tem psicóloga sempre. Ele era muito rebelde, hoje está mais tranquilo”, conta.

Coordenadora do Caps Iranduba, a enfermeira Iraci Pizzello diz que muitos ainda desconhecem a nova lógica do tratamento em saúde mental. “A ideia não é ser um lugar em que as pessoas vêm apenas buscar remédios. Não somos um ambulatório, estamos aqui para fazer acompanhamento contínuo.”

Em Manaus, o diretor do primeiro Caps da capital, Gibson Santos, também ressalta a diferença entre a nova forma de tratamento e a visão hospitalocêntrica. “As pessoas têm que ter novas referências. A ideia é que os usuários saiam do tratamento intensivo e se apropriem de outros espaços sociais. A unidade tem esse papel integrador”, resume.

Com oficinas de artesanato, atendimento psicológico e psiquiátrico, e até salão de beleza para os pacientes, o Caps Silvério Tundis tem mais de 3 mil prontuários. No entanto, com poucos funcionários, a unidade é um retrato das falhas de infraestrutura da rede substitutiva aos manicômios. “Não conseguimos ter funcionamento pleno por falta de recursos humanos. A equipe está reduzida pela metade”, conta Santos.

Para o professor de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Nilson Gomes Filho, os Caps representam uma “mudança na lógica de trancafiar pessoas que necessitam de cuidados”, mas precisam ter a cobertura ampliada.

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