Turista quebra estátua de Patativa do Assaré e cidade fica "órfã"

Homenagem a um dos maiores poetas do País era frágil e não resistiu ao abraço de um admirador

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Nunca vi uma estátua que não fosse pregada ao menos com parafuso ou cimento. Estava tudo solto, colocado feito um jarro de flor em cima da mesa”, diz turista

A cidade natal de Patativa do Assaré ficou sem um de seus cartões-postais. A estátua do popular poeta cearense, que ornava a praça da Igreja Matriz da pequena Assaré, no Cariri cearense, foi quebrada em diversas partes. Feita de resina, e sem condições de restauro, à família e população só resta aguardar novo monumento.

O acidente que partiu a escultura que reproduz o franzino poeta, nascido em 1909 e morto em 2002, foi provocado há dois meses por um turista que subiu no pedestal da estátua para fazer uma foto ao lado da imagem de seu ídolo. Políticos locais prometeram à cidade uma nova estátua, desta vez em bronze, no valor de R$ 60 mil, mas que ainda não ficou pronta - e nem tem data para ficar.

A estátua, em tamanho natural, medindo 1,60m, estava localizada desde 2004 em frente ao Memorial Patativa do Assaré, na rua Coronel Francisco Gomes, ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Assaré. O pequeno município está encravado no lado oeste da Chapada do Araripe, no Cariri cearense, distante 520 quilômetros de Fortaleza.

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Estátua quebrada de Patativa do Assaré: "Eu estou todo torto. Não posso pegar peso”, diz turista que quebrou homenagem
A presidenta da Fundação Memorial Patativa do Assaré, Isabel Cristina – neta do autor de poemas como “Triste Partida”, musicado por Luiz Gonzaga – contou que ficou revoltada ao tomar conhecimento do ocorrido. No entanto, quando soube que não foi algo proposital, e que o autor do feito era um grande fã de seu avô, resignou-se. “Foi um acidente. Ele é um admirador e agiu por impulso”, diz ela.

Quando se posicionou para o clique ao lado de patativa, o turista escorregou, tentou se amparar na estátua e acabou no chão abraçado ao monumento, já despedaçado. “Estava claro que as pessoas não podiam ter acesso. Tanto que ele precisou subir e teve que usar até uma cadeira”, explicou a neta do poeta.

Feliz, mas não muito

Claudeilton Soares Alves, 40. Cabeleireiro, natural da cidade de Patos, na Paraíba, radicado em São Paulo. Quando soube pelo repórter que o incidente provocado por ele vai acabar proporcionando à Assaré uma estatua nova de seu filho maior, desta vez em bronze, o paraibano Claudeilton pareceu aliviado - e literalmente dolorido. 

É que o evento teve para ele consequências graves, assim como para a estátua. O cabeleireiro fraturou a clavícula, deslocou o braço e lesionou um joelho, enquanto a estátua se partiu nas pernas, no tronco e no pescoço. “Eu estou todo torto. Não posso pegar peso”, diz Soares.

A viagem que iria durar mais 15 dias Nordeste adentro terminou findando por Assaré mesmo. Claudeilton, mesmo sendo responsável por um prejuízo de R$ 60 mil, não esconde certo ressentimento. “Nunca vi uma estátua que não fosse pregada ao menos com parafuso ou cimento. Estava tudo solto, colocado feito um jarro de flor em cima da mesa”.

Não morro de amores pelo resultado final da estátua quebrada. Acho muito realista, naturalista. Acho que agora poderíamos pensar em algo mais alegórico, menos parecido com estátua de cemitério", diz especialista

Réplica

A estátua de Assaré era uma réplica de outra em bronze exposta desde 2004 no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. A cópia foi um presente. Quem fará a nova é o escultor paulista Murilo Sá Toledo, que também é responsável pela primeira obra em Assaré e pela versão de bronze que está em Fortaleza.

Para esculpir a obra, o artista precisará de, no mínimo, três meses. “Eu não tenho mais a forma. A que existia era de silicone e estragou”, explica Murilo. O trabalho custará R$ 60 mil por ser em bronze.

Uma possibilidade cogitada por Murilo é de fazer uma obra diferente. “Para mim, como artista, é mais gratificante fazer de uma forma original. Agora eu poderia fazer uma estátua dele como se estivesse andando por uma praça. Para isso, eu precisaria fazer outro estudo”.

Na primeira escultura, Patativa está postado com a mão direita erguida e aberta. "Ele tinha essa mania de falar com o braço, com as mãos. Na hora de fazer a peça, eu estava preocupado em retratar isso e a pessoa simples e humilde que ele era”.

Alivio com fim da estátua

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A estátua original de Patativa, antes de ser quebrada. Especialista não gostava dela: "Parecia que ela estava pedindo esmola"
Murilo Sá tem como característica a reprodução fiel de expressões, gestos e posturas. Para quem provavelmente é o maior especialista em Patativa, é no realismo que está o problema da representação antiga do poeta.

A escultura em bronze fundido exposta no Centro Dragão do Mar foi concebida por Murilo com base no material de pesquisa fornecido pelo professor aposentado da Universidade Federal do Ceará (UFC), Gilmar de Carvalho.

Pesquisador da cultura popular cearense, Gilmar acredita que essa é uma oportunidade para que se faça uma estátua que retrate melhor o universo do poeta cearense. “Não morro de amores pelo resultado final da estátua quebrada. Acho muito realista, naturalista. Acho que agora poderíamos pensar em algo mais alegórico, menos parecido com estátua de cemitério", diz ele. 

Outra crítica que o pesquisador faz à forma como Patativa foi representado é em relação à maneira como a mão do poeta está posicionada. “. O pessoal até brinca com isso”, lamenta Gilmar. “A gente acha pobre para dar uma ideia do que ele foi para a geração futura”.

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