Praias de Fortaleza não têm placas que avisam sobre poluição

Governo diz que placas são arrancadas pela população e pelos donos de barracas. Hoje, 60% do litoral da cidade está impróprio para banho

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

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Praia do Mucuripe, em Fortaleza: cinco dos dez pontos em que são coletadas amostras de água do mar estão poluídos
Fortaleza tem 27 quilômetros de orla marítima. A cor esverdeada e a temperatura agradável das águas do mar são um convite para o banho. O clima aprazível e tanta beleza, contudo, podem esconder perigos para a saúde dos banhistas. Um estudo mostra que 60% das praias de Fortaleza estão poluídas. Como não há nenhum tipo de sinalização informando sobre a balneabilidade das águas, como acontece em São Paulo, por exemplo, a população não tem como saber se pode ou não entrar na água.

A Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace) monitora a balneabilidade das águas da capital cearense e divulga boletins semanais informando quais pontos estão próprios para o banho e quais não estão. Analisando os boletins do primeiro semestre de 2011, os técnicos concluíram que 19 dos 31 pontos avaliados ao longo de toda a extensão do litoral da cidade estão poluídos.

O problema é que esses boletins são disponibilizados apenas no site do órgão responsável e por meio da imprensa local. Quem vai à praia no final de semana sem ler o jornal, portanto, corre o risco de nadar em águas que irão causar doenças intestinais e de pele, por exemplo. Não há nenhum tipo de informação nas praias informe o banhista sobre a qualidade das águas. Falta sinalização.

O gestor ambiental da Semace, Lincoln Davi Mendes, afirma que o órgão já tentou instalar placas nos pontos considerados impróprios, mas a iniciativa fracassou, porque, segundo ele, a própria população retirava a sinalização de alerta. “Nunca houve flagrante para dizer que é o barraqueiro ou os banhistas que tiravam as placas”, conta.

O boca a boca funciona muito bem”, diz gestor ambiental do governo

Em praticamente todas as praias de Fortaleza, e não apenas na Praia do Futuro – a mais conhecida – , existem estabelecimentos comerciais instalados na areia, que oferecem comida, bebida e vários serviços. Essas “barracas de praia”, apesar de serem chamadas assim, em muitos casos, são verdadeiros complexos de lazer. Não seria comercialmente interessante estar instalado em um ponto da orla onde uma placa informa que o mar esta sujo.

No centro do litoral de Fortaleza, onde estão praias movimentadas como as do Náutico e Mucuripe, nos dez pontos em que são coletadas amostras de água do mar, a metade foi classificada como poluída. Próximo a tradicional feirinha de artesanato da avenida Beira Mar uma galeria pluvial gigante leva não apenas esgoto sem tratamento para o mar, como despeja junto dejetos sólidos. Mesmo com tanto lixo no entorno, ainda existem pessoas que utilizam a área para o lazer.

A presidenta da Associação dos empresários donos de barracas da Praia do Futuro, Fátima Queiroz, é proprietária de uma barraca há mais de 20 anos e diz que só uma vez foram instaladas sinalizações com aviso sobre a balneabilidade das águas. “Só em 1995, se não me engano, colocaram umas placas com hastes de ferro, que foram corroídas pela maresia até sumirem”, conta. Ela nega que os donos das barracas arranquem as placas. 

Praia do Futuro

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Canal leva água poluída para o mar da Praia do Futuro
Os oito quilômetros de extensão da orla da Praia do Futuro já foram considerados um dos mais limpos entre as praias urbanas do Brasil. Segundo o relatório da Semace, no setor leste do litoral, onde está a Praia do Futuro, dos 11 pontos analisados, apenas cinco foram considerados próprios para banho.

A maior parte do problema está na rede de esgotamento sanitário do município, que cobre apenas 52% da cidade. Com isso, a população acaba ligando esgotos clandestinos às galerias pluviais. Essas galerias deveriam servir apenas para escoar a água da chuva. Como tudo que é coletado por elas vai parar no oceano, a sujeira acaba poluído as águas. Mas não são apenas residências que poluem o oceano com seus esgotos sanitários. Das 80 barracas em funcionamento na Praia do Futuro, apenas 23 estão ligadas à rede de esgoto. A Prefeitura de Fortaleza tem um projeto para mudar isso, mas foi embargado pelo Ministério Publico Federal.

O rio Cocó, que deságua nesse trecho do litoral, aumenta a poluição. O rio nasce na Serra de Aratanha em Pacatuba, na região metropolitana, e tem 87,5% dos seus 50 quilômetros de extensão poluídos. Todo dejeto que é jogado nesse rio também vai parar no oceano, como acontece com as galerias pluviais.

Periferia

Na outra ponta da orla de Fortaleza é o rio Ceará que contribui com a sujeira no litoral oeste. O lugar é um dos mais belos da cidade, e onde a situação é mais grave

Desavisados, os banhistas se expõem a várias doenças mergulhando em águas que, em determinados períodos, apresentam índices de poluição duas vezes maior que o tolerável, como é o caso do setor oeste, onde ficam alguns dos bairros mais pobres da cidade. Dos dez pontos analisados, somente um foi tido como próprio para o banho.

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Barra do Ceará, no litoral oeste de Fortaleza
O gestor ambiental da Semace, Lincoln Davi Mendes, afirma que a equipe que faz a coleta para os testes sobre a qualidade da água costuma avisar aos moradores do entorno sobre a situação. “O boca a boca funciona muito bem nesses casos”, defende.

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