BEIRUTE ¿ A censura voltou a ser tema de debate no Líbano com a proibição do filme Help, do diretor Marc Abi Rached, onde sexo, prostituição e homossexualismo são tratados de forma explícita.

O primeiro longa-metragem do libanês conta a história de um adolescente, Ali, que mora em um furgão e cuja vida muda radicalmente após o destino colocar em seu caminho Zuraya, uma jovem prostituta que vive com um homossexual e cujas relações dão origem a um triângulo amoroso.

O filme, que, em 2007, obteve autorização do Ministério do Interior para ser rodado e, no ano seguinte, para ser apresentado nas salas de cinema, teve sua pré-estreia em fevereiro, mas a licença do longa foi retirada três dias antes de ser exibido.

"O que fizeram é imoral, ilegal, nada justifica que tenham revogado uma licença concedida pelo Ministério do Interior, sobretudo porque se agiu em conformidade com a lei", afirmou o cineasta. Para ele, o filme só mostra "os seios da atriz durante dois segundos, nada explícito, tudo insinuado", apesar de conter algumas cenas de sexo.

"Fiz minha própria autocensura, sei onde vivemos", afirmou Rached. "É absurdo que o gosto de uma pessoa predomine sobre a lei e a cultura", criticou.

No entanto, o diretor não pretende ficar de braços cruzados e advertiu de que, como último recurso, recorrerá à Justiça. "Sei que levará muito tempo e que algum dia ganharemos", assegurou.

Rached, que já iniciou contatos para exibir o filme no exterior, esclareceu que não se trata de vingança. "Só queremos que o sistema que nos rege se baseie na lei e não nos caprichos de uma pessoa. Não podemos permitir que reine a lei da selva e da barbárie", acrescentou.

Ele propôs uma solução: mudar a classificação do filme de livre para maiores de 18 anos para pessoas acima de 21. Rached afirmou que a proposta não foi aceita pelas autoridades, que querem cortar algumas cenas do longa-metragem. "Queriam que cortássemos sete minutos do filme, mas não cortarei nem um segundo, é desonesto", denunciou.

A censura no Líbano é feita pela Segurança Nacional, mas o Centro Católico de Informação, o Dar al-Fatwa (sunita) e o Conselho Superior xiita exercem pressão para impor seus pontos de vista.

A ativista Carmen Abu Yaude, diretora adjunta da Skeyes, um centro para a liberdade de imprensa no Oriente Médio, revelou que, após investigar, descobriram que o Centro Católico de Informação foi quem pediu para censurar "Help".

"Considerar que há cenas ousadas é uma hipocrisia, pois inclusive as televisões mostram muito mais que isso. O filme tem uma cena de dois homens e uma mulher na cama. É uma cena 'leve' em comparação com outras que se veem", afirmou Abu Yaude.

A ativista negou que a censura tenha sido motivada pela participação no filme da atriz Joanna Andraos, filha de um deputado. "Não creio, seu pai não se queixou e também não pediu que censurassem o filme", afirmou Abu Yaude, que lembrou que não é a primeira vez que uma produção é censurada no Líbano, um país que é considerado o mais liberal em seus costumes em todo o Oriente Médio.

Até agora, Rached recebeu várias ameaças através da internet de "extremistas que sequer viram o filme", e as pressões são tamanhas que, há duas noites, participaria de um programa de televisão ao vivo, mas ele foi suspenso.

Em um relatório publicado em 18 de fevereiro, Skeyes denunciou a deterioração da liberdade de imprensa no Oriente Médio.

Antes de "Help", também foi censurada a animação "Persépolis", que, no final, foi exibida nos cinemas pela grande polêmica causada e pelo apoio do ministro da Informação Tarek Mitri, que defendeu que a censura não existe atualmente porque tudo está ao alcance, graças à internet.

No Líbano, é possível encontrar qualquer filme, inclusive os proibidos, em DVDs pirateados por um valor que varia entre US$ 1 e US$ 3.

A censura para proibir um disco, jornal, revista, música, filme ou qualquer documento é aplicada quando se considera que é prejudicial para a moral, atenta contra uma personalidade ou país amigo ou provoca dissensões em uma nação onde coabitam 18 comunidades religiosas.

(Reportagem de Kathy Seleme)

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