Por Fernando Exman e Carmen Munari BRASÍLIA (Reuters) - Apesar da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manter em patamares recordes, especialistas e políticos acreditam que o eventual aumento dos impactos da crise financeira internacional sobre a economia brasileira deve alterar a percepção do eleitorado.

Na mais recente pesquisa de opinião, divulgada pelo Ibope, a avaliação positiva do governo Lula atingiu 73 por cento, enquanto o desempenho pessoal do presidente chegou a impressionantes 84 por cento.

Até agora, os indicadores da economia são muito positivos. No último trimestre, o crescimento da economia, medido pelo desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), cresceu 6,8 por cento. A inflação permanece sob controle e as empresas não anunciaram demissões em massa.

Segundo indicam as pesquisas, a conjuntura econômica internacional até reforçou a imagem positiva do presidente, uma vez que a população tem aprovado as medidas do governo para combater os impactos da crise.

Para o ano que vem, entretanto, as previsões não são otimistas. O governo reconhece que haverá desaceleração do crescimento, e a população, apesar de ainda acreditar que 2009 será melhor que 2008, já demonstra estar preocupada com os níveis de emprego e renda, como indica a queda de 26 por cento na venda de veículos novos em novembro.

Não é sem razão, portanto, que o Planalto passou a anunciar que suas ações para combater a crise têm como objetivo central evitar o desemprego, manter os investimentos e a produção.

Cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer lembra que os índices de inflação não refletem o efeito da alta do dólar em relação ao real e prevê que, se as demissões de trabalhadores aumentarem, as perspectivas para o presidente Lula são negativas.

Além disso, crê que a desaceleração da economia pode causar uma queda na arrecadação de impostos, o que diminuirá os recursos destinados aos programas do governo.

"Lula está surfando sobre o bom desempenho da economia", disse Fleischer à Reuters. "No ano que vem, a popularidade dele deve cair."

Fleischer acredita também que as dificuldades contaminarão a governabilidade e dificultarão as negociações do presidente Lula sobre sua sucessão. "Quando o navio começa a afundar ou está chegando ao porto, os ratos começam a pular para se salvar ou para chegar antes ao porto", analisou.

Munido de sua experiência na análise de pesquisas de opinião, o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do instituto Datafolha, não vislumbra grande queda nos índices de popularidade. Ele crê que Lula construiu uma espécie de colchão de segurança que deve protegê-lo dos efeitos da crise.

"A popularidade de Lula poderá ser atingida dependendo da intensidade da crise econômica global. Se os programas sociais do governo forem atingidos por falta de recursos, se faltar comida na mesa do pobre, se faltar emprego isso vai acontecer", analisou Paulino.

Ainda assim, ele acha difícil que o nível de avaliação caia abaixo de 50 por cento. As declarações enfáticas de Lula de que o país não deve ser atingido gravemente pela crise colaboram para esta tendência. "O poder de comunicação de Lula com essas frases como a da marolinha acabam gerando otimismo na população, sem entrar no mérito se é populismo ou não."

OPOSIÇÃO

A oposição no Congresso evita o discurso do "quanto pior melhor", mas não esconde a expectativa de ver uma queda dos índices de popularidade do presidente.

"Ninguém espera que a popularidade do presidente caia por causa de uma crise. Mas, se o impacto da crise se confirmar, certamente deve diminuir", acredita o deputado Rodrigo Maia (RJ), presidente do DEM, principal partido de oposição.

Para o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), a percepção da população em relação ao presidente e ao governo só não mudou porque as pessoas ainda acham que 2009 será melhor que 2008.

"Não tenho medo de um crescimento de 4 por cento (em 2009). Tenho medo das insanidades que o governo possa praticar para crescer esses 4 por cento", disse. "Os gastos públicos têm aumentado de forma irresponsável. Por isso o Brasil sofrerá."

Aliado do presidente Lula, o senador Renato Casagrande (PSB-ES), líder do PSB no Senado, concorda com a avaliação de que a popularidade do presidente pode ser afetada, mas negou que eventuais dificuldades advindas da crise prejudicarão a unidade da coalizão que sustenta o Executivo no Legislativo.

"O governo ultrapassará esse momento de crise com respaldo político do Congresso e da sociedade. Se o Brasil continuar passando bem, o presidente sai com mais força ainda."

Nesse cenário, o cientista político Marcus Figueiredo, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio (Iuperj), lembra dos impactos na possível candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) em 2010.

"Para se eleger, ela vai ter que buscar luz no Lula. Se o governo conseguir minimizar os efeitos da crise é ponto para ele e para ela", afirmou.

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